José Wanderley Dias (1989 – Memória Viva) Jornalismo – Nova Lima – Minas Gerais

“Erlei. Foi assim que chamei meu avô paterno pela primeira vez. Ele tinha 57 anos. Eu, nem um sequer. Era este pirralho babar, que o sisudo senhor babava de volta, tirava os óculos enormes e sorria. Naquela época, eu não fazia ideia de que aquele homem corpulento que fazia caretas para mim – e só para mim – era José Wanderley Dias, jornalista, professor, presidente do Conselho Estadual de Educação, advogado-chefe do departamento jurídico da Caixa Econômica Federal no Paraná, entre muitas outras atividades e títulos. Para mim, era só o vovô Erlei. Um rosto familiar, que se contorcia em caretas familiares.
Estava ainda na barriga da minha mãe quando devo ter ouvido pela primeira vez a voz grave de meu avô, fazendo graça: “Vinícius, não ‘demorais’ (de Moraes)”. A pedido, não demorei mais que o normal e quando resolvi ir ao encontro do dono daquela voz forte, ele me recebeu de braços abertos e com uma homenagem publicada aqui mesmo, neste jornal. Meu avô Wanderley escreveu por cerca de 20 anos uma coluna na Gazeta do Povo, intitulada “A Vista do Meu Ponto”, e a vista que ele teve no dia 12 de maio de 1982 era do menino aqui, recém-nascido. No dia seguinte, foi publicada a crônica “Algumas Coisas que Vou Fazer”, em que meu avô conta sobre as mudanças que aconteceriam em sua vida depois do nascimento de seu primeiro neto. “Não se espantem, por exemplo, quando me virem, ainda que pondo os bofes quase sexagenários pela boca, tentando dar voltas correndo pela Praça do Japão e cercanias”, escreveu. Confesso que não lembro dele correndo atrás de mim, mas recordo de vê-lo deitado na grama da Praça do Japão, tirando uma soneca. Ele roncava. Eu ria.
Infelizmente, não convivi muito com meu avô Wanderley – ou não tanto quanto eu gostaria. O imponderável da vida me levou a viver, desde muito cedo, longe dele e de sua musa, minha divertidíssima avó Neuza (que conheceu ao fazer um teste com ela, rádio-atriz, para uma das rádio-novelas que escrevia na Rádio Guairacá). Sempre que nos víamos, no entanto, aprendia algo novo. E quando eu, nervoso por estar diante do mestre, acertava a resposta para suas perguntas, ele sorria e dizia: “É um caroço”. Hoje sei que me elogiava. Na época, ficava meio ressabiado, imaginando-me dentro de um abacate.
Amanhã faz 15 anos que ele se foi, ao lado de minha avó – “assim na terra como no céu”. Os dois morreram no dia 9 de julho de 1992, em um acidente automobilístico quando viajavam a Minas Gerais, estado natal de meu avô. Como sempre fazia quando viajava, ele deixou na Gazeta algumas crônicas para serem publicadas enquanto estivesse fora. A escolhida para aquele fatídico dia 9 de julho, sem qualquer interferência que não a do destino, chamava-se “Se eu Morrer… Quando eu Morrer”. Confesso que até hoje isso me arrepia, assim como o fato de que era para eu e meu irmão termos feito aquela viagem com meus avós. Não me recordo porque não fomos. Recordo-me, sim, com muita saudade, das caretas que nunca mais vi. Que Deus a tenha, vó Neuza. Que Deus o tenha, vô Erlei. Até algum dia.”

Comentarios 8

  1. Ana Maria Polowec

    Boa noite
    Anos oitenta (1982) eu recortava do jornal Gazeta do Povo a coluna “A VISTA DE MEU PONTO” do jornalista e professor sr. José Wanderley Dias, naquela época estava com 18 anos, sonhava durante a leitura da tira, as palavras tão bem colocadas desejava vivencia-las.
    Guardei durante muito tempo, hoje tenho algumas.
    Quero deixar (como ele mesmo dizia em suas tiras), um olhar de ternura para o tempo que passou e agradecer aonde quer que ele esteja, muito obrigada.

  2. Teodoro Ribeiro de Oliveira

    Morei no Paraná até meus 48 anos. Sempre que possível eu lia as crônicas de José W. Dias. Tenho 5 livros dele. Sempre apreciei seus pensamentos. Acho que são 8 os livros dele. Hoje resido em Comodoro interior de Mato Grosso.
    Não o conheci pessoalmente mas tenho certeza que foi acolhido e está a direita do GADU.

  3. Gilmar Dias

    Este escrito, obra do Vinicius, tem a magia de fazer viajar no tempo e espaço… e assim vamos aprendendo o sentido de família, onde a saudade dos que se foram, vira amor, no abraço de quem ficou. A vibração pela idéia, a luta pela palavra, a expressão literária do sentimento, reforçam esta vocação de meu pai, José Wanderley Dias, que por sua dedicação acaba influenciando a todos nós a que sigamos a missão, cada um à sua maneira, de transmitir amor… pela família… pela humanidade…

  4. FRANK NELSON HONJO

    Wanderley Dias, foi meu professor de direito na FAE nos anos de 1984-85 se não me engano. Era um professor diferente. Com aquela altura e o jeito formal de falar nos impressionava. As aulas dele era muito legal. Nessa época estava com 19 anos. No dia 02/05/1985 devido a ter ido muito bem na prova dele. Ele me deu o seu livro autografado “A Canção do não esquecer”. Como era um livro de poesia e pensamentos, na época deixei guardado com muito carinho para poder ler um dia. E esse dia iniciou 02/08/2020.

    Na época, não sabia que esse senhor (prof. Wanderley) tinha uma carreira e influenciado muitas pessoas.

    Um fato que ocorreu é que um dia antes de ele ter o acidente de carro quando ira para MG, meu pai que também foi seu aluno na década de 60 encontrou ele e a esposa numa parada do posto de gasolina ou numa lanchonete de estrada indo para MG, junto com minha mãe. No dia seguinte ele tinha se acidentado. Ele lembrou do pai e acredito que deve ter conversado animadamente, um jeito especial que o professor tinha.

    Com certeza o professor está em algum lugar nos instigando a ser pessoa melhor.

  5. Darci Martins Ilton

    Quanta emoção neste texto!
    eu, poeta desde o berço, bebia tudo o que José Wanderlei Dias publicava. Mesmo porque naquela época os livros eram inacessíveis para minha juventude e salario. As crônicas e ensaios na Gazeta do Povo chegavam como um bálsamo nos jornais descartados pelo meu patrão, dono do posto de gasolina onde eu atendia os clientes como frentista.
    Que lástima que o perdemos dessa forma. Agora que eu soube por aqui.
    Imagino as paredes e murais do céu, enfeitadas com a arte desse poeta.

  6. Paulo Cieslinski

    Era um gênio. Foi meu professor na FAE. Lia diariamente suas crônicas na Gazeta do Povo. Me inspirei nele para melhorar minha escrita. Tinha guardado, e de vez em quando relia o livro, A Vista do Meu Ponto, mas um amigo tomou emprestado e nunca mais devolveu. Não acho para comprar. Se alguém tiver um sobrando ou souber onde posso comprar, por favor me avise.

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