Maria de Lourdes Pessole Biondo Simões (2020) Medicina – Mariópolis – Paraná

Maria de Lourdes Pessole Biondo Simões (2020) Medicina – Mariópolis – Paraná.

Nasci em 23 de novembro de 1953, em Mariópolis, Paraná, naquela época um distrito de Clevelândia. Meus pais, Claudino Biondo e Pierina Pezzoli Biondo, foram meus grandes exemplos de vida, de honestidade, de ética, de moral, de trabalho e de amor.

Não estranhem a grafia diversa de nossos sobrenomes, os cartorários eram especialistas nestas transformações. Meu pai era o filho mais velho de uma grande família, nascido em 1924. Eram quatorze irmãos. Apesar das dificuldades, formou-se em contabilidade e era fanático por leitura. Minha mãe tinha o ensino primário incompleto, mas era muito, muito inteligente. Ninguém era melhor em matemática do que ela. Como? Não sei.

Fui casada e tenho dois filhos: Áureo Simões Neto, que é advogado e Rachel Biondo Simões, que é médica, cirurgiã oncologista. Eles são o maior e o melhor presente que Deus me deu. Foram e são minha fonte de energia e inspiração. Espero ter sido para eles o que meus pais foram para mim. A vida continua em uma neta, Maria Clara Osório Simões, criança doce e tranquila que trouxe a paz para todos nós.

Descendente de avós italianos que se radicaram em Caxias do Sul, Rio Grande do Sul, cidade natal de meus pais, passei parte de minha primeira infância com meus nonnos maternos, em Galópolis (Caxias do Sul). Aos sete anos, minha família veio morar em Curitiba. Fiz a escola primária na então, Escola Imaculada Conceição e depois o ginásio no Ginásio Pe. João Bagozzi. Estas escolas deram origem ao atual Colégio Pe. João Bagozzi. Fui sempre a primeira aluna da turma, chegando a possuir a quarta melhor caderneta escolar do município de Curitiba. Naquela época, para estimular os alunos ao estudo, a Secretaria da Educação e Cultura do Estado do Paraná (as duas eram unidas) estimulava uma concorrência entre as escolas de Curitiba. Ao terminar o ginásio frequentei o que se chamava científico, inicialmente no Colégio Estadual Pedro Macedo e após no Colégio Bardhal.

Era chegada a hora de ingressar na Universidade. Desde a minha infância, eu sonhava em “ser médica”. Acredito que a vontade de ser médica começou lá na minha primeira infância, quando estava na companhia dos meus nonnos. Minha nonna estava com diabetes e desenvolveu um quadro de neurite. Eu costumava dizer a ela: “vou ser médica e vais melhorar”. Quando alguém precisava de cuidados eu sempre me oferecia para tal. Minha vocação primeira era cuidar. Parece lógico que eu desejasse ingressar numa escola de medicina.

A situação econômica da família atravessava um momento muito difícil. Eu queria muito ingressar na Universidade. Dediquei-me a estudar, mas mesmo tendo passado madrugadas e feriados estudando, não foi o suficiente para ser aprovada na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Chorei muito, mas levantei a cabeça e me propus a lutar mais um ano. Isto não aconteceu. Eu tive um padrinho maravilhoso, Lidovino Colnaghi, que sempre me acompanhou muito de perto. Ele providenciou a minha inscrição para o vestibular da Faculdade Evangélica de Medicina do Paraná. Fui aprovada, um mês depois da derrota na UFPR, em 1972, com o segundo lugar da classificação.

Os anos de faculdade foram difíceis. Minha situação econômica continuava muito complicada. Mas Deus nunca nos abandona quando somos dedicados e coloca alguns anjos em nossa vida para nos ajudar. Assim, surgiu a Professora Doutora Ailema Lory Luvison Franck, a quem devo, ter nascida em mim, a vocação para ensinar. Com ela, aprendi tudo o que sei de didática: a postura, o uso da voz, das imagens e até do giz.
Outro anjo foi o Professor Doutor Daniel Egg, a ele, devo ter nascida em mim, a vocação para a cirurgia. Com ele, aprendi o cuidado com os doentes, a gentileza, a atenção e o esmero técnico. Aprendi que quando não se pode fazer mais nada pelo corpo ainda se pode fazer pela alma. Este conceito procuro transmitir a todos os meus alunos.

Durante a faculdade eu continuei a estudar muito. Eu vinha de uma família de imigrantes, sem história prévia, no Brasil, de médicos. Eu sabia que a batalha seria dura e que eu não teria muitos apoios. Minha única arma, nesta luta, era estudar e então, me dediquei. Apesar das dificuldades de tempo, pois para poder sobreviver, nos intervalos de aula e estágios, eu dava aulas particulares de matemática e de biologia no Colégio N.S. de Sion e depois no Colégio Pe. João Bagozzi, conclui o curso como a segunda aluna da turma. A cerimônia, que aconteceu no Teatro Guaíra, foi emocionante. Nunca esquecerei o Professor Dr. Daniel dizendo “Podeis praticar e ensinar a medicina. Deus te abençoe, minha filha”. Era o dia 8 de dezembro de 1977.

Os anos de faculdade foram difíceis, mas muito felizes. Nossa turma era pequena (49 alunos). Formamos uma linda e unida família. Pode ser raridade, mas estamos juntos até hoje, ainda que alguns já nos tenham deixado.

Gostava muito de estudar anatomia para depois repassar aos meus colegas. O cadáver da minha mesa ficou famoso. Éramos seis alunos por mesa, mas eu era obstinada e porque não dizer, possessiva… não deixava ninguém o dissecar. Todas as estruturas eram codificadas com fio de bordado e cada cor tinha um significado.

Íamos para o hospital precocemente, já no segundo semestre do primeiro ano. Acompanhávamos a dispensação da medicação e fazíamos alguns pequenos procedimentos como: aplicar uma injeção intramuscular ou mesmo endovenosa, passar uma sonda vesical ou nasogástrica… No terceiro ano, instrumentávamos cirurgia com bastante propriedade.

Durante o quinto e o sexto ano, surgiu a inquietude de escolher o que fazer. O fato de ter acompanhado a clínica cirúrgica, me impulsionava a buscar a cirurgia geral, especialidade até então não praticada por mulheres, aqui em nosso meio. Era comum eu ouvir: “nem tentes, vais morrer de fome” ou “nunca te aprovarão em uma residência pois mulher não serve para esta área”.

Então, surgiu o terceiro anjo, o Professor Doutor Rached Saliba Smaka. Era uma manhã, muito fria (naquela época nossos invernos se apresentavam com muitas geadas), estávamos no Centro Cirúrgico, eu ajudando o Professor Doutor Carlos Augusto Moreira em uma facectomia e o Professor Doutor Rached operando uma via biliar. Quando nos encontramos na sala do café, acredito que estava estampado em minha face o sentimento de insatisfação. Ele me perguntou o que estava acontecendo e conversamos. Apesar de todos dizerem que ele jamais apoiaria uma mulher, ele me incentivou e me ajudou muito. A ele devo muito de meu aprendizado técnico. Professor exigente, me ensinou mais do que a técnica, me ensinou que o paciente é um todo e não um órgão doente.

Candidatei-me para a Residência de Cirurgia no Hospital Universitário Evangélico de Curitiba. Fiz uma boa prova e possuía um curriculum com boas notas. A entrevista foi dura. O preconceito contra a mulher, se existe hoje, era muito mais evidente naquela época. Fui obrigada a ouvir: “mulher deveria escolher coisas doces para fazer” e mais “devias estar de calças compridas e não de saias”. Mesmo com nota muito baixa na entrevista (teve professor que me conferiu a nota zero, acreditando que conseguiria impedir minha entrada), fui aprovada com a segunda nota. Neste momento eu assumia a responsabilidade de “não poder fracassar”, pois isto fecharia as portas para as colegas que viessem depois de mim.

Durante a residência muitos professores, além dos Professores Doutores Daniel e Rached, doaram seus conhecimentos. Entre eles o Professor Doutor Sérgio Brenner, o Professor Doutor Almir Cortes, o Professor Doutor Osvaldo Malafaia e o Professor Doutor João Batista Neiva. Não foi fácil vencer o preconceito contra a mulher. Era preciso fazer, sempre, muito mais que os meus colegas, para poder convencer. Gostaria de fazer, neste momento, uma homenagem ao Professor Doutor João Batista Neiva. Aprendi muito com ele. Suas operações eram verdadeiras aulas de anatomia, de técnica e de arte. Feliz aquele que teve a oportunidade de com ele aprender.

Quando terminei minha residência comecei a trabalhar como cirurgiã na emergência do Pronto Socorro Evangélico. Trabalhava-se muito, mas era gratificante. Lá, vivi muitas experiências, algumas das quais estão narradas no livro “E agora doutor” de autoria do Professor Doutor José Ephisio Bigarelli, anestesiologista, meu padrinho. Juntos, dividimos muitos momentos (Bigarelli JE. E agora, doutor? Curitiba: Artes & Textos, 2014. 106p).

Precisava provar a mim mesma que eu era capaz, que conseguiria ser cirurgiã, que conseguiria mais, seria professora… Muito ambiciosa dirão alguns, prepotente, vaidosa, arrogante dirão outros. Não importa, talvez eu quisesse me superar.

Para fazer a carreira acadêmica era preciso a pós-graduação. Inscrevi-me para o Programa de Mestrado em Morfologia com área de concentração em Anatomia, na Universidade Federal do Paraná. Tive a felicidade de ter como orientador o Professor Doutor Ari Leon Jurkiewicz. Estudamos, em cadáver fresco, as variações anatômicas da inserção do músculo oblíquo interno, importante na etiopatogenia das hérnias inguinais diretas. Professor metódico, exigente e perfeccionista, me ensinou a escrever e em 08 de dezembro de 1989, eu defendia a dissertação que me dava o título de mestre.

Precisava continuar, fazer o doutorado. Busquei o programa em Clínica Cirúrgica na Universidade Federal do Paraná, mas ouvi: “você é jovem, tem muito tempo e pode esperar”. Nesta oportunidade estava em visita a Curitiba, o Professor Doutor Saul Goldenberg que me convidou a fazer o doutorado em Cirurgia Experimental na Universidade Federal de São Paulo (Escola Paulista de Medicina). Quando penso no curso assusto-me e pergunto-me: como consegui? Eu tinha meus filhos pequenos e ia a São Paulo todas as semanas. Pegava um ônibus que saía à meia-noite de terça-feira e chegava em São Paulo às seis horas de quarta-feira. Às oito horas, estava em atividade na Universidade e assim prosseguia até às 17 horas. Fazia o percurso da rua Botucatu até àa estação do metrô, quase correndo para poder chegar à estação Tietê, pegar outro ônibus e estar de volta a Curitiba por volta da uma hora da madrugada da quinta-feira e poder trabalhar pela manhã. Neste período, descobri o que era dor de cabeça. Eu sempre chegava com ela em casa. Foi meu orientador o Professor Doutor Boris Barone. Ao contrário do Professor Ari, o Professor Boris me deixava sempre muito preocupada pois quando eu tinha dúvidas, e não eram poucas, ele brincava e dizia “não adianta, tenha calma, brasileiros não ganham prêmio Nobel”.

Envolvida com a coloproctologia desenvolvi minha tese com anastomoses de cólon e preparo. Em 30 de março de 1994, defendi a tese que me dava o título de doutor. Este trabalho recebeu o prêmio Pitanga Santos, maior prêmio da Sociedade Brasileira de Colo-proctologia em 1994.

Fazer o doutorado em São Paulo foi muito bom. Tive a oportunidade de conhecer outros mestres, ter novos amigos, de todo o Brasil. Amigos que, pela capacidade de agregar do Professor Doutor Saul, continuam a se encontrar e a se ajudar. Neste período, recebi o Prêmio do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (1993) e o Prêmio Nacional de Coloproctologia Dr. José Thiago Pontes, conferido pelo Instituto Brasileiro de Estudos e Pesquisas de Gastroenterologia (1995). Fazer um pós-doutorado no exterior foi um sonho impossível. Eu precisava cuidar de minha família.

Mesmo antes do título de doutor, em julho de 1990, tive a alegria de chegar a membro titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, sendo a primeira mulher a conseguir este título no Estado do Paraná. Ensinar sempre me fascinou. Estar com os alunos, tentar ajudá-los a aprender é alguma coisa que palavras não podem explicar. Eu gosto de estar com eles, de ensinar, mas também de aprender. É essencial desenvolver neles o espírito crítico, a alegria de conhecer e com o conhecimento trabalhar. Gosto de estar próxima a eles, me sentir um pouco mãe, entusiasmá-los na caminhada, oferecer meu braço quando estão perdidos, mostrar-lhes o quanto é belo se manter honesto e ético, tentar compreender as suas motivações e as suas angústias. Pude ajudar a muitos, orientando-os na iniciação científica, nos trabalhos de conclusão de curso, nas dissertações de mestrado, nas teses de doutorado e mesmo, na iniciação à docência.

Iniciei a carreira, no magistério, na Faculdade Evangélica de Medicina do Paraná, em 1980, na Disciplina de Técnica Operatória e Cirurgia Experimental. Permaneci nesta Faculdade até 1997. Em 1994, após concurso público, passei a ser professora substituta de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental da Universidade Federal do Paraná. Em 1997, fiz novo concurso e passei a fazer parte do quadro efetivo. Hoje, sou professora titular do Departamento de Cirurgia desta Universidade, tendo sido a primeira mulher a chegar à titular neste departamento, desde a sua criação. Em 2016, fui eleita chefe do Departamento de Cirurgia do Curso de Medicina da Universidade Federal do Paraná, sendo a primeira vez que uma mulher passou a ocupar este posto.

Exerci, paralelamente, o magistério, na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), de 1997 a 2012. Ingressei naquela instituição para a Disciplina de Técnica Operatória e Cirurgia Experimental. Em 2002, com a criação da Disciplina de Metodologia da Pesquisa, assumi esta tarefa, que foi muito relevante na aquisição de experiência para a pesquisa. No final do ano de 2012, passei a professor com dedicação exclusiva à Universidade Federal do Paraná e deixei a PUC-PR.

Minha vida como médica foi muito gratificante. Amo meus doentes. Segundo Hipócrates, o pai da medicina, sedare dolorem opus divinum est, ou seja, aliviar a dor é uma obra divina. Sendo eu muito religiosa, nas minhas conversas com Deus sempre rezo: “guia-me, permita que eu leve alívio e consolo, faz de mim Teu instrumento e que eu possa realizar a Tua vontade”.

Trabalhei, inicialmente, no Hospital Evangélico de Curitiba, depois no Hospital Geral do Estado (atual Hospital do Trabalhador), no Hospital e Maternidade Santa Brígida, no Hospital Vita Batel e na Lipoplastic.

Hoje, por causa da dedicação exclusiva, minha atividade médica ficou reduzida ao atendimento do ambulatório de parede abdominal do Hospital do Trabalhador e ao tratamento cirúrgico de reparação destas paredes. Não sei como descrever a alegria de cuidar destes pacientes. São pessoas com grandes deformidades, às vezes até com dificuldades motoras, e com baixíssima autoestima. Cuidar delas demanda tempo e paciência. Mas ao final é maravilhoso. Estar com os alunos no ambulatório e em sala operatória é tudo o que posso querer. Estar em sala de aula é bom, mas estar junto do aluno na sua iniciação prática, vê-lo conseguir realizar os procedimentos, orientá-lo para que proceda corretamente é infinitas vezes melhor.

Atualmente, sou mestre do Colégio Brasileiro dos Cirurgiões para o Capítulo do Paraná e Membro Emérito desta sociedade, mais uma vez a primeira mulher em nosso Estado a chegar a este posto.

A vida foi dura, mas valeu a pena e o reconhecimento veio. Não se deve lutar esperando o prêmio, ele virá como consequência de um bom combate. Assim, fui reconhecida 18 vezes e alguns destes reconhecimentos merecem destaque: Cavaliere dell’Ordine della Stella della Solidarietà Italiana, concedida pelo Presidente da República da Itália Carlo Ciampi em 2003, Prêmio Papa João Paulo II concedido pela Câmara Municipal de Curitiba e Menção honrosa da Assembleia Legislativa do Estado do Paraná, por duas vezes.

Ao falar de minha vida, não posso deixar de lembrar que sou descendente de italianos e colaborar para a conservação da cultura me dá muita alegria. Há 28 anos, organizo o encontro de coros e música italiana, no bairro de Santa Felicidade, além de coordenar a missa neste idioma há 29 anos. O Consulado Geral da Itália para o Paraná e Santa Catarina organiza, anualmente, uma semana de eventos, Mia Cara Curitiba. Faz parte deste evento a apresentação de música coral na Catedral Basílica de Nossa Senhora da Luz (catedral de Curitiba), tendo ficado sob minha responsabilidade. Por 20 anos, ensinei crianças a cantar nos sábados à tarde, na Casa Culpi. Elas aprendiam a cantar e ao mesmo tempo ganhavam o conhecimento de uma língua: imparare l’italiano cantando.

Cantar é uma grande terapia. “A música é capaz de reproduzir em sua forma real, a dor que dilacera a alma e o sorriso que inebria” (Ludwig van Beethoven). Gravei dois CDs, o primeiro “In preguiera” com uma seleção de Aves Marias e alguns clássicos sacros. O segundo, “Nostalgia” é uma coletânea de músicas italianas e brasileiras que fizeram parte de minha juventude. Um momento emocionante foi cantar a Ave Maria de Giulio Caccini (1550-1618) para os meus alunos, no culto ecumênico de sua formatura, em janeiro deste ano. Sempre fui muito curiosa e, ao par de meu trabalho, levantei a história de minha família que culminou com um livro “Resgatando nossas origens” com 226 páginas, registrado na Biblioteca Pública do Paraná em 2016.

Por fim vou lembrar Augusto Cury: “Os sonhos não determinam o lugar onde vocês vão chegar, mas produzem a força necessária para tirá-los do lugar em que vocês estão”.

Comentarios 1

  1. Carlos Eduardo Previdi

    Bom dia.
    Me chamo Carlos Eduardo Previdi.
    Que linda história de vida!!
    Preciso aprender a sonhar para sair do lugar que me encontro profissionalmente!

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