Mansur Theophilo Mansur (2016) Direito – Piraquara – Paraná

A tendência para exercer a advocacia, como profissão, começou a despertar em meus pensamentos de adolescente.
No ano de 1943, quando completei dez anos de idade, fui trabalhar no escritório de advocacia Dr. Dálio Zippin, na Rua XV de Novembro, nº 257, existente até hoje. Minhas funções eram restritas a pequenas atividades: a limpeza diária das três salas, comprar selos e levar e trazer processos do fórum cível, de família e criminal. Meu chefe era o estagiário, então, bacharelando em Direito na UFPR, Armando Jorge Carneiro, pai do jornalista e membro da Academia Paranaense de Letras Antônio Carneiro Neto. Dr. Armando viria a ser desembargador e presidente do Tribunal de Justiça do Paraná. Recebi lições importantes desse ilustre magistrado que muito me serviriam no futuro.
Na década de 50, prestei vestibular na Faculdade de Direito de Curitiba, e tive no curso, iniciado em 1956, professores da mais alta envergadura, entre eles, José Plácido e Silva, Lauro Fabricio de Mello Pinto, José Munhoz de Mello, Milton Viana (fundador da faculdade), Felipe de Souza Miranda, Ari Florêncio Guimarães, Lauro Sodré Lopes, Gaspar Lacerda Pinto, Edmundo Mercer e Felício Raitani, a quem, em 1968, vim a substituir, como professor, na cadeira de ciências das finanças, lembrando ainda de Humberto Grande, Eduardo Couture, uruguaio e doutor Honoris Causa da Faculdade de Direito de Curitiba.
O início da carreira foi de dificuldades, amenizadas pela ajuda dada pelo advogado padrinho e patrono Dr. Francisco da Cunha Pereira Filho, de saudosa memória, a quem presto os mais sinceros agradecimentos por ter me recebido como estagiário e depois como colega em seu famoso escritório de advocacia. Tive aulas de prática do direito dadas pelo estimado mestre, ainda como estudante, participando como defensor de vários réus no Tribunal do Júri, casos que tiveram muita repercussão inclusive e nos meios jurídicos.
Coisas que a vida nos reserva e que aceitamos com tranquilidade foi a guinada que o Dr. Francisco deu em sua vida, ao adquirir o jornal “Gazeta do Povo”, que se tornou, sob sua direção, um jornal de grande circulação no país. Tive a honra de participar com trabalhos de pesquisa, ao lado do brilhante advogado Laertes de Macedo Torrens, colega de escritório, num caso de grande impacto na época: O habeas corpus em favor do ex-governador Moisés Lupion, cujos advogados principais eram os Drs. Evandro Lins e Silva, Laertes Munhoz, capitaneados pelo Dr. Francisco da Cunha Pereira Filho, e terminou com a concessão do pedido, do qual foi o relator o desembargador Edmundo Mercer Jr. A tese vencedora foi a proposta pelo Dr.Laertes de Macedo Torrens.
Em 1963, estabeleci-me no escritório de um ex-colega de turma, Felipe Abrão, no Edifício Minas Gerais, na XV de Novembro.
Com uma advocacia modesta e sem grandes casos, cheguei, no entanto, com bastante esforço, a adquirir do ex-governador Bento Munhoz da Rocha Neto, no 19º andar do Edifício Avenida, um conjunto contendo duas salas no ano de 1965, e daí uma nova era na minha vida começou a se desenhar.
Através do meu cunhado Farid Assad, recebi o patrocínio de uma causa de valor acentuado, trazido pelo dinâmico fabricante de refrigerantes Hugo Cini. Causa ganha com trabalho e perseverança.
Em 1966, fui nomeado pelo presidente da República, Marechal. Castelo Branco, promotor militar da 5ª Região, com sede na Praça Ruy Barbosa, onde hoje está edificado um terminal de ônibus. Era, na ocasião, um cargo de muita responsabilidade. Destaco um caso de grande repercussão: a denúncia que preparei e iria ser entregue ao auditor Célio Lobão contra uma alta autoridade, ex-ministro da República, ex-governador do Estado, caso que estava relacionado com as denúncias de ajuda material ao jornal “Última Hora”, usando o dinheiro da companhia estatal Café do Paraná. O caso era conhecido como “caso dos jornalistas” nele envolvidos pessoas de nomes e conceito social.
O epílogo marcou sobremaneira os meios jurídicos e sociais, em razão da atitude inusitada e corajosa do então procurador da Justiça Militar, Dr. Eraldo Queiros Leite. S. Exª., meu chefe, a pedido do gal. Ernesto Geisel, então ministro da Guerra, veio a Curitiba acompanhado de nove procuradores, inclusive aquele que eu substitui, promotor Benedito Rauen, num voo com avião Avro da FAB. Ao chegarem, os enviados do General Geisel se dirigiram à auditoria militar. Quando eu cheguei, fui comunicado, com surpresa, que o meu chefe estava na sala que eu utilizava, onde fui instruído a abortar a denúncia contra o amigo do General Geisel. Após alguns comentários e exposição de motivos, recusei-me a obedecer tal ordem, retirando-me do local.
Pasmem os leitores! O procurador geral apanhou os processos e os colocou em sua pasta, que na verdade era um verdadeiro saco de estopa e levou todos os autos do para casa. Até hoje, cinquenta anos depois, não sei onde os processos foram parar.
Todos os indiciados, jornalistas, médicos, advogados, escultor etc, foram soltos, pois não havia mais processo contra eles. Isto aconteceu em época natalina.
No dia do Natal de 1966, recebi um telegrama fonado (meio rápido de comunicação na ocasião) cumprimentando-me pelas festividades natalinas, e no mesmo instante, enquanto assinava os indultos natalinos, chegou outro telegrama assinado pelo mesmo procurador, que dizia “Fica V.S. dispensado das suas funções de Promotor da 5ª. Região Militar. Receba nossos agradecimentos” – atitude que causou revolta entre vários generais e ao brigadeiro Délio Jardim de Mattos. Voltei para o meu escritório de onde nunca deveria ter saído.
Recomecei a vida de advogado com o estigma de ter sido um militante da ditadura, quando, na verdade, comprovado pelos próprios indiciados, fui um promotor liberal e acreditava que, em seguida, “limpando a casa teríamos uma verdadeira democracia” (declarações do jornalista Milton Heller).
Em 1970, fui eleito conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil, na eleição que levou Newton José De Sisti à presidência do órgão e até hoje sou conselheiro “Membro Nato” por ter sido eleito, em 1991, presidente da seccional do Estado do Paraná.
Na advocacia, felizmente, surgiram inúmeros casos. Entre eles, em 1975, a concordata da grande empresa moveleira Móveis Cimo. Na ocasião, foi a maior concordata do Brasil, no valor de 280 milhões de dólares.
Como advogado e conselheiro da OAB, tive muitos êxitos, entre eles, a radical transformação das custas judiciais, da taxa judiciária e anexos, o que agradou em cheio a nossa classe e serviu de mote à companha eleitoral em 1991, tendo em vista o acordão do Supremo Tribunal Federal acatando em cheio as nossas argumentações. O mesmo destino vitorioso foi a ação contra as taxas de telefonias, claramente inconstitucionais, causando gravame a grande número de usuários.
Patrocinei causas tendo como parte contrária advogados de nome e grande prestígio nas lides jurídicas do Paraná. Lembro do magistral professor Egas Muniz de Aragão e dos Drs. João de Barros, Acir Ratacheski, Walter Borges Carneiro, Lamartine de Oliveira e as lutas no tribunal do júri com os famosos promotores Alcides Munhoz Neto e Eduardo Braga, sob a presidência do magistrado Ariel Ferreira do Amaral.
Durante 13 anos fui consultor jurídico de um grupo fabricante de madeira aglomerada, um dos maiores da América do Sul, dirigido pelo industrial Orlando Kaesemodel. Por mais de oito anos, fui consultor jurídico da empresa Madebras, dedicada ao ramo de exportação e comandada pelos experientes industriais e exportadores Miguel Zattar e José Zattar, o Zuzo. Irmãos Fernandes, Indústrias Tomasi, Madeireira Gulgeminn, foram outras indústrias do ramo madeireiro que atendi como advogado e consultor, com o então colega e hoje desembargador Carlos Mansur Arida. Por vários anos, fomos advogados da empresa editora capitaneada pelo publicitário Hélio Geara, irmão de Gláucio, atual presidente da Associação Comercial do Paraná, e de Amadeu Geara.
Como presidente da Ordem dos Advogados do Paraná, participei de conferências em todo o território nacional e da elaboração do atual Estatuto dos Advogados do Brasil, na vigência do presidente Marcelo Lavenere Machado, nos anos 1991 a 1993.
Não tenho, no final de carreira, nenhuma aposentadoria de órgão público, com exceção do INSS, por tempo de contribuição. Foram inúmeras oportunidades de assumir cargos, principalmente quando presidi a OAB. Mas nunca aceitei, fiquei com meu patrimônio, adquirido ao longo de 60 anos de profissão, que não é grande nem pequeno, mas é o que sonhei para viver em liberdade plena, longe dos olhos da má querência, conhecida como “seca pimenteira”. Deus Pai é meu grande protetor.
Quero finalizar este depoimento homenageando a advogada Dra. Maria dos Anjos Wapniarz, minha estagiária, ex-aluna, colega partícipe de muitos trabalhos que empreendemos juntos e outros unicamente elaborados pelo seu talento ímpar e invejável, pois a Dra. Maria nunca conheceu revés na sua profissão. Sua excelente capacidade jurídica foi fundamental no alcance dos bons resultados obtidos em várias ações que litigamos em juízo ou fora dele. Dra. Maria sempre se apresentou como uma conduntieri tenaz e ávida por boa performance. Maria dos Anjos, obrigado diz o meu coração contrito! Que o seu trabalho prossiga sempre com o mesmo cuidado, atenção e competência que dignificam a sua profissão de advogada. Gott mituns
A única falta de modéstia que me ocorre, e não volto atrás, é que eu assobio bem, ritmado sem desafinar, qualquer que seja a música do meu tempo, não importando a nacionalidade, no fiel depoimento de minha estimada companheira de todos os momentos Marilene Pinheiro Bertoldi. Com ela, sempre vivi uma vida calma e alegre, graças a sua maneira de ser. Agradeço a Deus, Pai Todo Poderoso, por ter permitido que eu gerasse os filhos maravilhosos que me orgulham e fortalecem: a Christhiane, e suas filhas gêmeas, Maria Luiza e Ana Clara, e o João Theophilo, netos queridos e amados; o Theophilo Luis, engenheiro civil, e sua filha Ana Affife, que homenageia sua bisavó com o seu nome, e nora Daiane, que apoia a estruturação de família; a Ana Lecticia, bióloga com pós graduação em Paris e Viena em reprodução humana, sua filha Alice, neta que com três anos de idade, como a Affife, fazem coisas de deixar o avô deslumbrado. O João Guilherme, filho que ao lado do Theophilo e minhas netas Maria Julia e Yasmin me dão muitas alegrias; a Maria Vitória, filha amorosa e companheira, advogada e minha ex-aluna. E os genros João Luís Faria, médico, diretor do hospital IPO; Antônio Augusto Figueiredo Basto, ex-aluno e hoje advogado criminalista de fama nacional; o engenheiro eletricista Roberto Teixeira de Freitas, o meu descanso e consciência tranquila de ter-lhes entregue minhas filhas, com preparo para a educação familiar e matrimonial.
Aos bisnetos Valentina e Gustavo, o meu amor e dedicação. Aos enteados Marcelo, Marcia e Marcus, aos netos Luiz, Cezar e Lívia, Paulo, Beatriz e Marina, o meu orgulho, estima e consideração.
Caminho apenas protegido pelo Anjo da Guarda, conservando-me até hoje, com a chegada dos 85 anos (24 de novembro de 1933, Piraquara), sem marcas de agressão, ódio ou destempero.
Com saudades, Dona Affife e Seu Theophilo, meus pais.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *