Salomão Soifer (2017) Comércio – Curitiba – Paraná

Venho de uma família, os Iglesias, meu avô e minha avó eram espanhóis, Carmen Iglesias e Antônio Iglesias, vindo de Vigo uma região norte da Espanha. E do lado da minha mãe, eram Marcondes de Albuquerque, uma família tradicional de bandeirantes aqui, que formaram a cidade de Castro, e até hoje tem no museu lá dos Bandeirantes de Castro, tem até os objetos que eles levavam nessas excursões, desbravando o Brasil. O Teixeira é do meu primeiro marido, e eu sempre mantive esse sobrenome de Teixeira. Porque, quando ele faleceu, eu tinha 38 anos e dois filhos. Minha filha tinha 16 anos, mas já namorava o marido dela, que é o Luciano Cartaxo Moura, e o meu filho, o Ricardo não tinha feito ainda 14 anos. Então como eu comecei a trabalhar, e usava o meu nome, Iglesias Teixeira, eu sempre mantive, apesar de ter casado outra vez no religioso e no civil, mantive sempre o mesmo sobrenome, porque era um sobrenome assim comercial, como todos me conheciam. A Eliana casou-se com 20 anos, com o Luciano, e teve quatro filhas mulheres. E dessas filhas, ela já tem oito netos, e eu, oito bisnetos dela, e mais o Ricardo tem dois netos, são mais dois bisnetos meus, no total dez bisnetos. Mas é uma família que reunida é muito alegre, com muita criança, todos se dão bem e brincam juntos.

E o meu neto Bernardo agora está trabalhando comigo, porque eu trabalho em seguros, desde que fiquei viúva. Eu na realidade, antes de ficar viúva, eu não trabalhava fora, e não entendia nada de trabalho, nem de seguros. Comecei engatinhando, aprendendo com os próprios funcionários como é que funcionavam as coisas. Eu ia no antigo Bamerindus, lá na Vila Hauer, e tinha reuniões com os diretores. E todos tentavam me ajudar, me auxiliar, sabiam da minha inexperiência. Mas depois da reunião com os diretores, eu descia lá no térreo e tinha conversas com os técnicos. E eles me explicavam tudo daquela proposta que eu iria apresentar pro cliente, e às vezes perdiam um pouco a paciência comigo. Diziam: Mas Dona Maria Carmem, pro Doutor René a gente não ensinava nada disso, ele pegava a tabela e apresentava pro cliente. Eu digo: Ah é, doutor René podia fazer isso, eu não. Eu vou ser sabatinada, porque primeiro a figura de uma mulher em seguros era inusitada.

Mulher executiva em seguros não existia, nenhuma. Então eu tinha que estar bem ciente de todos os cálculos que foram feitos para se chegar aquele custo, aquela tabela, para discutir. E realmente, a primeira empresa que eu fui tinha uma mesa oval com nove técnicos da empresa pra me sabatinar. E felizmente eu tinha aprendido com os técnicos do antigo Bamerindus, como é que se montava tabela e como é que se faziam as taxas e se chegavam as taxas de seguro de vida. E assim foi indo. O meu filho Ricardo, desde os 14 anos que perdeu o pai, eu trazia, ele ia pra aula pro Medianeira pela manhã, e eu trazia ele pro centro e ele ficava fazendo deveres e estudando ali na minha sala. Atualmente ele é presidente da nossa seguradora, a Centauro. Porque da corretora, alguns anos depois, minha filha já estava também trabalhando conosco. E meus filhos se reuniram comigo e propuseram de a gente comprar a carta patente de uma seguradora. Eu em princípio achei o negócio meio grande, porque a seguradora é um negócio além de trabalhoso, ele é muito pesado, porque pra cada seguro que você vende, você tem que depositar e é tudo controlado. Depositar o dinheiro lá, sem poder mexer e é tudo muito controlado pela Susepe, eu fiquei meio assustada.

Mas o entusiasmo dos jovens, da Eliana e do Ricardo, me fez fazer o negócio. E até hoje tá aí a Centauro crescendo cada vez mais. A minha filha foi presidente por uns 12 anos e depois o Ricardo é o presidente atual. Passados uns anos, nós tínhamos uma seguradora dos estados do sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. E daí fizemos uma joint venture com uma seguradora americana, a Ohio National, e daí montamos filiais pelo Brasil todo. Hoje em dia nós temos filiais em praticamente todos os estados do Brasil.

E tivemos também uma alavancagem na seguradora, quando o João Elisio Ferraz de Campos precisou ser sócio de uma seguradora, e nos propôs. Ele precisava só de uma ação, mas ele daí entrou com as meninas, as filhas dele, Ana Carolina e Ana Paula como sócias da seguradora, e a seguradora daí foi crescendo, até chegar onde está hoje em dia. Sempre meus filhos trabalharam bastante e atualmente a minha filha dirige a nossa empresa de seguro saúde a Extramed. E fecha seguros pelo Brasil todo, pega avião, vai pra Bahia fechar apólice dos policiais da Bahia, vai pro Sergipe, fechar na OAB de Sergipe. E é uma empresa que está indo muito bem, quer dizer, crise a gente não se queixa, não nos queixamos da crise. Eu sei que eu continuei a trabalhar, e minha filha casada, companheira minha.

Acabei me casando a segunda vez, com João Gualberto Gomes de Sá Filho, e esse casamento durou dez anos. Eu brinco sempre que eu perdi dois maridos pro cigarro, porque os dois fumavam muito. Um teve um problema sério devido ao cigarro e o João Gualberto também teve um infarto devido ao cigarro, e na minha família ninguém fuma por causa disso. E foi um tempo muito alegre, João Gualberto era muito alegre, reunia a família, as filhas dele com os meus filhos. E a nossa vida sempre era uma festa . E quando ele morreu, elas choravam como se tivessem perdido realmente um avô.

Eu apesar da idade, dos dez bisnetos, eu vou dizer a vocês, eu passo na minha firma todos os dias, nem que seja pra tomar um café, pra mandar trocar a lâmpada queimada. Mas todos os dias, talvez pelo hábito né, de quase 40 anos, eu ainda passo na minha empresa. O começo foi difícil. Eu quero contar pra vocês, porque é uma experiência que os jovens de hoje não tem ideia de como as mulheres tinham que vencer uma barreira para se impor no mundo de negócios aqui no Paraná e no Brasil. E seguros, o ambiente é eminentemente machista, mas eu quando me apresentava nas empresas, eu tinha que me impor, falar pra secretária que eu era igual o patrão dela. Porque senão elas me deixavam sentada, apesar de ter hora marcada com eles, elas me deixavam sentada. Elas nunca tinham visto uma mulher no cargo de executiva.

No primeiro congresso que houve de corretores de seguro no Brasil, foi em 78, no hotel Glória do Rio de Janeiro. E foi interessante. Eu estava na fila pra pegar credenciais, e eu olhei, era só eu de mulher, um mar de homens. Eu disse: Meu Deus o que eu vou fazer aqui? De repente olho lá no fundo da sala, uma senhora correndo até mim disse: Você vai participar do Congresso? Eu disse: Vou, pretendo. Ela disse: Ai eu já estava indo embora, porque eu era a única mulher que iria participar do Congresso. Vejam vocês, em 78, nós éramos as duas únicas mulheres participantes de um congresso de corretores de seguro nacional. Porque não era comum uma mulher tomar conta de uma corretora ou ser executiva neste ramo. Então foi de vitória em vitória que eu fui aprendendo.

Quando eu encontrava o meu marido no centro, que antigamente a gente fazia compras no centro de Curitiba. Eu não descia na garagem onde ele guardava o carro, eu dizia: Não, traga o carro aqui pra Marechal Deodoro, que eu não vou descer nesse buraco cheio de fumaça. Pois bem, fiquei viúva, oito dias depois, enrolei meu cabelo com bob, e eu não gostava de levantar muito cedo, mas estava às oito horas, entrando naquela garagem, naquele buraco cheio de fumaça. E é interessante a gente contar pras pessoas, como cada barreira que você vence, você obtém alguma coisa na vida. Eu desci naquele buraco, que eu achava um horror, uma garagem no subsolo de um prédio, e daí fiquei amiga do que dirigia os carros lá, e lavava pra gente. Fiquei muito amiga, era um morenão alto e eu dizia: Zé, lava meu carro. Passados uns meses eu disse: Mas nem parece a mesma mulher, que não tinha coragem de enfrentar.

E assim fui, enfrentando cada problema que aparecia, enfrentando com coragem, que a gente tem que ter coragem, e tem que estudar. Meu irmão Antônio, que é gêmeo do Herculano, ele era solteiro na época em que eu fiquei viúva. E ele passou uns três, quatro meses comigo, lá em casa, dormindo. Porque antigamente se usava uma coisa chamada visita de pêsames, então a casa ficava fervendo de gente que ia visitar a gente, prestar os pêsames pra gente, e ficava até 11 horas da noite. Depois que as visitas saíam, Totônio que é advogado, a gente chama ele de Totônio, ia pra uma escrivaninha , ele dizia: Eu não entendo de seguros, mas a gente lê e a gente acaba entendendo. E ele ficava me explicando o que ele entendia, como advogado, daquelas apólices, daqueles contratos todos que eu tinha que resolver no dia seguinte. Ele me deu uma mão muito grande, e eu sou muito grata a ele, dos três, quatro meses que ele ficou morando comigo, e me dando apoio. Tanto pros meus filhos, quanto pra mim.

E assim foi. De degrau em degrau fui que, hoje em dia, se eu não sei de alguma coisa que me perguntam de seguros, não fico nem encabulada de dizer: Vou chamar meu técnico pra ver como que é isso. Porque, pela segurança que eu trabalho, de quase 40 anos, me fez ter nesse ramo de trabalho. Agora no último outubro do ano passado, houve o congresso de seguros em Foz do Iguaçu. Congresso Nacional dos Corretores de Seguro. E daí, quando eu olhei aquela plateia, que não era meio a meio, mas um terço dela era de mulheres. Eu fiquei lembrando daquele Congresso que eu falei aqui pra vocês, em que eu e essa senhora, que era filha do dono da Fenix, seguradora do Rio Grande, só nós duas participamos, em 78. Então, o pulo foi muito grande. E assim foram todas as batalhas. Eu tenho muito orgulho dos meus filhos.

Eu tive, do meu futuro marido, quando era noiva, a promessa: Não, não faça vestibular esse ano. Eu queria fazer jornalismo na época. Faça no ano que vem, que daí eu faço com você. Ele era advogado. Até hoje ficou a promessa no ar. E eu não fiz curso superior nenhum. Mas a vida ensina, a gente aprende, a gente tenta aprender, e a gente toca a vida da gente. Eu sempre dou o exemplo pras mulheres que ficam sozinhas, que enfrentem a vida, que no fim dá certo. Você se esforçando, dá certo. Então tudo isso é um privilégio ter. E ter falado do meu companheiro, que tive nos últimos anos de sua vida, 19 anos que fomos companheiros, o Hans Klaus Garbers, e foram anos muito bons. Eu tinha a companhia dele pra tudo, pra Caiobá, que nós dois somos apaixonados por Caiobá, e para outras pequenas viagens. Eu inventava: Vamos até Santa Catarina? Vamos. Vamos até Florianópolis, vamos até Blumenau, vamos. E fizemos muitas viagens internacionais também. Uruguai, Chile, pra Europa fomos diversas vezes. E ele sempre foi muito companheiro, e sempre fez todas as minhas vontades. Eu confesso que às vezes eu era até meio infantil nas: Ah vamos fazer isso? Mas ele sempre topava, sempre tava de acordo.

E perdi meu companheiro há 2 anos, e foi um grande companheiro que eu tive. Então a vida me deu muitas coisas boas. A vida, eu só tenho a agradecer à Deus e a vida, tudo de bom que me deu.

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