Roberto Pirajá Moritz de Araujo (2016) – Medicina – Curitiba – Paraná

Nasci em Curitiba, em 13 de julho de 1942, em uma velha casa de madeira, no Bairro do Portão. Morávamos tão distante do centro da cidade que meu pai, quando precisava ir ao centro, dizia: “Vou a Curitiba”.
Meu pai, Affonso Araujo, nasceu em Palmas, no oeste paranaense e criou-se na área rural. Sempre guardou as características de ingenuidade e bondade, que marcaram toda a sua vida.
Por ocasião da Guerra do Contestado, quando a Fazenda Pitanga de propriedade de sua família foi invadida, seus moradores transferiram-se para Porto União da Vitória. Lá, Affonso aprendeu o ofício de farmacêutico prático com o farmacêutico da cidade, Willy Carlos Frederico Jung. Voltando à Palmas, abriu sua própria farmácia.
Minha mãe, Leonor Moritz de Araujo, nasceu em Rio Negro, Pr, em família de Monarquistas. Enérgica, estudiosa e proativa, vivia imaginando coisas para melhorar o ensino. Sempre cheia de idéias, procurava o modo de concretizá-las. Estimulava-nos a ler, discorria sobre as maravilhas encontradas em um mundo que conhecia nos livros. Com ela, aprendi a levar o estudo a sério, a ter vontade de ensinar o que sei a quem estiver disposto a aprender, a ser curioso. Com ambos aprendi a amar e servir o próximo.
Casaram-se em 1926 e foram residir em Palmas, onde meu pai dedicava-se à sua farmácia e minha mãe, professora habilitada, dirigiu o Grupo Escolar da cidade.
Mudaram-se para Curitiba no ano 1932, onde Affonso estabeleceu a Farmácia Araujo, no Bairro do Portão, ainda como farmacêutico prático. Uma vez em Curitiba, reiniciou seus estudos, graduando-se em Farmácia pela Universidade Federal do Paraná 1941, aos 41 anos de idade. Minha mãe, mais uma vez, passou a dirigir o grupo escolar do bairro do Portão.
E no bairro, vivi toda a minha infância, onde a alegria estava em andar de bicicleta e correr pelos campos, jogando bola. Morávamos na sede da Farmácia Araujo
Quando sobrava um tempo, entre as brincadeiras e estudo, ajudava meu pai atendendo alguns fregueses no balcão da farmácia.
Seu Affonso, como era conhecido, era procurado por muitas pessoas de todos os níveis sociais, pois tinha grande credibilidade quando se tratava de assuntos de saúde. Demonstrava uma paciência quase infinita e um carinho especial para o trato com todos. Eu, adolescente, mesmo sem ter acesso aos assuntos tratados por ele, percebia-o aconselhando aqueles que o procuravam, desde os mais esclarecidos até os mais humildes, e sentia intenso orgulho de ser filho do Seu Affonso Araujo, o quase-médico.
Em torno da farmácia estabeleceram-se vários médicos, os quais ali reuniam-se nos fins de tarde, ao término de mais um dia de trabalho. O assunto era variado, e fatos da prática médica eram apresentados em algumas ocasiões. E eu ficava no meu canto, escutando aquelas conversas intrigantes, imaginando o que era ser médico. Assim, nunca pensei em qualquer outra forma de participar do mundo adulto senão como médico. E, assim, cumpri meu destino.
Tive uma irmã e um irmão respectivamente 14 e 12 anos mais velhos que eu, de forma que minha experiência familiar foi de filho único, a criança da casa.
Cursei os anos iniciais, de minha educação formal, no Grupo Escolar Barão do Rio Branco. Posteriormente fui estudar no Colégio Santa Maria, pois minha mãe, diretora do grupo no Portão, acreditava que se me levasse para estudar em sua escola, eu teria regalias que ela não pretendia me dar. Ali terminei o curso secundário e, após, o Cursinho pré-vestibular, sendo aprovado. Entrei para a Faculdade de Medicina aos 18 anos de idade.
Durante o curso fui um aluno regular, aproveitando todas as oportunidades para aprendizado. Sempre apaixonado pela área clínica, tinha na relação médico-paciente o ponto alto de minha participação.
No sexto ano do curso fui fazer estágio na nova especialidade da Clínica
Médica, a Pneumologia, na ocasião ministrada apenas por Dr. Léo Choma, recém-egresso do Hospital do Servidor do Rio de Janeiro – então Capital Federal. Encantei-me com a clínica de doenças pulmonares e tornei-me médico pneumologista.
Logo após a formatura veio a Residência Médica – inicialmente Clínica Médica e posteriormente a recém implantada – a Pneumologia. Naquela ocasião vale lembrar que a Residência Médica, em qualquer área, exigia tempo integral e dedicação exclusiva. Este foi um tempo de imenso aproveitamento, responsável por intenso crescimento profissional.
Terminada a Residência médica, em 1969, tornei-me plantonista do Serviço de Emergência do Hospital de Clínicas e um ano depois, passei a Chefe do Serviço de Emergência, atividade em que permaneci até 1972, quando fui aprovado no concurso para docente – auxiliar de ensino – na Disciplina de Pneumologia do Departamento de Clínica Médica. Entretanto, sentia falta de uma formação mais segura, tanto sob o ponto de vista técnico médico como pessoal. Em determinado momento de minha formação, ficou patente a necessidade de deixar o ambiente onde formara minha experiência inicial e buscar por aprimoramento e maturidade. Então, programei-me para sair com a família.
Em 1971, fui contratado para atuar como médico do Sanatório Médico Cirúrgico do Portão, hoje Hospital de Trabalhador. Na época, a quase totalidade dos pacientes ali tratados eram portadores de Tuberculose pulmonar. Mantive-me ligado à esta instituição até 1975, quando pedi demissão para transferir-me para Porto Alegre, a fim de cursar Pós-graduação.
Nos anos 1976 e 1977, mudamo-nos para Porto Alegre, onde cursei Mestrado em Pneumologia, em parte no Hospital Pereira Filho e também na Enfermaria 29 da Santa Casa de Misericórdia, sob a orientação dos Professores Mário Rigatto e Nelson da Silva Porto. Defendida a monografia, retornamos a Curitiba.
A experiência vivida entre os médicos gaúchos me foi de extrema utilidade, não só profissional como pessoal. Exposto às atenções de um grupo estranho, onde tinha que defender minhas posições, nem sempre condizentes com as do pessoal da casa, fui levado a amadurecer meu espírito.
Ao retornar, passei a Preceptor da Residência Médica do Departamento de Clínica Médica da UFPR, o que me permitia participar da condução dos Programas de Residência Médica na área e acompanhar o aproveitamento dos médicos residentes.
Ainda no Departamento de Clínica Médica atuei, agora, na qualidade de Coordenador da Residência Médica (responsável pela atividade de toda a residência do Departamento) e Professor Assistente da Disciplina de Pneumologia. Ainda atuei como Coordenador do Curso de Pós-graduação – Mestrado em Medicina Interna, onde durante 5 anos organizei o programa de Pós-graduação e defesa de monografias. Exercí também a subchefia do Departamento de Clínica Médica sob a direção dos Professores Acir Rachid e Ricardo Pasquini.
A modificação que ocorreu em meu comportamento pessoal, após o Curso de Pós-graduação realizado em Porto Alegre, chamou-me a atenção para como a exposição a ambiente estranho pode trazer amadurecimento aos profissionais, em início de carreira. Assim, a partir desta experiência, passei a ser ferrenho defensor e incentivador de nossos alunos a saírem para atividades de treinamento fora de seu ambiente de formação inicial, principalmente depois de completada a Residência Médica. E assim, olhando com carinho para esta formação prolongada, pudemos acompanhar várias histórias de sucesso na vida dos novos médicos.
Aposentei-me da UFPR no dia 18 de setembro de 1998.
Fui sócio fundador da Clínica de Pneumologia Curitiba, com Professores Léo Choma, Rubens Jansen de Sá, Roberto Mário Clausi e, posteriormente, professor Rodney Frare e Silva. Empresa Médica para atendimento de consultas em Pneumologia na clínica privada.
Presidi a Sociedade Paranaense de Tisiologia e Doenças Torácicas, hoje Associação Paranaense de Pneumologia e Tisiologia, de 1984 a 1988, e novamente, em 2000 até 2004. Este período foi muito importante em minha vida profissional. Tivemos oportunidade de reinventar atividades na Sociedade da Especialidade, atraindo grande número de jovens profissionais às reuniões clínicas, e invariavelmente contávamos com pneumologistas convidados de grandes centros da especialidade do país.
Esta experiência levou-nos a trazer para Curitiba, em 1985, a Jornada Sul Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, Esta Jornada serviu como base para assumirmos a Presidência do XXIV Congresso Brasileiro de Pneumologia e Tisiologia ( o primeiro em Curitiba), que atraiu significativo número de colegas pneumologistas de todo o Brasil e serviu de modelo para inúmeros congressos nacionais de Pneumologia que ocorreram em estados irmãos.
Como consequência de haver assumido a Presidência do Congresso Brasileiro de Pneumologia, fui alçado à Presidência da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, cargo que exerci durante dois anos, de 1988 a 2000. Em 2016, fui agraciado com o título de Membro Honorário da Academia Paranaense de Medicina, o que muito me honrou.
Após aposentar-me da carreira docente na UFPR, considerei a possibilidade de dedicar-me a outra atividade, além da Medicina. No ano de 2000, fui aprovado no Vestibular de Direito.
Muitas vezes perguntaram-me o que me levava, após ter vivido uma experiência tão gratificante com Medicina, eu ter voltado meu interesse ao estudo das leis. Na verdade, a razão foi muito simples. A busca pela área jurídica veio em resposta à minha participação em casos de processo jurídicos contra médicos que haviam sido brilhantes alunos, e que entretanto, após um mau resultado terapêutico ou não, tiveram que responder por atos que, sob o ponto de vista medico, não correspondiam a má prática profissional, mas que estavam sendo questionados sob o olhar jurídico.
Assim, sem deixar a medicina de lado, iniciei os estudos jurídicos. Durante cinco anos frequentei a sala de aula e procurei absorver o máximo possível de conhecimentos na área.
Terminado o curso, a defesa da monografia foi o passo seguinte, vencido sem maiores dificuldades.
Em 2016, fui aprovado na prova da Ordem dos Advogados do Brasil, e passei a freqüentar um escritório com advogadas experientes. Nesta ocasião observei que a faina jurídica não me atraia como ocorrera com a medicina. Primeiramente, por eu conhecer muito mais Medicina de que Direito e estar afeito à prática daquela. Mas, talvez mais importante de que isto, o fato de meu espírito não estar preparado para lides jurídicas, para o confronto, que inexistiam na prática médica. Lembrei-me então, das palavras de um advogado amigo meu, o qual me alertara de que eu teria que optar entre Medicina e Direito. Então, dando-lhe toda a razão, optei pela Medicina.
Um aspecto importante desta minha incursão na área jurídica foi a observação de que a minha decisão e ação no sentido de voltar aos bancos escolares e repensar a vida em outra carreira profissional, tenha levado vários jovens descontentes com a área em que labutavam a tomar semelhantes atitude, modificando com sucesso suas vidas. Fiquei feliz em poder ter influenciado positivamente estas pessoas.
Em 1963, encontrei Maria Dionira. Em 1966, quatro dias após minha formatura, casamo-nos. Sem lenço nem documento.
Tivemos três filhos – a primogênita, Adriane, hoje Procuradora Federal do Trabalho, irrequieta mora em São Paulo e tem filhos, Otávio e Helena.
Cezar Augusto, engenheiro eletrônico, hoje radicado em Dallas. USA. Casado com Bianca, tem dois filhos, Leonardo e Rafael. E Luiz Roberto, Cirurgião plástico, desenvolve um brilhante trabalho na medicina, na área que abraçou. Casado com Lívia, tem duas filhas, Clara e Alice.
Tenho dois passatempos mais importantes, que não são muito diferentes daqueles de outras pessoas que conheço em minha roda de amigos. São as viagens e a fotografia. Viajamos sempre que possível e destes passeios, na maioria das vezes pré-estudados com muito carinho e detalhes, trazemos um sem número de fotos, para nosso completo deleite.
E assim, vamos levando a vida que Deus tão carinhosamente nos presenteou. E por ela, agradecemos.

Comentarios 1

  1. GLACI PACHECO DOS SANTOS REFOSCO

    Meu pai João Pacheco dos Santos (João de Botas) foi grande amigo de Affonso Pirajá. Lembro de minha infância nas visitas a fazenda Araujo em Palmas. Abraços a família.

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