Jayme Zlotnik (2016) Medicina – Curitiba – Paraná

Curitibano, de 18 de fevereiro de 1933, filho de Isaac e Amália Zlotnik, oriundos, ele da Rússia, ela da Polônia. Sou casado com Frida, nascida em São Paulo, com quem tenho duas filhas: Débora, arquiteta, casada com o engenheiro mecânico Waldemiro Werneck Filho, e Sarita, bioquímica, casada com o engenheiro civil Haroldo Jacobovicz. Netos, tenho quatro: Karina, Valéria, Milena e Danilo. Tenho amor e orgulho pela minha família. A esposa, as filhas, os genros que considero filhos e os netos são minha riqueza.
Morávamos em frente à praça Osório, e meus pais possuíam um comércio de roupas infantis no centro da cidade. Eles eram pessoas simples, e me ensinaram princípios básicos de convivência, como respeitar as crianças e adultos, os animais e a natureza. É uma herança que eu considero fundamental na minha formação.
Lembro com saudade dos concertos da Banda da Polícia Militar no antigo coreto da praça. Ali, aprendi a apreciar a boa música. Na adolescência, aprendi a tocar violino e na juventude fiz parte da Orquestra Estudantil de Concertos, na qual atuei como violinista e violista. Esta foi o embrião da Orquestra Sinfônica da Universidade, a qual, por sua vez, originou a atual Orquestra Sinfônica do Paraná.
A partir de 1939, frequentei o ensino primário, parte em escola pública, parte na escola israelita. Na sequência, ingressei, no Colégio Estadual do Paraná. Ali foram quatro anos de Ginásio, no período diurno, e três de Científico, como era chamado o ensino médio à época, no período noturno. Durante o ginásio trabalhei como assistente numa gráfica. Depois no escritório da Papelaria César Schultz.
Decidido a fazer da medicina a minha profissão, em 1950 me preparei para o vestibular no Curso Preparatório Oswaldo Cruz, organizado pelo meu primo mais velho, o então estudante de medicina Jayme Guelmann. Passei em 17º lugar na UFPR.
Enquanto universitário, trabalhei como propagandista de remédios, oportunidade em que conheci muitos médicos, na Curitiba dos anos 50.
Em 1951 cumpri o serviço militar obrigatório, no CPOR – Centro de Preparação de Oficiais da Reserva, na Arma de Artilharia, concluído em 1953, quando o Paraná festejava seu Centenário.
No início do quinto ano de graduação, passei num concurso para Acadêmico Atendente de Pronto-Socorro na Cruz Vermelha e um estágio no Hospital César Perneta, acompanhando ambulatórios de pediatria. Nas férias do quinto para o sexto ano, fiz em São Paulo um estágio no serviço de pediatria do Hospital das Clínicas da USP, ocasião em que conheci minha futura esposa.
Me formei em 1956, e fui para São Paulo fazer Residência na Otorrinolaringologia da Santa Casa, o que me abriu a oportunidade de frequentar congressos e seminários referentes à área. Em 1958, ao final da Residência, candidatei-me a uma vaga na minha especialidade na Legião Brasileira de Assistência e fui aprovado em primeiro lugar no concurso.
No ano seguinte, fui aprovado em concurso para médico da Aeronáutica na minha especialidade. Realizei estágio obrigatório no Hospital Central da Aeronáutica no Rio de Janeiro, em que o trabalho era clínico e cirúrgico, no período da manhã, e à tarde, frequentei o curso, igualmente obrigatório, de Medicina da Aviação (atual Medicina Aeroespacial). Ao final, fui transferido para Curitiba, que era a minha escolha.
Nessa mesma época, foi inaugurado o Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná. Ingressei como voluntário na disciplina de Otorrinolaringologia. Posteriormente, fui também aprovado em concurso como instrutor de ensino na mesma disciplina.
Assim, exerci por um tempo a função de médico militar simultaneamente à de professor (civil). No entanto, havia impedimento legal para essa situação. Precisei optar, e, ao comunicar essa opção ao Brigadeiro Délio Jardim de Mattos, mais tarde Ministro da Aeronáutica, para minha surpresa, ele me solicitou que permanecesse como médico civil naquela unidade.
Na década de 1970, fiz concurso para Livre-Docência, doutorado na UFPR, e minha tese “Aspectos do Ruído Industrial em Curitiba” proporcionou a oportunidade de conscientizar os trabalhadores sobre a importância da proteção auditiva contra ruídos das fábricas.
Paralelamente, ao próprio exercício da Otorrinolaringologia, fui, ao longo dos anos, abraçando uma causa que se tornou a grande luta da minha vida, que foi a campanha antitabagista e seus desdobramentos na esfera legal, comportamental, ética e de saúde da população. Vício traiçoeiro que destrói tanto seu portador como as pessoas à sua volta.
Posso, sem modéstia, considerar-me pioneiro numa jornada de luta pela erradicação do tabagismo no Paraná, que deixou de ser minha batalha particular, ao reunir um grupo de pessoas igualmente imbuídas, até hoje, pela causa.
Na década de 1960, a OMS – Organização Mundial da Saúde – já demonstrava o prejuízo do tabaco à saúde, época em que o ato de fumar era considerado glamuroso, estimulado, principalmente, pelo cinema e televisão.
Mas, a primeira vitória veio em 1971, quando o, então, prefeito Jaime Lerner, por minha sugestão, sancionou e implantou, em 3 meses, a Lei nº 3.933, proibindo o fumo no transporte coletivo urbano, com apoio das próprias empresas de ônibus e dos passageiros, vítimas indefesas do fumo passivo.
Naquele momento, a posição das outras esferas de governo, tanto da União quanto do Estado, era passiva. Mas, a arrecadação proveniente dos impostos pagos pela indústria do fumo sobrepunha-se, pela União e pelo Estado, à preocupação com a saúde da população.
No final dos anos 70, sugeri ao Secretário da Saúde e Bem-Estar Social, Oscar Alves, que o Paraná assumisse, como um dos pioneiros da Federação, uma posição pública no combate ao tabagismo. E um programa, em nível estadual, foi aprovado, sob organização do talentoso jornalista Adherbal Fortes de Sá Júnior, tornando-nos parceiros na empreitada.
Promovemos um debate, amplo e multidisciplinar, com colegas professores do HC, de diversas áreas médicas: Léo Choma, Rubens Jansen de Sá, Roberto Pirajá Moritz de Araújo e Rodney Frare e Silva, da Pneumologia; Lysandro Santos Lima e Paulino Kotaka da Clínica Médica; Gastão Pereira da Cunha, da Cardiologia; Dante Romanó Jr. e Otto Kotze da Angiologia e Ehrenfried Wittig da Neurologia. Representei a Otorrinolaringologia.
Fundamos a Associação Paranaense Contra o Fumo – APCF – que presidi e dirigi, com o Adherbal e o Choma, em dois mandatos: 1981 a 1996/ 2005 a 2010. Hoje, presidida pelo médico pneumologista Jonatas Reichert.
Com o apoio do governador Ney Braga; do secretário Oscar Alves; da Secretaria da Educação e da Biblioteca Pública; realizamos ações vigorosas: eventos de rua, folhetos, cartazes, adesivos; a inclusão do tema tabagismo nos currículos escolares; artigos, entrevistas em jornais, revistas, rádios e televisão, conscientizando à população sobre os danos à saúde pelo hábito de fumar.
Com respeito aos adesivos, parafraseamos os dizeres de campanhas publicitárias de marcas famosas de cigarros, o que motivou um processo judicial, por plágio, contra a Secretaria de Saúde. Em resposta processual, defendida pelo renomado advogado professor René Dotti, acusamos esses mesmos fabricantes pelo uso de propaganda enganosa, cuja polêmica reverteu-se a nosso favor, dando mais visibilidade à campanha antitabagista.
E em 29 de agosto de 1980, realizou-se a primeira Greve do Fumo, de forte apelo popular, idealizada inteligentemente pelo Adherbal, com expressiva repercussão na mídia nacional. Mais de cinco mil estudantes colheram, nas ruas, cerca de 148 mil assinaturas contra o tabagismo, num documento oficial dirigido ao presidente Figueiredo. Com isso, criou-se um clima favorável à aprovação de leis restritivas ao tabagismo e exemplo para outras cidades.
Em 1980, surgiu a primeira lei estadual dispondo sobre o tabagismo. Sugeri ao presidente da Assembleia Legislativa, deputado Fabiano Braga Cortes, que se votasse uma lei de conteúdo duplo, proibindo o fumo na rede estadual de ensino e no transporte coletivo intermunicipal. O governador Ney Braga, demonstrando simpatia pela causa e resguardo estratégico, não a sancionou, alegando que o Estado, de certa forma, era parceiro de uma indústria de cigarros instalada, anos antes, com incentivo fiscal na Cidade Industrial de Curitiba, mas também não vetou. Assim, a lei voltou para a Assembleia que a sancionou (Lei Estadual nº 02 de 1980).
Em agosto de 1981, realizamos um seminário em Curitiba denominado “Fumo ou Saúde”. Este evento, de grande repercussão, foi organizado através de sete painéis, durante uma semana, abordando, além de todos os aspectos médicos do tabagismo, outras áreas, como legislação e esporte. Cito aqui alguns dos pesquisadores, nomes ilustres da medicina brasileira: Mário Rigatto, José Rosemberg, Antônio Pedro Mirra, Costantino Costantini, Josef Feher, Rinaldo Delamare.
Em 1984, foi criado em nível nacional o Comitê Coordenador de Controle do Tabagismo no Brasil, do qual fui membro fundador ao lado de Mario Rigatto, Antonio Pedro Mirra e do Senador Lourival Baptista. Exerci a vice-presidência no segundo mandato, de José Rosemberg, de 1989 a 1991.
A primeira lei federal, sobre tabagismo, surgiria somente em 1986 (Lei nº 7.488 de 1986) sancionada pelo Presidente José Sarney, instituindo o “Dia Nacional de Combate ao Fumo”, a ser comemorado anualmente em todo o território nacional no “nosso” 29 de Agosto, data da “Greve do Fumo” em Curitiba, citada anteriormente.
Em 14 de fevereiro de 1988, é sancionada a Lei Municipal nº 7.298 proibindo o fumo no interior de táxis, de autoria da, então, vereadora Rosa Maria Chiamulera, colega participante do nosso grupo.
Quanto à APCF, quero salientar o trabalho, de grande abrangência, das educadoras em saúde Iludia Rosalinski e Terezinha Jensen que foi minha parceira, desde os primeiros anos do programa antitabagista e me sucedeu na sua coordenação em 1987, tendo sido condecorada, em 1995, pelo então Ministro da Saúde, Adib Jatene. A articulação da APCF, sob as gestões do pediatra Saulo Carvalho Filho e da pneumologista Lucy Bendhack, com o trabalho dessas educadoras em saúde, foi eficaz e especialmente renovadora.
A Associação Médica do Paraná — AMP, desde o início, apoiou o movimento de forma plena e irrestrita, inclusive cedendo um espaço em sua sede para a APCF. O presidente da AMP, José Fernando Macedo, desde a primeira gestão, participou ativamente do movimento. Também, destacamos a participação da AMP durante as gestões de José Elias Ayex Filho e João Carlos Simões.
A meta sempre foi informar a população sobre os malefícios do tabagismo, prevenir especialmente os jovens, e promover orientação de tratamento. Paralelamente, buscava-se obter uma lei, a principal, que complementasse a lei federal que proíbe o fumo em ambientes fechados (Lei 9.294 de 1996), porém era permissiva quanto à existência de fumódromos. O objetivo era a extinção definitiva daqueles ambientes insalubres.
Primeiramente aprovou-se na Câmara, por unanimidade, a Lei Municipal de Curitiba, nº 13.254 de 2009, de autoria do vereador Tico Kuzma (Gestão Beto Richa), com a ativa participação da falecida vereadora Nely Almeida, proibindo o uso de produtos fumígenos em todos os recintos de uso coletivo, público ou privado. Em outras palavras, extinguia os fumódromos no município de Curitiba.
Faltava ainda estender a proibição a todos os municípios paranaenses, o que nos exigiu muito empenho e união. No período em que a lei estava sendo analisada e discutida, houve pressão da indústria do tabaco, dos fumicultores, e dos representantes de restaurantes, bares e casas noturnas, para que fosse aprovada contemplando a permissão dos “fumódromos”. Isso provocou pronta mobilização do nosso grupo, incluindo a participação da saudosa e querida Zilda Arns. No dia da votação colocamos faixas na frente da Assembleia alertando os deputados sobre a posição firme da AMP contra o “fumódromo”.
Obtivemos, assim, nossa mais importante conquista, que foi a Lei Estadual nº 16.239 de 2009 (Gestão Roberto Requião), de conteúdo similar à municipal.
Dentre os 36 deputados que votaram a favor dessa lei, destaco a atuação de Luiz C. Romanelli, Artagão Júnior, Reni Pereira e Ney Leprevost, que foi o nosso primeiro e cordial contato na Assembleia, assumindo conosco sua clara posição a respeito dessa lei.
Agradeço aqui as duas homenagens que recebi: uma da Câmara Municipal de Curitiba, por indicação da vereadora Nely Almeida, e outra da Assembleia Legislativa do Paraná, por indicação do deputado Ney Leprevost.
O Programa vem contando, todos esses anos, com apoio e participação e apoio de instituições e profissionais das áreas de saúde, educação, comunicação, políticos, entre outros. Todos são lembrados, pelo estudioso e dedicado médico pneumologista Jonatas Reichert em seu livro “35 anos da História da Luta Contra o Tabagismo no Paraná”, que mereceu da médica paulista Vera Luiza da Costa e Silva, doutora em Saúde Pública que comanda, desde 2014, a Secretaria da OMS, este depoimento: “O Estado do Paraná sempre esteve na vanguarda das ações de controle do tabagismo no Brasil, servindo de modelo e estímulo para as ações nacionais. Isto se deveu à visão dos líderes que colaboraram com ideias e de imediato as colocaram em prática. Pessoas como Jayme Zlotnik, Teresinha Jensen, Iludia do Rocio Rosalinski e Jonatas Reichert marcam sua presença com menção honrosa nesta história. Eles e o Estado do Paraná estão de parabéns”.
Enfim, há o desejo comum de deixarmos um legado aos nossos descendentes, de um mundo mais limpo, mais saudável e melhor.
E por fim, quero agradecer este honroso convite do Luiz Renato Ribas, do projeto Memórias Paraná, e parabenizá-lo pela iniciativa de não somente resgatar a nossa história, mas também transmiti-la às próximas gerações.

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