Miriam Aparecida Schweitzer de Miranda (2020) Medicina – Lages – Santa Catarina

Nasci em 13 de julho de 1947 na cidade de Lages, Santa Catarina, filha de Oscar A. Schweitzer natural de Santo Amaro da Imperatriz, Santa Catarina e de Maria Christina Araújo Schweitzer, lageana, ambos provenientes de família numerosa, cada um tinha cinco irmãos.
Meus avós paternos, João Schweitzer, falecido antes do casamento de meus pais, e Albertina Catarina Goedert Schweitzer, cozinheira e doceira de mão cheia, moravam na região de Palhoça, Santo Amaro da Imperatriz, Santa Catarina. Os documentos comprovantes das origens germânicas perderam-se. Era costume que o registro ou certidão de nascimento fosse feito na capela do local, que pegou fogo e não houve como recuperar a documentação. Existe em Santo Amaro da Imperatriz um museu conhecido como Casa Schweitzer que mantém um acervo interessante de assuntos referentes à família. Diz-se que há parentesco remoto com o Doutor Albert Schweitzer, médico, musicista e missionário na África.
Meus avós maternos, Francelisio Borges de Araújo, procedente de São Francisco de Paula, Rio Grande do Sul, fazendeiro, e Maria Amélia Gonçalves Araújo, filha de fazendeiros, de tradicional família dos campos de Lages, na localidade conhecida como Coxilha Rica.
Meu pai, o mais velho dos irmãos, era arrimo de família. Destacava-se pela capacidade de trabalho como negociante, industrial e político. Foi contemporâneo e amigo de infância de Nereu Ramos, que foi Presidente da República e de Celso Ramos, que foi governador do Estado de Santa Catarina. Vereador por várias legislaturas, sentia-se orgulhoso por ter sido aclamado Presidente da Câmara Municipal por duas gestões. Certa vez, perguntei-lhe porque não se candidatava à prefeitura e a resposta foi que não tinha condições para tanto, por não ter estudo; fez os cinco primeiros anos. Completou dizendo que a maior ambição de sua vida era poder propiciar estudo para os seis filhos.
Minha mãe quando jovem, tinha intenção de ser freira, era católica fervorosa, convicta. Estudou em Florianópolis, onde cursou o Complementar, no Colégio Coração de Jesus, um segundo grau da época, com aprendizado em alemão e latim, o que lhe propiciou ampliar o círculo de amizades, além de uma formação mais elitizada. Conheceu o jovem Oscar, com quem se casou, encerrando a pretensão de seguir a carreira monástica.
Dos meus irmãos, três homens e duas mulheres, os dois mais velhos completaram o primeiro grau em Florianópolis no Colégio Catarinense. O mais velho, Oscar, formou-se em Economia e Direito em Curitiba, pela UFPR .O segundo, Alaor, formou-se em Medicina, em Curitiba, pela UFPR, tendo sido colega de excelentes médicos, Dr. Antonio Carlos Sprenger e Dr. Antonio Luiz Pelisson, que seriam mais tarde meus professores na Faculdade. Diplomou-se também como Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Lages. O mais novo, Aloisio, formou-se em Medicina na Faculdade de Medicina de Passo Fundo no Rio Grande do Sul e atualmente clinica como Ortopedista em Lages. Minha irmã mais velha, Aleida, formou-se em Ciências Sociais pela UFPR e estudou piano no Conservatório Mensing em Curitiba, aperfeiçoando-se posteriormente no exterior, Holanda e Polônia, tornou-se pianista profissional de renome nacional e internacional. Casou-se com o talentoso violinista polonês Jerzy Milewski. A segunda irmã, Yelva, também estudou piano, fez conservatório na Escola de Música de Curitiba e Gastronomia em Balneário Camboriú, SantaCatarina. Casou-se com o médico paraibano Romeu F. Albuquerque.
Deste meio de gente estudiosa e musicista, surgi eu. Aos 8 anos de idade, em 1954, já no 2º ano do Primário, fui matriculada como interna, significava período integral, no Colégio Santa Rosa em Lages, com o propósito de ter uma educação mais aprimorada. Iniciei meus estudos de piano, era considerada boa aluna na escola, gostava muito de ler. Aos 11 anos, em 1958 passei a estudar em Florianópolis, também no internato, no Colégio Coração de Jesus, por onde também passaram minhas irmãs, em função da experiência materna que muitoapreciou os conhecimentos que obteve quando lá estudou. Prossegui com os estudos de piano, aprendi rudimentos de violino e harmônio, artesanato, e continuei lendo bastante. Aproveitamento integral na medida do possível.
Terminado o 1º grau (ginásio) em 1961, retornei a Lages, onde cursei Normal e Científico, até 1964, com intenção de partir para curso superior. Pensava em fazer Enfermagem Alto Padrão, ousar o Instituto Rio Branco, ou Medicina. O chamado mais forte foi mesmo para Medicina, especialmente vivendo o exemplo do meu irmão Alaor, que havia se tornado num conceituado médico cardiologista em Lages.
Após terminar o 2° grau, não parti direto para o objetivo de curso superior. Por motivos outros, fiquei durante os dois anos seguintes em Lages fazendo cursos de inglês, culinária, corte e costura, ministrando aulas de matemática e música para o 1º grau, participando de corais de igreja aos domingos e dando aulas de piano em casa.
Mais ou menos nessa época, minha irmã, Aleida, já estava em Curitiba cursando faculdade, e atuando como maestrina do Coral da Universidade Federal do Paraná, tendo sido uma das fundadoras do Coral da Universidade Federal de Santa Catarina, do qual fiz parte a convite dela, como coralista e como ensaiadora das vozes contralto. Nesta ocasião vim a conhecer a poetisa Vera Vargas que foi muito amiga da Aleida e que naturalmente tornou-se minha amiga e de minha família. Getúlio Vargas Tovar, filho da Vera, veio a ser meu colega na Faculdade.
Foi a partir daí que tomei a decisão de vir para Curitiba, isso no início de 1966, com anuência de meu pai que demonstrou liberalidade, qualidade que eu desconhecia nele. Não era comum filha mulher sair de casa para a cidade grande, sozinha, para estudar ou trabalhar. Aqui chegada, matriculei-me no Cursinho Bardhal, onde conheci e passei a ter convivência com alguns amigos que seriam meus futuros colegas. Ressalto a amizade com Iara Guimarães, de saudosa memória, cuja família me recebeu tão bem, tão carinhosamente que não tive oportunidade de sentir o “frio” dos curitibanos. Inevitavelmente comecei a amar Curitiba.
Já no primeiro ano da Faculdade, 1967, o entrosamento com os colegas foi praticamente imediato. Meninos e meninas de Curitiba e de vários Estados do Brasil, da Bolívia, enfim, uma plêiade de jovens acadêmicos que passaram a fazer parte em definitivo da minha vida. Nos primeiros meses do início do curso, tive a grata satisfação de ser convidada para participar de cirurgia experimental em cachorro, com circulação extracorpórea, com os queridos colegas Doutor Lauro João Lobo Alcântara e o hoje afamado cirurgião cardíaco Doutor Randas Vilela Batista. Inesquecível aquela manhã de um encalorado domingo, no porão do prédio da Faculdade.
Do primeiro ao terceiro ano, pratiquei atividades extracurriculares. Fui professora de História do Brasil no curso noturno do Cursinho Abreu, estudava inglês na Cultura Inglesa e alemão no Goethe Institut. No terceiro ano, comecei a namorar o Marcos, colega, e nos casamos no quarto ano. Antes de terminar o curso, tivemos nosso primeiro filho, Marcos, o Marquito.
Com 1 ano e meio de idade, o Marquito, que mal andava, estava brincando com crianças maiores quando acidentalmente caiu de frente numa caixa de cal que estava na frente da casa onde morávamos. Por sorte um dos meninos o tirou e me trouxe o pequeno com a carinha toda branca de cal. Imediatamente eu e Marcos lavamos abundantemente, removendo o que pudemos a cal do rostinho dele. Entramos no carro e corremos ao Hospital de Clínicas, onde exercíamos nossas atividades acadêmicas, e fomos direto ao ambulatório de Oftalmologia, onde o Professor Carlos Augusto Moreira nos recebeu e de pronto instituiu o tratamento adequado para que nada de sequela acontecesse aos olhos do Marquito.Foi então que a luz se acendeu para que eu optasse pela Oftalmologia como especialidade.
Concluídos os seis anos da Faculdade, fiz mais dois anos e meio de Pós- graduação, estagiando nos ambulatórios de Oftalmologia do Hospital de Clínicas da UFPR e do Hospital Evangélico. Ao término dos estágios, conquistei o título de especialista em Oftalmologia.
Do primeiro para o segundo ano de estágio, nasceu o segundo filho Alexandre. Estávamos morando com os pais do Marcos, Onda Torres Cruz de Miranda e Gabriel G. Frecceiro de Miranda, de modo que pudemos completar nossa formação com a ajuda deles. Enquanto o Marcos concluía sua residência no Departamento de Cirurgia do Aparelho Digestivo, sob a orientação do Professor Mário de Abreu, iniciei minhas atividades como médica. Em 1975, ano da neve em Curitiba, estive em Porto Alegre, onde estagiei com o Mestre Professor Doutor Paulo Horta Barbosa, com quem aperfeiçoei minha subespecialidade, Estrabismo, clínica e cirurgia, o que veio a ser um importante complemento para o meu currículo e para a atividade profissional.
Uma situação peculiar, emocionante, aconteceu durante o estágio no Hospital de Clínicas. Comigo, no ambulatório, trabalhava como voluntária a Dra. Zuleika Cleto D’Alcol. Um dia, bastante sensibilizada, chamou-me para examinar uma paciente e ver o que podia ser feito para melhorar a situação dela. Era uma jovem, permanecia de cabeça baixa, sem olhar para a gente, cabelos loiros, compridos, com uma franja que lhe cobria totalmente os olhos. Solicitei que afastasse a franja para que pudesse examiná-la. Foi quando percebi o motivo de tanta timidez e vergonha. Um acentuado estrabismo, para ela deformante, era a causa de tal comportamento. Resumindo, levamos a moça à cirurgia de correção do estrabismo, que foi bem sucedida. Uma semana depois, no retorno, aparece a moça com a franja cortada, os olhos azuis à mostra, feliz da vida. A Dra. Zuleika e eu quase choramos de emoção. Esse foi um exemplo entre tantos outros, do que ocorre no nosso dia a dia.
Recomendada para assumir o ambulatório de Oftalmologia do Hospital Militar de Curitiba, lá fui recebida pelo Dr. Amarante, diretor do Hospital, e lá cliniquei por sete anos. Logo após, fui admitida como médica Oftalmologista no Instituto de Previdência do Estado, onde trabalhei até a sua extinção, ao mesmo tempo que atendia no meu consultório. Cliniquei por curto período no Hospital da Polícia Militar do Paraná. O primeiro consultório particular foi no Hospital de Olhos do Paraná, do qual fui sócia por cinco anos. Em seguida, na Avenida Batel, com Dr. Manabu Jojima, depois de ter saído de uma sociedade com Dr. Manabu, Dr. Aristides Athayde Neto e outros.
Nesse meio tempo, nasceu minha filha Gabriela e cinco anos depois veio o filho mais novo, Bruno. O Alexandre formou-se em Engenharia Agronômica, fez Pós-graduação em Florestas em Minas Gerais e Arroz Irrigado no Rio Grande do Sul, e tem orgulho de se considerar um provedor de alimentos para a humanidade. A Gabriela seguiu a carreira do avô paterno, Gabriel, que era desembargador, e dos tios Gabriel e Paulo, advogados. Cursou a Faculdade de Direito da PUC. Marcos estudou na Faculdade de Medicina da PUC e Bruno estudou na Faculdade de Medicina de Criciúma, Santa Catarina. Ambos não concluíram o curso, e nos deixaram precocemente.
Do primeiro casamento do Alexandre, vieram os três únicos netos que temos. Guilherme, o mais velho, com 15 anos, e os gêmeos Nicolas e Felipe com 12 para 13 anos.
Gabriela casou-se com David Nuñez Pena, de nacionalidade chilena.Optaram por não ter filhos.
De 1991 a 1996 atuei no Departamento de Oftalmologia do Hospital de Clínicas da UFPR como médica contratada pela Fundação da UFPR, onde além de atender o ambulatório, fui preceptora dos residentes da especialidade, orientando-os, clínica e cirurgicamente no área de Estrabismo. Depois disso, passei a clinicar sozinha no Consultório situado à Rua México, onde exerço minha atividade até hoje.
Além do Consultório, há vinte anos que faço parte de um grupo de colegas oftalmologistas na sociedade OAP, clínica de sofisticados exames oftalmológicos, onde também trabalho, e desde então esta atividade complementa e agrega valores à minha profissão.
Há mais ou menos trinta anos que me iniciei na prática do tênis, esporte que me preenche os requisitos de lazer e bem estar. Jogo pelo menos três vezes por semana, frequentando aulas,disputando torneios, participando de treinamentos ou simplesmente jogando com amigos. Sou ranqueada na Federação Paranaense de Tênis, já fui 2ª classe, possuo inúmeros troféus dos torneios que disputei.
São horas muito prazerosas, compartilhadas com parceiras, parceiros, de todas as idades, a maioria mais novos que eu, mas que curtem jogar comigo independente da diferença de idade.
A plena realização profissional, devo a muitas pessoas. Meus pais, meus sogros, ao Marcos, familiares, colegas, amigos e aqui vai uma menção especial à pessoa que há mais de 40 anos me livra de muitos afazeres domésticos, ajudou-me a criar meus filhos e até hoje conto com a colaboração dela: é a fiel escudeira Quitéria Rosalina de Lima Souza, sem a participação da qual teria sido muito difícil atingir as metas que me propus.
A importância do resultado de tudo isso, é a satisfação manifestada pelos pacientes que recorreram a mim durante todos esses anos, comprovada pela fidelidade da procura pelo meu atendimento. Avós, pais, filhos, netos e até bisnetos que continuam confiando no meu trabalho, o que me mantém na ativa. Isso não tem preço. Saber e sentir que a minha dedicação é reconhecida pelos pacientes e pelos colegas é uma dádiva única.
Nos percalços e adversidades da vida, houve sempre a primazia do trabalho tanto como obrigação e responsabilidade quanto como terapia ocupacional, na medida em que sempre foi uma atividade saudável e animadora, embora muitas vezes difícil. Além disso, e muito especialmente, considero-me privilegiada por fazer parte de uma grande família, a minha, a do Marcos, a nossa, incluindomuitos amigosqueridos que muito significaram na persistência e perseverança de seguir em frente, superando as dificuldades.
O convívio com os médicos colegas da turma de 1972 e consortes, é um capítulo à parte, onde amizade se mistura com família, amor, carinho, companheirismo, entre os colegas e com a adesão dos respectivos consortes, entrosados e participativos tanto quanto, no grupo. É inédita e invejável esta condição, iniciada nos cursinhos, mantida durante todo o curso de seis anos, perdurando todos estes anos com as mesmas características de coesão, espontaneidade, e notadamente, respeito pelas qualidades profissionais de cada um.

Comentarios 1

  1. Diane

    Bom dia …muita linda a história da dra : porém me interessa muito saber sobre ela enquanto profissional, suas Pos graduações, mestrados, especializações etc….

    Desde de já agradeço.

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