Jonel Chede (2015) Comércio – Palmeira – Paraná

Nasci em Palmeira, nossa querida terra denominada com muita propriedade, cidade clima dos campos gerais. Nasci em 20 de julho de 1936. Lá moravam os meus avós, libaneses. Chede Abraão e Rosa Daher Abraão. E meus pais João Chede e Nela Menghini Chede, união de um casal vindo de uma origem libanesa e minha mãe vindo de uma origem italiana.

Essa oportunidade de reviver esses quase 80 anos de vida, começou em Palmeira, lá nos fizemos, aprendemos a ler, aprendia-se a ler com uma professora, e me lembro muito bem chamada Paulina Perota. Dali ia-se para o grupo escolar, e Palmeira tem grande parte da sua história voltada pra Gesuino Marcondes. O ginásio inicialmente era no mesmo prédio. Era escola primária e ginásio.

Em 1946, meu pai, ex prefeito em todo o período da era Vargas. E, no livro editado por Fernando Fontana, a história do interventor Manoel Ribas, consta algo que nos sensibilizou muito, que é a carta em que o interventor Manoel Ribas mandou para o meu pai em 31 de março de 1935, felicitando-o pelo casamento. E com uma particularidade, todos pensavam que pela cultura e até pela escrita, essa carta inclusive, toda ela redigida na segunda pessoa do singular, pensando que ele realmente era gaúcho, não ele era pontagrossense.

Então esse período que o interventor Manoel Ribas, que coincidiu com o do meu pai na prefeitura, ele foi muito marcante. Mas ainda continuamos em Palmeira e depois viemos para Curitiba em 51. E lá seguimos nosso curso colegial, nos preparamos para o vestibular, no curso de engenharia. E muitos se perguntam, mas porque engenharia? O meu avô Chede Abraão, e depois meu pai, eram muito ligados a família Jafet. Na ocasião, a família Jafet era um destaque nacional. Família Jafet criou o Hospital Sírio Libanês, a família Jafet inaugurou a Rua 25 de Março. E eles tinham 11 usinas siderúrgicas. Na época era equivalente o que é hoje a família Gerdau, mas muito mais.

E em função desse relacionamento com a família, o doutor Roberto Jafet, engenheiro metalurgista, formado nos Estados Unidos, na mesma universidade que se formou o doutor Antônio Ermírio de Moraes e eu conhecendo, e já indo visitar as usinas, naturalmente optei pela engenharia química. E durante o curso, já estagiava nas 11 usinas, e logo que me formei e o doutor Roberto me convidou pra gerenciar tecnicamente uma das usinas, a usina siderúrgica São José. Lamentavelmente, esse grupo sofreu injustamente em 64, 65 os efeitos de uma revolução autoritária. Essas usinas praticamente todas fecharam, e veio a ascensão do grupo Gerdau. Mas por experiência naturalmente no excelente grupo, nós viemos a trabalhar na siderúrgica Guaíra, que foi fundada por um grande pioneiro, que está por merecer uma homenagem do Paraná, doutor Rubens Santos.

E depois disso, naturalmente, os anos vão passando e a gente precisa também perpetuar, e, naturalmente, tentar manter aquele patrimônio que vem lá dos avós. E ingressamos no setor hoteleiro, com o hotel Universo Tourist. E porque Universo? Por uma ligação muito forte com o irmão de meu tio Nagib Chede, que todos os senhores conhecem. Foi o pioneiro da televisão no sul do Brasil, e que está aí hoje como uma grande potência, mercê de uma convivência muito afetiva e muito próxima deles com o doutor Francisco da Cunha Pereira, que depois naturalmente, isso se estendeu à minha pessoa. E hoje estamos muito próximos do sucesso dos herdeiros do doutor Francisco.

Mas acontece aí uma coisa muito interessante, o doutor Francisco, quando nós ingressamos no setor hoteleiro, o grupo também tinha um hotel, o Hotel Caravelle. Era na época um hotel de muito destaque. E ele quando veio da Alemanha, nos convocou para uma reunião, que foi no Hotel Tourist da Praça Osório. Dizendo que Curitiba tinha necessidade urgente de ter um centro de convenções, e que este centro de convenções teria que ser na cidade. E saiu o centro de convenções de Curitiba, na rua Barão do Serro Azul. Passados alguns anos, doutor Francisco, muito apropriadamente, funda o Movimento Pró Paraná. Continuamos lutando e no Movimento Pró Paraná que nós presidimos em 2011, levantamos e defraudamos bandeiras paranistas. Temos também uma convivência através de entidades de classe na associação comercial. O tempo que eu fui presidente, de 1998 a 2000,  eu sempre defendi e defendo que a entidade tem que ser apartidária, porém tem que ser política.

Depois no decorrer dos seus quatro anos de gestão, sempre aqueles assuntos da associação que nós não pudemos terminar veio o pedido, para que nós coordenássemos o projeto Centro Vivo.

Esse projeto foi desenvolvido na Associação Comercial. Ele teve ênfase na gestão do Marcos Domakoski, e naturalmente, por uma série de relações e até pela maneira de a gente conduzir os assuntos altruisticamente na associação e outras entidades. Ele me pediu pra ser o primeiro gestor do Projeto Centro Vivo. O Projeto Centro Vivo tem uma peculiaridade muito interessante. Ele é uma parceria pública/privada né, mas sem papel assinado. Na ocasião, quem nos estimulou muito e trabalhamos muito, foi o Cassio Taniguchi. As reuniões do IPPUC eram feitas na Associação Comercial, com todos os comerciantes da Rua XV. Nesse período do Cassio, foi aberta a Rua XV. Abriu-se todo o trecho do antigo prédio do Bamerindus até a universidade, onde nós tínhamos galerias ali de esgoto do tempo do Império. Todas elas deterioradas, etc. Então o que que se fez, se reestruturou toda a parte subterrânea da Rua XV. Depois veio naturalmente o mobiliário público né.

Os postes eram aqueles postes tipo Copa do Mundo. Que era um conduíte com uma aboborazinha de plástico. E nós achamos por bem trazer a tradição, que era os postes modelo Império. Bom, depois de feito isso, veio uma segunda etapa. Que eu acho que foi tão importante quanto a primeira. Os comerciantes, eles vieram pedir animação para a Rua XV, né. Aí nós conseguimos fazer um tipo de um condomínio, e o pessoal dizia o Chede é o presidente, não o Chede é o síndico, porque estavam todos os comerciantes. E cada um pagava uma contribuição em função do seu capital social registrado na Associação Comercial. E aí nós começamos a fazer a animação. O que que é animação? Não conseguimos da montadora de veículos local, passados nove meses, fomos a Minas Gerais e conseguimos da Fiat a doação de seis carros Palio.

E em cada data festiva, dia das mães, natal, todas as datas festivas em que o comércio precisa muito da animação, nós fazíamos o sorteio desse carro. Cada venda de trinta reais dava direito a um cupom. O último sorteio nós tivemos 680 mil adesões. Veja como é importante esse shopping a céu aberto que é a Rua XV, que passam 140 mil pessoas/dia. Mas houve um fato pitoresco, interessante. Nós sempre tínhamos assessoria da empresa oficial de loteria da época, na hora do sorteio. E eu sorteei um determinado cupom de trinta reais, era compra de uma sandália. E quando eu passei pro fiscal ele disse: negativo, não tem o CNPJ da empresa, a pessoa esqueceu. Rodou-se aquilo, e puxei o segundo cupom. Quando olhei digo: mas que mulher de azar, pela segunda vez, não, mas tinha o CNPJ, a mesma, em 680 mil cupons. Aí alguém diz assim: a o Chede é mão santa, eu digo não, a sorte era dela, né. Isso foi pro Globo Repórter, teve uma repercussão. Os matemáticos fizeram probabilidades, 1 em 150 milhões. E essa moça, ela era e é funcionária do Sistema Previdenciário. E ela fazia maratona nos Andes. E disse: olha doutor Jonel, eu gostaria muito de ter o carro, mas o senhor não quer pagar o carro em dinheiro? Tudo bem, não tem problema, a gente vende e você recebe. E ela fez a maratona dos Andes, e foi bem colocada. Mas o marketing dessas multinacionais é muito importante, por exemplo, no dia dos pais, com sorteio de um carro Palio, não era dia dos pais, era dia do Palio. Então, aí você começou a sentir. Os grandes colaboradores, é o Canal 12, a Gazeta, tudo com mídia espontânea, volumosa. O HSBC, que era um dos polos da Rua XV, e o sistema de telefonia Vivo, porque depois criou a loja Centro Vivo.

Então é, da Rua XV veio pra Marechal Deodoro. A Marechal Deodoro hoje é uma das ruas mais “clean” do Brasil, não tem um fio pendurado, é tudo subterrâneo. E isso naturalmente foi se estendendo depois em outras áreas, praça Praça Tiradentes né. A Praça Tiradentes, ela foi revitalizada. E muito naturalmente, e é uma coisa muito estranha, a Rua Riachuelo também foi. E a Rua Riachuelo hoje é mais ou menos uma rua temática né, de vender móveis antigos, tudo isso. E em 2006 nós deixamos isso aí, somos entusiastas.

Fomos competir em São Paulo, na Fundação Getúlio Vargas, com esse projeto, e disputamos com 118 projetos do Brasil. Por dois anos ganhamos o projeto da Fundação Getúlio Vargas. Escola Superior da Fundação Getúlio Vargas. Isso deu repercussão, vieram estudantes de Miami pra ver o projeto.

Preciso passear mais na Rua XV. Mas ela tem uma característica muito importante. E aí veio a ideia de um projeto chamado Auto Estima. E eu me recordo muito quando se estudou, num debate sobre o que se faz hoje novamente, do novo sistema urbanístico de Curitiba. Que o Mazza, nosso jornalista e comentarista do cotidiano, que eu tenho grande admiração por ele, me perguntou, eu era presidente na época, da associação dos hotéis: Chede, o que que você acha do novo modelo, a liberação do mundo, de trazer marcas de fora, de marcas daqui se tornarem internacionais? Eu disse olha, vou contar uma história pra você, pra tentar, emblematicamente, poder te responder.  Disse, olha, quando eu casei, em 1963, isso era muito comum, você comprava um conjunto de mala Ika pra fazer a lua de mel. Comprava uma sala e um quarto da Móveis Cimo. Pagava com cheque do Banco Mercantil Industrial do Paraná, ou com Banco do Estado do Paraná. Comprava na então farmácia Minerva, ou na farmácia Stelffeld. Bom e o que que restou? Eu também torcia pro Clube Atlético Ferroviário. E ele, Mazza, disse:” Mas o que que restou?” Restaram os amigos, e a família. Aí eu me lembrei no movimento Pró Paraná diz assim: Precisa criar uma autoestima o Paraná, precisa gostar do Estado do Paraná. Porque nós estamos perdendo todo dia as marcas, né? E às vezes esquece os valores do Paraná, e o Paraná tem grandes valores. Então, esse é um projeto que também terá que ter continuidade no Movimento Pró Paraná. Tivemos grandes companheiros nisso aí, desde o tempo do doutor Francisco na televisão, na Gazeta. Depois com os atuais sucessores de sucesso, Ana Amélia, o Guilherme, todo seu corpo de redação. Um grande companheiro do Movimento Pró Paraná, que eu sempre preciso exaltar, é a figura do doutor Glomb, ex presidente da Ordem dos Advogados.E eu procuro trazer na lembrança os bons momentos. Eu sempre digo lá nas reuniões que isso é alegria da saudade que a gente tem da sua terra natal.

Minha falecida esposa, Clecy Camargo, que também tem origem de família lá de Palmeira, e terra do Visconde de Guarapuava, Antônio de Sá Camargo e irmão do famoso Padre Camargo. Esse é famosíssimo porque, no dia do casamento, casou a noiva e fugiu com ela.  Depois ele veio pra Curitiba, e aqui ele ganhou notoriedade, isto, já mais idoso, mais experiente. E era a figura principal que recebia aqui o Dom Pedro II.

Também presidimos a Associação de Hotéis, no tempo em que a hotelaria era essencialmente familiar. Eu acho que isso reforça nossa tese da autoestima. Então, é preciso que a gente passe a gostar mais da nossa terra. Ela tem muita coisa, tem muita história. Eu vejo o trabalho aqui da Academia Paranaense de Letras, dona Chloris, Instituto Histórico e Geográfico, e eles tentam sobremaneira, passar isso pra população. Eu acho isso muito importante. Para nós termos a nossa identidade. Se nós não aprendermos a gostar daquilo, tentando perpetuar aquilo que é nosso, qualquer dia nós não temos identidade. Valores nossos, e a identidade não é uma carteira de identidade, ela é muito mais do que isso.

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