Marcos Domakoski (2015) Comércio – Curitiba – Paraná

O empresário Marcos Domakoski é desses legítimos curitibanos que fazem a capital paranaense ser uma cidade tão tipicamente diferente das outras. Descendente de poloneses, nasceu no Bigorrilho e cresceu no Batel, num tempo em que o bairro era um arrabalde de ruas de terra. A casa onde nasceu, na Rua Julia da Costa, 1.822, hoje é sede da sua empresa. Morou na Rua Ângelo Sampaio, a exatamente uma quadra do local onde passou a trabalhar em 2013, como diretor da Copel. Quando criança, jogava futebol na rua, participava de corridas de bicicletas pelas vias do bairro, descia de carrinho de rolimã pela Alameda Dom Pedro II, uma das poucas ruas asfaltadas do Batel de então.
Daqueles tempos de infância, lembra-se do padeiro, senhor Kula, que entregava o pão nas casas de manhã, conduzindo uma carroça que depois, acompanhando a urbanização de Curitiba, trocou por uma Kombi que carregava os pães, chineques e sonhos consumidos regularmente pela família Domakoski.Sua rua tinha poucas casas. Nomes como Bettega, Cominese, Camargo e Macedo Caron estavam instalados naquela área. Eram algumas famílias, cinco das quais proprietárias de automóveis, um verdadeiro luxo naqueles tempos. Marcos lembra até a placa do automóvel familiar: 0787. Mas o número que causava inveja era o 008 na placa do imponente Impala da família Bettega.
Seu pai, Antônio Domakoski, foi diretor de trânsito, nomeado pelo governador Bento Munhoz da Rocha. Naquele tempo, quatro ou cinco motos Harley-Davidson faziam a fiscalização do trânsito na cidade. Frequentemente, as motocicletas eram estacionadas na esquina das ruas Comendador Araújo e Ângelo Sampaio para fiscalização da documentação dos carros que por ali circulavam. Antônio levava o filho, que se divertia subindo nas potentes motocicletas.

Cidade calma
Para dar ideia do bucolismo daquela região no seu tempo de criança, Marcos conta que costumava acampar no bosque onde hoje fica o luxuoso Edifício Springfield.Foi, decididamente, uma infância bem vivida. Outra lembrança forte diz respeito às férias de julho em família, passadas na chácara que possuíam no Mossunguê. O acesso era difícil – frequentemente, os carros encalhavam no caminho. Nessa mesma chácara, Marcos “internou-se” um mês com dois colegas para estudarem para o concorridíssimo vestibular da Universidade Federal do Paraná.O sacrifício valeu a pena: todos foram aprovados – ele e o colega Flávio Carollo em Engenharia, e Salvador Gnoatto em Arquitetura. Antes, Domakoski foi aluno do Colégio Medianeira, da pré-escola até o último ano do Científico (equivalente ao atual ensino médio).
Já aluno da UFPR,Marcos participou de uma “revolução” que marcou época na ala jovem do Clube Sírio-Libanês na década de 1970: transformaram o salão de festas do clube em um ambiente de boate, com toda a parafernália própria desses estabelecimentos: luzes estroboscópicas, globo espelhado, luz negra… A novidade atraiu a juventude para as atividades do Sírio-Libanês, local insuspeito para onde as moças sérias poderiam ir.
O sucesso foi enorme. A boate do clube recebeu atrações nacionais, como Rita Lee eOs Mutantes, Pepeu Gomes, Baby Consuelo e os Novos Baianos. A coisa tomou tal proporção que, conta Marcos, o presidente do Clube Curitibano, Gastão de Abreu Pires, telefonou a ele pedindo-lhe que não abrisse a boate do Sírio-Libanês num determinado dia para que o baile de debutantes do Curitibano não fosse esvaziado.

Gincanas do Curitibano
Outra “fase de loucuras”, segundo Domakoski, foi a das gincanas do Clube Curitibano. O “quartel-general” da equipe dele, a Kokaka, que chegou a ter 600 participantes, era a casa dos Domakoski. Na “central de inteligência” da Kokaka estavam alguns nomes que se tornaram bem conhecidos: Saul Raiz, Karlos Rischbieter, Mauricio Schulman, Jaime Lerner e Rafael Grega de Macedo. Quem viveu em Curitiba na década de 1970 pode atestar que a cidade pegava fogo por conta das gincanas do Curitibano. “Era algo culturalmente importante para a cidade”, lembra Marcos. A ponto de o empresário Hélio Rotenberg, que se tornou presidente do Grupo Positivo, haver afirmado em palestra recente que aprendeu a ser empresário participando das gincanas da Kokaka, pela importância que elas tiveram para seus organizadores no aprendizado da superação de obstáculos.
Marcos Domakoski relata uma curiosa prova de uma das gincanas: o patrocinador Pinheiro Machado, colecionador de carros antigos, pediu que as equipes encontrassem uma pessoa chamada Uchoa Teles. Após uma exaustiva busca, ninguém encontrou tal pessoa. A equipe Kokaka, então, teve uma ideia inusitada: procurou uma mãe muito pobre que estava por dar à luz e propôs, em troca do enxoval da criança, que ela lhe desse o nome de Uchoa Teles! A mãe aceitou, e a equipe apresentou então a certidão de nascimento da criança, vencendo a prova. Depois, ficaram sabendo que Pinheiro Machado tinha interesse em encontrar Uchoa Teles porque supunha que tal pessoa tinha uma peça de um carro que ele havia comprado tempos atrás.

Rumo à Europa
Antes de formar-se, Domakoski foi estagiário da Copel e monitor na UFPR, onde mais tarde foi professor do curso de Engenharia, de 1976 a 1978. Foi quando inscreveu-se para uma bolsa do Rotary Internacional com o desejo de realizar um sonho: estudar no Exterior. Apesar da concorrência de mais de 100 candidatos por vaga, classificou-se para o mestrado em Administração em Edimburgo, na Escócia. Passou dois anos no Reino Unido, estudando em uma das melhores universidades da ilha, entre 40 alunos de 20 países. E com a vantagem, brinca, de que “o uísque nacional era muito bom”.
Voltando da Europa, passou em concurso na própria UFPR e começou a lecionar no curso de Administração, onde aposentou-se como docente. Na verdade, optou por estudar Engenharia porque era um curso de maior peso na época, mas a área de negócios era seu verdadeiro interesse.
Também retornou à Copel, agora como engenheiro. Atuou na Companhia até 1982, junto à Superintendência de Engenharia e Construção e na assessoria da Diretoria Administrativa. Optou então pela iniciativa privada e teve como primeiro grande desafio profissional a vice-presidência da Rio Branco Seguros. Depois, foi diretor financeiro da Santa Maria Papel e Celulose, em Guarapuava, da qual saiu em 1986 para tornar-se diretor administrativo-financeiro daMelhoramentos, em São Paulo.
Buscando melhor qualidade de vida e mais proximidade com a família, voltou para Curitiba e fundou a MDD Comércio e Representações de Papéis Ltda. Sua empresa vende papel e celulose no Paraná e em Santa Catarina. Fornece papel para uso industrial e para consumo. A empresa tem ainda participações em administração imobiliária e na consultoria para instalação de empresas.
Marcos tem três filhos, todos do primeiro casamento com Celinha Maria Buschle. Bianca é estilista de moda. Henrique é advogado e administrador, vice-presidente da Associação Comercial do Paraná, ecomanda a empresa da família ao lado da irmã Nicole, formada e pós-graduada em Administração.

Raiz polonesa
O pai de Marcos, seu Antonio Domakoski, é filho de lavradores poloneses. Trabalhou na roça e em balcão de açougue, até abrir o próprio comércio, o açougue Domakoski, hoje tocado por um primo-irmão de Marcos. A mãe, Henriqueta Domakoski, dona de casa, sempre ajudou o marido no comércio. Além do passaporte polonês, Marcos também herdou do pai o gosto pela política. Seu Antonio foi o vereador mais votado de Curitiba nos anos 1950 e teve intensa militância no partido UDN. Além de destaque na Câmara, recebeu em Roma, em 1968, a Medalha do Mérito pela trabalho em prol da Igreja Católica, e foi condecorado pelo Governo Polonês.

Com o Papa
Em 1960, os pais de Marcos, numa viagem à Polônia, entraram numa igreja para encomendar uma missa. Foram atendidos por um sacerdote muito simpático, que depois da missa os convidou para tomar um suco. Era Karol Wojtyla, futuro Papa João Paulo II, que iniciou amizade e troca de correspondência com os Domakoski.
Quando Marcos estudava na Escócia, foi a Roma, onde o cardeal Wojtyla o recebeu. Quando o Papa João Paulo II veio ao Brasil, participou de um encontro com descendentes de poloneses no estádio Couto Pereira, organizado por Marcos Domakoski. Foi nessa ocasião que a casa de troncos original de colonos poloneses, hoje instalada no Bosque do Papa, foi trazida da colônia Tomas Coelho. Marcos monitorava o evento de dentro da casinha, usando um rádio comunicador. O Papa receberia simbolicamente pão e sal na porta da casa. Entretanto, João Paulo II resolveu entrar na rústica construção, dando de cara com Marcos, que ficou tão nervoso e emocionado que diz não se lembrar nem de que língua usou para falar com o Papa, nem qual o teor da rápida conversa. O fato foi registrado por um cinegrafista da TV Globo e por um fotógrafo do Vaticano – a foto está na capela do Bosque do Papa.
Alguns anos depois, quando a família estava em viagem à Itália, recebeu um recado para ligar para o Vaticano. Surpreso e achando que podia ser algum engano, telefonou. Era um cardeal que já tinham hospedado em Curitiba que convidava para uma missa com o Papa. Receberam recomendação de chegar às 8h da manhã, entrando pela porta de bronze do Vaticano. Foram recebidos e encaminhados a uma sala na qual tiveram que deixar as pesadas roupas de inverno e todos os aparelhos eletrônicos. Perceberam então que estavam na capela privada do Papa, onde, além deles, havia apenas dois bispos franceses e quatro padres alemães. Durante a missa, conta Marcos, o Papa parecia estar em transe. Acabada a cerimônia, ordenaram-lhes que se retirassem. Ficaram um tanto decepcionados por terem estado tão perto do Papa sem poderem trocar uma palavra sequer. Foral levados à biblioteca onde, pouco depois, entrou João Paulo II. Falando em português, perguntou pelos pais de Marcos. Deu-lhes a bênção, presenteou cada um com um terço. O contato privado com o Papa demorou inesquecíveis 15 minutos. Com essa incrível relação com o pontífice, a família não podia deixar de ser católica. Marcos é praticante.

Presidente da ACP
Para Marcos Domakoski, a grande oportunidade que teve de manifestar sua voz em favor do Estado foi na presidência da Associação Comercial do Paraná. Ele acredita que ocupou o cargo em momentos importantes do Paraná e do Brasil, com dois governadores emblemáticos,Jaime Lerner e Roberto Requião, e dois presidentes históricos, Fernando Henrique Cardoso e Lula.
Uma das grandes situações vividas por Marcos Domakoski na ACP foi o posicionamento contra a privatização da Copel. A entidade já havia promovido grandes discussões sobre a privatização do Banestado, mas foram os debates sobre a Companhia Paranaense de Energia que ganharam um palco maior e reflexões na sociedade e no mundo político. “Trouxemos especialistas, administradores, políticos e técnicos de todo o Brasil para discutir o tema. Concluímos que era importante manter a Copel sob o controle do Estado, para promover o desenvolvimento econômico do Paraná. A ACP foi a primeira entidade a ser contra a privatização da Copel, registrada em documento público”, conta.
O “colegiado” montado para discutir a situação da Copel foi um característica da gestão adotada por Domakoski na ACP. Ele buscava orientação num pequeno colegiado, formado por vice-presidentes, conselheiros, assessores. Gostava de ouvir a equipe para tomar decisões mais precisas, com sensibilidade ampla.
Uma assembleia geral da ACP, em maio de 2002, chegou a reunir 3 mil pessoas, para promover uma revisão no estatuto da instituição. Uma comissão formada pela presidência trabalhou dois meses junto aos integrantes da ACP para chegar nas 42 modificações que deixaram o estatuto mais moderno e deram mais agilidade à administração da Associação. Em agosto de 2002, Marcos foi o primeiro presidente reeleito da ACP, e já na posse chamou a atenção dos governantes para um compromisso com a sociedade e com os que viviam à margem dela, excluídos de oportunidades e dos avanços sociais.

Agenda internacional
Em quatro anos na presidência da ACP, Marcos Domakoski representou a entidade paranaense em grandes momentos, ao lado de chefes de Estado e outras autoridades do Brasil e do mundo, abrindo espaço para a Associação nas mais variadas agendas políticas e econômicas, nacionais e internacionais. Em 2002, Domakoski foi convidado por Fernando Henrique Cardoso para a comitiva brasileira em visita à Polônia, onde Marcos recebeu condecoração do governo polonês pelos serviços prestados nas relações entre Brasil e Polônia. Em junho de 2004, ao lado do presidente Lula, Marcos participou da conferência da ONU Global Compact Leaders Summit, em Nova York. O presidente da ACP fazia parte do Comitê Gestor no Brasil no Pacto Global da ONU. Ele entregou ao secretário-geral da ONU, Kofi Annan, o projeto Mais Curitiba, consolidado pela ACP para apresentar alternativas econômicas e sociais para a cidade. Aliás, foi na gestão de Domakoski que foi lançado o projeto Centro Vivo, de revitalização e resgate da região central da capital.
Marcos também recorda com orgulho da participação na missão oficial do Governo do Estado à Polônia em 1999, quando Jaime Lerner recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Politécnica da Cracóvia. Marcos participou como vice-presidente da ACP e também como representante da colônia polonesa no Paraná, a maior do Brasil.

Volta à Copel
Em setembro de 2013, Marcos Domakoski passou a administração da MDD Comércio e Representações de Papéisaos herdeiros para assumir a diretoria de Gestão Empresarial da Copel, empresa onde tinha iniciado sua carreira profissional e pela qual tinha lutado para não ser privatizada. Por que um bem-sucedido empresário, que já poderia se aposentar, aceitou o convite do governador Beto Richa para o novo desafio? Marcos Domakoski estava muito descrente com os rumos do País, mas ouviu o Papa Francisco dizer ser responsabilidade dos homens de bem ocupar os espaços possíveis para deixar sua marca. “Achei que deveria tentar dar minha parcela de contribuição”, explica. Mas pesou também uma questão afetiva: o desejo de encerrar sua vida profissional na mesma empresa em que começou e pela qual lutou acirradamente quando presidente da ACP.
O retorno à Copel foi de saudosismo e também de muito sucesso, dando mais brilho à trajetória profissional de Marcos Domakoski. Com sua presença na Diretoria Executiva, a Copel chegou a um investimento recorde de R$ 2 bilhões por ano e passou a atuar em mais nove Estados brasileiros além do Paraná, com empreendimentos como usinas hidrelétricas e eólicas, linhas de transmissão e subestações. A subsidiária Copel Telecom levou a rede de fibra óptica a todos os 399 municípios, tornando o Paraná o primeiro Estado 100% digital do Brasil.
Aliados a um eficiente planejamento estratégico e a um forte programa de valorização e qualificação dos funcionários, os investimentos da Companhia resultaram em prêmios importantes no Brasil e na América Latina. Em dezembro de 2013, a Copel recebeu o troféu nacional de Líder em Energia no prêmio Líderes do Brasil, promovido pelo Lide – Grupo de Líderes Empresariais. Marcos representou a Copel na premiação em São Paulo, entregue pelo governador Geraldo Alckmin e pelo presidente da República em exercício,Michel Temer.
Em 2014, novos e maiores prêmios. A Copel Distribuição foi eleita a Melhor do Brasil pela Associação Brasileira de Distribuidoras de Energia (Prêmio Abradee) e Melhor da América Latina pela Comisión de Integracion Energética Regional (Prêmio Cier). A Copel também passou a ser a maior empresa do Paraná, entre públicas e privadas, pelo ranking da revista Amanhã e da consultoria PricewaterhouseCoopers.

Rotina
Afastado das salas de aula, Domakoski gosta muito de dar palestras sobre sustentabilidade e meio ambiente. Aprecia as caminhadas no Parque Barigui e, quando isto não é possível, faz esteira em casa. Nos fins de semana, vai a Guaratuba com toda a família. “É o melhor programa que existe”, avalia.
Outra paixão são as viagens, principalmente a lugares que ainda não esteve. No exterior, se vira bem em inglês, espanhol, francês e polonês. Busca sempre programas culturais, especialmente musicais. Na Áustria, apaixonou-se por Viena, “lugar onde a música permeia os ambientes”. Conta que chegou a ir às lágrimas vendo uma apresentação da Filarmônica de Viena.
Nas viagens, também aproveita para andar bastante de bicicleta, para se exercitar e conhecer melhor os lugares que visita. Já passou dez dias de bicicleta em Paris e Munique ao lado da mulher, Uchi Kaesemodel, com quem está casado desde 2005.Domakoski anda sem tempo para literatura, mas é leitor compulsivo de artigos na área econômico-financeira. Gostade futebol, é fanático pelo Atlético Paranaense e foi a três jogos da Copa do Mundo no Brasil.

Centro-esquerda
Politicamente, Marcos Domakoski define-se como de centro-esquerda. Acha que o sistema político brasileiroestá falido e que a reforma política está dez anos atrasada. Defende a adoção da fidelidade partidária, cláusula de barreira, voto distrital misto e financiamento público de campanha.
Marcos coordenou o Conselho Político da Associação Comercial do Paraná, consolidado na administração de Jonel Chede. Foi o único empresário a participar do Fórum Esquerda Democrática, promovido pelo Partido Popular Socialista em 2003. Participou também de grupos e comitivas de lideranças paranaenses reivindicando a criação do Tribunal Regional Federal no Paraná.
Nunca foi candidato a cargo eletivo, embora tenha sido convidado a isso em todas as eleições desde 1982 – e garante quenunca vai aceitar. Acredita que a esquerda brasileira teve um papel importante na redemocratização do país, mas reclama que hoje os partidos políticos não têm propostas, ideologias e militância adequadas. “São um aglomerado de gente”, critica.Em vista da atual situação brasileira, define seu sonho a realizar: “Quero ver meus netos crescerem num país com uma estabilidade política, valorizando a ética, com perspectivas econômicas sustentáveis, um povo educado e com mais justiça social”.

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