Ricardo Tadeu Marques da Fonseca (2016) Direito – São Paulo

As vistas de Ricardo Tadeu Marques da Fonseca se escureceram definitivamente quando ele tinha 23 anos. Cursava, então, o terceiro ano de Direito na tradicional Faculdade do Largo São Francisco, na Universidade de São Paulo (USP). Com o apoio de colegas – que gravavam em fitas cassete a leitura dos livros, para que ele pudesse estudar –, Fonseca se formou com louvor. Seria apenas mais um capítulo da história de superação, estoicismo e trabalho. Pouco mais de duas décadas depois, ele se tornava o primeiro juiz cego do Brasil.
Fonseca foi nomeado desembargador do Tribunal Regional do Trabalho do Paraná (TRT-PR) em 2009, indicado pelo então presidente Lula (PT). Com perfil sério e decidido de quem teve que brigar para vencer as adversidades, imprimiu seu ritmo de trabalho à equipe. Em quatro anos, zerou a fila de mais de mil processos que aguardavam julgamento. Analisa, em média, 400 casos por mês. “Aqui, o trabalho se impôs”, ressalta.

“Direito é técnica; Justiça é arte”
Nas paredes da sala, um quadro estilizado de São Francisco de Assis ganha destaque. Imagens e gravuras do santo também estão em outros cantos. Apesar de ser espírita, Ricardo Tadeu Marques da Fonseca gosta do exemplo do frade italiano que viveu no século 12. “Me agrada essa ideia de ser um ‘instrumento de Deus’. Toda vez que vou fazer algo importante, rezo a oração do Pai Nosso”, confessa.

Longe dos tribunais, o desembargador tem outra paixão: a música. Passa noites ouvindo programas de música clássica, mas não deixa de estar atento à MPB (aos velhos e novos nomes). Ele próprio canta e toca violão – jura que o faz muito bem. Chegou a se apresentar duas vezes na TV Educativa, cantando ao vivo “Cordas de Aço” (de Cartola) e “Apaga o fogo, Mané”, (de Adoniran Barbosa). “Este lado é importantíssimo. Direito é técnica; Justiça é arte”, filosofa.

Fonseca veio a Curitiba em 2002, para cursar doutorado na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Nesta época, contratou duas “ledoras”, que liam os livros para ele. “Nesta época, vi tudo que queria: [Max] Webber, [Karl] Marx, Montesquieu…”. Ele só lamenta não haver variedade de áudio-books de literatura brasileira.

Com duas filhas, Fonseca diz que um dos pontos altos de sua vida foi a posse como desembargador, da qual o então presidente Lula fez questão de participar. Nunca um presidente havia participado de um evento oficial como este, em um tribunal. “Foi uma grande honra, porque o Lula veio aqui para sacramentar a quebra de um tabu”, destaca.

Para suprir a falta da visão, teve de se adaptar e criar um método próprio. Em sala, uma assessora lê os autos em voz alta. A partir de então, Fonseca memoriza o caso, destacando palavras-chave. No tribunal, a servidora menciona as palavras-chave e pronto: o processo brota na mente do desembargador que, então, pode dar andamento ao julgamento. “Ela é meu olho nas sessões”, sintetiza.

Desta forma, o desembargador se consolidou avesso a qualquer sentimento de pena ou de incapacidade. “Eu sempre quis ser juiz e nunca acreditei que não iria conseguir”, diz. Menciona outros grandes que superaram deficiências – como Beethoven (que compôs a nona sinfonia depois de surdo), o escultor Aleijadinho e o físico Stephen Hawking. “Não existe o ‘não pode’. Tudo é método. É questão de se encontrar o método adequado para fazer o que se quer.”

As dificuldades, no entanto, começaram já nos primeiros instantes de vida. Fonseca veio ao mundo prematuramente – aos 6 meses de gestação. Por isso, nasceu com retinopatia da prematuridade, doença que lhe deixou com baixíssima visão. Enxergava apenas borrões coloridos, sem contornos nem detalhes. “Eu não distinguia rostos ou flores. Tinha uma visão impressionista”, define.

Filho de um executivo de multinacional e de dona-de-casa, Fonseca teve as primeiras lições ainda em casa. Em meio a brincadeiras, a mãe o ensinou a ler e a fazer as primeiras contas, grafando grandes letras e números em uma lousa. Quando veio a idade escolar, a família optou por matriculá-lo em um colégio normal, e não em escola especial.

Como não conseguia ler os livros, as professoras copiavam a matéria em letras maiores. “Foi um esforço maravilhoso da minha mãe, que nunca me deixou pensar que eu era incapaz, que eu não podia. Eu sempre pude”, observa.

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