Eduardo Rocha Virmond (2016) Direito – Curitiba – Paraná

Nasci em Curitiba, em 13 de Janeiro de 1929, na Rua Comendador Araújo, nº 111, bem no começo da rua, em um pequeno apartamento, cujo prédio não existe mais.

Depois de meu nascimento, eu me perco um pouco no tempo, pois me recordo mais da época quando morávamos em Ponta Grossa. Meu pai era original de Ponta Grossa e minha mãe daqui de Curitiba, da família Macedo Rocha.

Em Ponta Grossa, eu tive uma vida muito boa e muito agradável. Quando crianças, nós éramos como donos da cidade de Ponta Grossa. Íamos a qualquer lugar, a qualquer canto da cidade, a qualquer hora do dia, as pessoas nos encontravam espalhados pela cidade.

Em Ponta Grossa, cursei o Grupo Escolar Senador Correia, que ficava em frente da minha casa; meu pai (Eduardo Guimarães Virmond) construiu uma casa na esquina, próximo à polícia. Aliás, houve um entrechoque no Grupo Escolar Senador Correia quando eu comecei a escrever com a mão esquerda. A professora veio e me proibiu de fazer isso, amarrando a minha mão esquerda na cadeira, a fim de que eu só pudesse escrever com a mão direita. Então, minha mãe (Aracy Macedo Rocha) foi à escola e disse que eu era canhoto e não poderia deixar de ser, e que, dessa forma, ou a professora me aceitava assim ou deveria ser trocada. Pois trocaram a professora por minha culpa.

Depois, minha mãe resolveu me colocar em um colégio interno, dizia que eu era muito bagunceiro. Fiquei no internato Ginásio Diocesano de Santa Cruz, em Castro, durante dois anos. Aí, retornei a Ponta Grossa para o Ginásio Regente Feijó, um colégio muito bom, que pertencia ao Estado, e os professores eram muito responsáveis, assim como também o Ginásio em Castro. Sinto saudades. No Regente Feijó comecei a gostar e a ser um bom aluno de matemática, prazer que durou até eu entrar na Faculdade de Direito. Era ótimo professor de história o Raul Pinheiro Machado, irmão do Brasil Pinheiro Machado. Este foi admirado como tal em todo o País. Ambos são meus primos, por conta da família Guimarães de Ponta Grossa, pela qual tenho até hoje grande admiração. Meu tio Flávio Guimarães foi Senador da República e assinou a magnífica Constituição de 1946.

Posteriormente, mudei-me para o Rio de Janeiro, pra morar com minha tia (Alinda Rocha Pereira), a convite dela, e comecei a frequentar o colégio marista São José, onde fiquei durante dois anos. Foi uma época muito boa aquela no Rio.

O meu tio (General Isaac Viegas Pereira) era muito ligado à música, e principalmente à ópera. A sua filha, Priscila, estudava música no famoso Instituto Nacional de Música, era pianista e cantora, que ficou famosa como cantora, inicialmente de ópera, depois fez dois ou três discos de modinha brasileira do século XIX, junto com o Alceu Bochino. Este dirigiu de princípio a Orquestra do Teatro Guayra e foi membro da Academia Paranaense de Letras, era professor do Instituto referido.

Aprendi muitas coisas relacionadas à música, com a Or questra Sinfônica Brasileira, dirigida pelo espetacular maestro húngaro Eugen Szenkar,  e também nas apresentações a de ópera que havia no Rio de Janeiro naquela época, Teatro Municipal.. Contudo, era uma época de guerra e como os magníficos músicos dos Estados Unidos não poderiam ir à Europa, vinham à América Latina. Passavam pelo Rio de Janeiro, Buenos Aires, Montevidéu, Santiago e voltavam para o Rio ou para São Paulo. No Rio, eu assistia a todas as óperas clássicas, como as de Verdi, Wagner, Bellini, Dorisetti, Mozart, e esse vínculo foi para toda a vida.

Ocorreu, então, de eu ser expulso do colégio, pois diziam que eu convertia os colegas para o ateísmo, o que em parte era quase verdade. Assim, retornei à Curitiba e estudei no Ginásio Paranaense, que ficava na Rua Ébano Pereira, onde fiz bons colegas, em uma época também muito boa. E ali acabei me ligando mais à esquerda, pois existiam conflitos políticos no colégio, devido à guerra e quem iria vencê-la, e isso nos atingia também.

Posteriormente, iniciei meus estudos de Direito e, assim que cheguei ao quarto ano do curso, comecei a trabalhar no escritório do advogado Vieira Neto, que era deputado pelo Partido Comunista. Naquela época, era possível tirar carteira de solicitador acadêmico, que era como se fosse advogado, só não podia fazer petição inicial, e devia ser acompanhado por um advogado nas audiências. Assim, trabalhei com Vieira durante cerca de 15 anos,tornando-me seu sócio, o que significou pra mim uma experiência formidável,pois ele era indubitavlmente um dos maiores advogados do País.

Eu combinava a minha atividade na advocacia com a crítica de arte e música, escrevendo para a “Gazeta do Povo”. O diretor da “Gazeta” que me contratou foi o Pinheiro Júnior. Ele me deu um espaço diário para escrever sobre música, literatura, pintura, balé etc, de segunda à sexta-feira, em uma coluna chamada: Letras e Artes. Depois, trabalhei no “Diário do Paraná”. Eu ia a concertos e assim que acabava o evento, à noite, tinha de escrever rápido para o jornal do dia seguinte, a pagina fica aberta, esperando por mim,um milagre que hoje não mais acontece.

Em 1962, fui convidado para ser membro do Conselho da Ordem dos Advogados. Em 1976, fui eleito Presidente da Ordem, assumindo em 1977, e em 1978 fui Coordenador da Conferência Nacional da Ordem, ocorrida aqui em Curitiba e organizada por mim e Raymundo Faoro. Que ficou famosa até hoje.Nessa época, era Presidene do Instituto dos Advogados do Paraná. Na ocasião, fiz um discurso contra o regime militar, porém eu  tinha  confiança  com o Presidente da República da época, o Ernesto Geisel, que conheci em Curitiba. Meu discurso não foi contra ele, mas contra a ditadura, a restrição à liberdade de imprensa, a perseguição aos cidadãos livres etc. Este discurso ficou famoso no Brasil todo, fui homenageado em Minas, em Pernambuco, em Belem, Porto Alegre e, recentemente, durante  a nova Conferência federal da Ordem aqui em Curitiba.

O general Geisel mandou-me uma advertência, na qual retirava a obrigação da Ordem em relação ao Ministério do Trabalho, onde constava como dependente. Disse ainda que haveria uma surpresa e, em novembro, revogou o AI-5, nossa principal reivindicação dos advogados, o ato que permitia todos os tipos de censura, sob rigoroso policiamento, cerceando nossa liberdade e ir e vir.

Em determinada época, em que eu era ligado à música clássica e ao jazz, pela crítica que escrevia, fui convidado a fazer um programa de jazz na Rádio Colombo, no Atuba, durante uma hora, das 17 horas às 18 horas de domingo, que alcançou grande sucesso na época. No programa, eu utilizava a minha própria discoteca. Na sequência, eu fazia um programa sobre música clássica, um programa seguido do outro. Mais tarde, eles venderam o horário e eu fui transferido para a parte da manhã de domingo. Fiz o programa até o ano de 1960.

Pedi licença ao jornal “Gazeta do Povo” para eu utilizar o título da minha sessão de crítica no “Diário do Paraná”, onde iria ganhar cinco vezes mais que na “Gazeta” e escrevi até o ano de 1960. Alí passei a fazer uma página de literatura, em substituição a Temístocles Linhares, que me indicou. Durou oito números.

Nessa ocasião, aconteceu um fato curioso: o jornalista Adherbal Stresser propôs que eu fosse diretor do Museu de Arte do Paraná, criado pelos Diários Associados. Eu respondi: “Vou pensar, é difícil criar um museu sem acervo, não tem obra nenhuma, criar um museu no ar…”. Foi quando o doutor Assis Chateaubriand, diretor presidente dos Associados, entrou em contato comigo solicitando que eu não relutasse em aceitar o cargo de diretor do Museu de Arte do Paraná, porque se eu não aceitasse, ele não seria criado. Então fui obrigado a aceitar, já que ninguém dizia não a Assis Chateaubriand.

Quando foi criado o Suplemento Literário Cultural, que eu fazia juntamente com Benjamin Steiner, que era o diagramador do “Diário do Paraná”, e já havia sido diagramador do “Diário de São Paulo”, Chateaubriand me ligou novamente, elogiando-me e dizendo que o Suplemento havia sido uma contribuição muito importante para a cultura.

Quando promovi, no Museu de Arte do Paraná, o Salão do Paraná, consegui que o governador Ney Braga apoiasse a iniciativa, juntamente com o diretor do Departamento de Cultura, na época o Ênnio Marques Ferreira, meu grande amigo. E assim realizamos o Salão com duas sessões, uma com o pessoal do Paraná e o outra com o pessoal de fora. Então, nomeei o Alex Beltrão para o Rio de Janeiro e o Benjamin Steiner para São Paulo, para receber as obras dos artistas de ambos os lugares e mais de Belo Horizonte.

Quando fui à sucursal do “Jornal do Brasil” em São Paulo, notei que ela estava repleta de quadros espalhados. O diretor, que era o Benjamin Steiner, disse que eu tinha de buscá-los. E aí os maiores pintores de São Paulo e do Rio se fizeram presentes ao Salão do Paraná. A participação foi enorme e posteriormente conseguimos buscar todas as obras, graças ao Aderbal Stresser, tanto no Rio quanto em São Paulo. O Salão foi muito bem recebido pelo Paraná inteiro e teve um sucesso incrível.

Um determinado tempo depois em 1994 eu estava em meu escritório, e o Samuel Guimarães da Costa, nosso colega jornalista, foi até lá juntamente com o Túlio Vargas para me convidar para integrar a Academia Paranaense de Letras. Eu disse a eles: “Não, esse negócio de academia parece ser uma coisa meio esquisita, eu não sei se vou aceitar”. Mas ele argumentou que estavam renovando a Academia, que o Renê Dotti deveria  aceitar o convite e que eu deveria aceitar também, pois precisavam colocar ali gente ligada de fato à cultura e não somente pessoas ocupantes de cargos públicos, pois o objetivo era modificar a Academia.

Fiquei de pensar, mas, já no dia seguinte, o Walfrido Piloto passou em meu escritório e insistiu na aceitação do convite. Argumentou que era meu amigo há tantos anos e que já fizéramos tantas coisas juntos e, por isso, gostaria muito que eu aceitasse. Não tive mais como negar e respondi: “Tá bom”, e entrei para a Academia Paranaense de Letras no ano de 1994.E então aconteceu uma coisa inédita: Quem me fez a saudação, na sessão solene da Academia, foi a Helena Kolody, com um discurso lindíssimo, que eu até deveria ter trazido para mostrar como se faz um discurso de saudação de um novo membro da academia.

É muito bom ser membro da Academia Paranaense de Letras. Passei também a gostar daquele papo lá existente, que eu pensava que fosse chato e não era. Fomos em frente, Túlio Vargas assumiu a presidência, depois o José Carlos Veiga Lopes, quando Túlio faleceu, e também a Chloris Justen, que era vice-presidente e assumiu durante três meses. Em seguida, o presidente eleito fui eu.

Fiquei dois anos na presidência da APL, achei que tinha um compromisso com a Chloris, para que ela assumisse, como de fato aconteceu. Alguns gostariam que eu continuasse, como foi o caso do Adherbal, mas eu não poderia, tinha de respeitar o que fora combinado com o Renê, que iria entregar o cargo a Chloris, pois ela já estava com oitenta e nove anos e assim merecia exercer a presidência da Academia Paranaense de Letras. Desse modo, não fui candidato à reeleição, e Chloris assumiu, sendo já presidente por dois mandatos. Chloris trabalha muito para a Academia, trabalha mais do que eu trabalhava ou trabalharia. Agora  o presidente eleito é o Ernani Buchmann, com grandes méritos.

De todo modo, fui bem-sucedido na Academia Paranaense de Letras, com realizações de grande importância. Como a aquisição da biblioteca do Norton Macedo. Quando ele faleceu, consegui levar a sua valiosa biblioteca para a Academia, graças ao Caique Ferrante, que foi instalada graças ao Darci Piana, presidente da Fecomércio.  Piana abriu espaço no primeiro andar do Sesc da Esquina para a biblioteca da Academia, a biblioteca Norton Macedo, como homenagem à memória do grande Norton. E lá está ela, à disposição de quem tenha interesse.

Por fim, gostaria de elogiar a iniciativa do Instituto Memórias Paraná, já que o Paraná precisa ser sempre lembrado, porque, de um modo geral, é um Estado muito esquecido, até por nós mesmos, paranaenses. Existe uma determinada subordinação de entidades culturais, em São Paulo e Rio de Janeiro, e nós somos independentes, assim como o Memórias Paraná também o é, graças ao Luiz Renato Ribas, criador e mantenedor dessa concepção, juntamente com o Clube Curitibano. Obrigado a ambos.

Eduardo Rocha Virmond, é casado com Lelia Maria Marques Virmond e tiveram quatro filhos: Eduardo Alberto, Guilherme, Ana Leticia e Daniel. O casal tem cinco netos: Laura, Natália, Eduardo, Vitória e Marina.

Biografia

Brasileiro, casado, advogado, residente e domiciliado em Curitiba, nascido em 13 de janeiro de 1929, em Curitiba

Casado com LELIA MARIA MARQUES VIRMOND, tem quatro filhos, EDUARDO ALBERTO, GUILHERME, ANA LETÍCIA e DANIEL, todos tem curso superior.

Fez curso primário em Ponta Grossa (Grupo Escolar Senador Correia), ginásio em Castro (Ginásio Diocesano de Santa Cruz) e Ponta Grossa(no Colégio Regente Feijó), científico no Rio de Janeiro (Colégio São José) e em Curitiba (Ginásio Paranaense, hoje Colégio Estadual do Paraná), superior na Faculdade de Direito da Universidade do Paraná, formado em 5 de dezembro de 1952.

Foi presidente do Instituto dos Advogados do Paraná, em duas gestões.

Foi presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção do Paraná, de 1977 a 1979.

Foi presidente da Academia Paranaense de Letras.

É presidente de honra da Aliança Francesa em Curitiba.

É membro honorário da Sociedade Brasileira de Cultura Inglesa.

É membro honorário da Associação Brasileira de Críticos de Arte.

É membro societário do Instituto Brasileiro de Filosofia.

Foi professor de direito romano na Faculdade de Direito da Universidade Católica.

Foi Secretário  de Estado da Cultura do Paraná entre 1995 e 1998.

Foi Secretário de Estado da Justiça e Cidadania entre 1998 e 1999.

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