Rodney Frare e Silva (2015) Medicina – Ponta Grossa – Paraná

Nasci em Ponta Grossa, no dia 1º de Agosto de 1948. Meus pais foram Luiz Oliveira e Silva e Pascoalina Frare e Silva. Duas famílias bastante tradicionais da nossa cidade, Ponta Grossa. E meus avós maternos vieram da Itália, por volta dos anos 1880 mais ou menos. E minha avó, de família Buffon e meu avô Frare, se conheceram no Brasil, casaram e moraram em Ponta Grossa. A minha mãe Pascoalina é uma dos 12 filhos deste casal e casou-se com meu pai, de tradicional família pontagrossense, descendente de portugueses.

A minha vida não teve grandes particularidades, mas, quando criança, tive uma infância normal, de todo jovem. Brincávamos na rua, jogávamos futebol na rua, como eu morava próximo a um colégio chamado Academia Pontagrossense, e a tradição de todo pontagrossense era jogar basquete. Então desde criança, desde os 10, 11 anos de idade, estimulado também pelo meu irmão, Ronaldo, que jogava muito bem, eu comecei a jogar basquete. O basquete sempre foi uma coisa que marcou muito a minha vida. Quando tinha por volta de 13 anos, aconteceu um primeiro campeonato intercolegial de todo município. E o meu time, que chamava-se Honduras, foi vice campeão. Então foi meu primeiro título, minha primeira alegria dentro do esporte, porque eu sempre fui de uma família muito esportista.

Eu vim para Curitiba em 1964. Estudei primeiro no Internato Paranaense e logo em seguida, no Colégio Santa Maria. Nessa ocasião, estamos falando por volta de 1965, 66, eu jogava basquete na Sociedade Thalia, e nós fomos bicampeões da cidade pelo basquete juvenil. E em 1965, o Colégio Santa Maria foi vice campeão estadual. Perdemos uma final fantástica para o Colégio Estadual do Paraná, ficamos muito frustrados, porque contávamos com aquele título, que aconteceu no ano seguinte, em 1966. Eu tinha então 17 anos e nós fomos campeões do estado.

Desde criança sempre pensei em ser médico. Em 1967, janeiro de 1967, fiz vestibular na Universidade Federal do Paraná, foi meu primeiro e único vestibular. Aprovado. Foi um momento assim de muita euforia, de muito agradecimento. Na época tínhamos aula lá no Ahú, onde tem doenças mentais, da medicina forense. Então a gente tinha que sair, se deslocar, não se tinha carro nessa época.

Foram seis anos assim muito intensos, de bastante estudo, acho que para você ser médico, você tem que ter dedicação. Você não pode fazer um curso mais ou menos, ou você é ou você não é. Dentro dessa minha passagem como estudante de medicina, há algumas coisas que eu gostaria de destacar. Uma delas que me marcou muito foi no quarto ano da faculdade. Abriu pela primeira vez dentro da Universidade Federal do Paraná, abriu a possibilidade de se fazer uma monitoria. Então o aluno monitor era o aluno que faria uma prova daquela especialidade, normalmente a gente já teria passado por aquela especialidade. Faria uma prova, com vários candidatos. Tinha uma pequena remuneração, meio simbólica, equivalente hoje a 100 reais, em torno disso, por mês. Mas que o interessante não era a parte financeira, o interessante era você estar junto da disciplina, junto dos professores, os auxiliando.

De forma que, eu e um grande amigo meu, que mais tarde veio a se tornar até meu compadre, um excelente cardiologista, Doutor Antônio Augusto Cavaliere, fomos aprovados, nós dois, eram duas vagas. Nós passamos para primeiros alunos monitores da disciplina de Doenças Infecciosas e Parasitárias. Nesta época era muito famoso o professor Miroslau Baranski, que era o chefe titular da disciplina. Foi importante porque eu passei a ter uma atividade.

Cavaliere trabalhava dentro do hospital e eu passei a ter uma atividade dentro do Hospital Oswaldo Cruz, que hoje é um hospital praticamente dedicado ao HIV. Mas na época era um hospital de isolamento, principalmente de doenças infecciosas e principalmente de crianças. Então, neste local, a gente tinha contato com varicela, sarampo, coqueluche, crupe, difteria, tétano, e até paralisia infantil eu cheguei a ver.

Então essa minha passagem foi muito marcante porque foi o início. A gente no 4º para o 5º ano tem muito pouco contato com o doente. A gente vê o doente numa aula, o professor explica, você vai para casa e estuda. Nesse estágio, eu tive oportunidade de estar muito perto das doenças, e principalmente de crianças. Em seguida, no ano seguinte, eu já estava namorando e o meu sogro quis me dar uma mão. Ele era uma pessoa influente dentro da Secretaria da Fazenda do Estado e me apresentou para um médico que era amigo dele. E eu consegui um estágio, daí um pouco melhor remunerado dentro da Secretaria de Estado da Saúde e passei a fazer plantões no mesmo hospital.

De forma que eu passava de dia como monitor da disciplina, e a noite eu dava plantões nesse hospital. Algumas passagens para mim foram extremamente marcantes. Principalmente de uma criança. Os médicos, a maioria deles eram pediatras, passavam de manhã, faziam uma visita, faziam as prescrições e não voltavam mais a tarde, a não ser que fosse alguma emergência. Como tinha o plantão, embora a gente fosse muito jovem, tinha muito pouca experiência, mas estudava bastante.

Uma das passagens que eu gostaria de citar é de uma criança, de aproximadamente uns cinco anos, eu chegava e passava em todos os quartos né. Tinha o quarto só da difteria, tinha o quarto só do sarampo, enfermarias com várias crianças, alguns adultos também, tétano principalmente eram adultos. E essa criança pequena tinha difteria, uma doença, hoje graças a Deus, extremamente rara, praticamente não existe. Mas é uma doença que faz um fechamento das vias aéreas.

Essa criança estava em asfixia praticamente quando eu cheguei no quarto, a enfermagem não tinha notado. E eu imediatamente, me assustei, porque eu era inexperiente, mas ato contínuo, eu liguei para o doutor Luiz Fernando Beltrão, aliás, um outro pontagrossense. Um professor fantástico né, infelizmente o perdemos. Fui médico dele, ele teve uma doença pulmonar no final de sua vida. Um grande amigo. E eu imediatamente telefonei, eu era um moleque, eu tinha 21, 22 anos, estava de plantão, com pouca experiência. E felizmente, ele rapidamente chegou ao hospital e foi feita uma traqueostomia nessa criança, que estava com insuficiência respiratória extremamente grave. Eu o auxiliei a fazer essa traqueostomia. E essa talvez foi uma das primeiras emoções de satisfação.

O médico é um profissional que vive do que faz. Ele tem que ganhar por aquilo que ele faz, porque essa é a vida dele. Mas como todas as profissões, nós temos satisfações intelectuais e que pode começar muito cedo, como foi comigo. Então eu ainda era um estudante, a sensação do dever cumprido, a sensação de ter feito a coisa certa e a sensação de que aquela criança depois evolui, graças a Deus, muito bem. Então eu diria que essa é uma das primeiras emoções importantes que eu tive na minha vida, em relação à medicina.

Estava já no sexto ano, e de plantão, quando, tinha uma campainha de madrugada que batia, a enfermagem descia e a gente que estava de plantão descia junto para ver o que era. Então quando eu cheguei lá fora, era no Hospital de Clínicas. Abriram a porta, eu me deparei com uma viatura da polícia, e o guarda, o soldado me disse que no carro tinha uma paciente e que o nenê estava nascendo. Então eu fui no banco traseiro e ela estava deitada, não tinha condições de tirá-la dali, porque o nenê estava realmente nascendo. Nessa ocasião eu já tinha uma vivência de dentro do centro obstétrico, então eu fiz um primeiro parto dentro de um Volkswagen. Parto mesmo, só tinha visto em filme.

Após o curso médico, nós passamos a residência médica. Residência médica era já vigente no Brasil há alguns anos. Nós iniciamos a residência em 1973, fazendo diretamente clínica médica. Nessa ocasião já tinha decidido fazer pneumologia.

Depois que me tornei professor da universidade, percebi que esta é a melhor forma de se aprender. Aprendendo na prática, com supervisão. E nessa época, e graças a Deus, durante o tempo em que frequentei a universidade, nós sempre tivemos supervisão. Então, é talvez o ano de maior sedimentação de coisas na sua vida médica, são os anos da residência né.

Na sequência, já como profissional, já como pneumologista, fui por quatro anos presidente da Sociedade Paranaense de Tisiologia e Doenças Torácicas, que é a nossa sociedade médica aqui no Paraná.

Em relação à minha profissão, eu amo realmente a medicina. O médico, as vezes é até mal compreendido, até no seio da família. Onde ele muitas vezes ele prioriza o paciente em relação à algumas coisas familiares. A esposa do médico precisa saber entender o médico nesse sentido. Eu sempre digo que não basta casar com o médico, precisa conhecer a profissão e saber ser esposa de médico né, para que aceite a condição que a gente têm que assumir. Porque são levantadas de madrugada, são plantões no início da vida, são feriados, são natais, páscoa, que você foge às vezes do hospital, para fazer um lanchinho em casa com a família e volta para o plantão. Então essa paixão pela medicina eu tenho desde criança, e sempre me dediquei até hoje, graças a Deus. O conceito que tenho dentro da medicina é bom , e sempre me dediquei muito a isso. A profissão leva a gente a inúmeras experiências.

Em 1980, com oito anos de formado, eu fiz meu primeiro concurso, para professor, na Universidade Federal do Paraná, na disciplina de Semiologia Médica, que onde você ensina o aluno ao primeiro contato com o doente, como que se conversa com o doente, como se examina um paciente. É uma disciplina extremamente importante na carreira médica.

Eu tinha nessa época 30 e poucos anos e era chefe de professores que tinham sido meus professores. Então isso também já foi uma coisa muito gratificante na minha vida acadêmica, porque eu tinha confiança de pessoas que me elegeram como chefe, embora fossem bem mais velhos do que eu.

Dez anos depois, eu vim para minha disciplina de origem, que é a disciplina de pneumologia, chefiada nessa época pelo doutor Leo Choma, depois doutor Pirajá, doutor Jansen, até que eles se aposentaram e eu me tornei o mais velho do grupo e liderei esse grupo, até recentemente, quando requeri minha aposentadoria como professor adjunto.

Fiz mestrado, fui chefe da especialidade de pneumologia, mas fui chefe de departamento. A chefia de departamento é uma honraria muito grande dentro da universidade. Você é eleito, a universidade abre para que os professores elejam o seu chefe de departamento. E o Departamento de Clínica Médica, o qual eu pertenci durante toda a minha vida, é o maior departamento da Universidade Federal do Paraná. Até recentemente, são 64 professores. Então você lidar com 64 médicos e professores, é uma tarefa árdua, por que? Porque o médico é uma raça diferente, o médico é, eu sempre digo, eu uso essa frase: o médico é ensinado a dar ordens, médico não gosta de obedecer a ordens. Só que existe uma coisa que se chama hierarquia, se chama organização. E para você liderar um grupo de 64, além de médicos, professores, todos têm o nariz empinado. Queira ou não queira, todos nós temos um pouco de soberba, quando atingimos este ponto da nossa carreira. Seja de médico, seja de professor.

Falando um pouco da minha família, a constituição da minha família. Em 1974, depois de cinco anos de namoro, que eu chamo de enganação, que era ser aluno, ser residente, etc. Eu casei com a minha mulher, até hoje, temos 41 anos de casados. A minha mulher chama-se Maria do Rocio Gonçalves e Silva. Tivemos três filhos, a mais velha chama-se Alessandra, tenho o Adriano, que é médico oncologista e Andreza, que é a minha caçula.

E como a minha vida é muito ligada à universidade, gostaria de usar uma frase que usei a vida toda para os meus alunos. Que é a seguinte: o paciente não procura o médico bonzinho, ele procura o médico competente, mas não custa ao médico competente ser educado. Ser uma pessoa gentil, que recebe bem o doente, que explique as coisas para o doente. Fazem parte da vida, é o temperamento, a personalidade de cada pessoa, eu respeito isso, mas eu ensinei ao meu filho, que graças a Deus, tem o mesmo perfil, de ter esse respeito pelo paciente, essa paciência de ouvir o paciente, de explicar as coisas para os pacientes. Esse seria o meu recado final.

Tenho quatro netos: Lorenzo, Pedro, Leonardo e Bruno.

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