Armando Salvatierra Barroso (2020) Medicina – Cobija – Bolívia

Nasci na Bolívia, na fronteira com o Brasil, na cidade de Cobija, no dia 3 de Junho de 1948; fiz meus primeiros estudos desde o jardim de infância até o colegial na minha cidade. O primário, de 6 anos, fiz na escola Maryknoll de missionários religiosos americanos católicos, daí meus princípios religiosos na crença de Deus, Jesus Cristo e sua doutrina.
Fiz o primário de 1955 a 1960, a exceção de 1957 quando estudei em escola rural; entrei no secundário em colégio do governo (Colégio Nacional Antônio Vaca Diez). Naquela época, os professores eram abrangentes no sentido de orientar princípios e valores morais, cívicos e até religiosos.
Meus pais eram Miguel Salvatierra Moreno e Rita Barroso de Salvatierra, ela descendentedireta de cearenses que se mudaram à região amazônica na grande seca do Cearáde 1910, que antecedeu a 1ª guerra mundial. Meu pai descendente de espanhóis, participou da guerra em 1932/1935 del Chaco, entre Bolívia e Paraguai, onde foi considerado herói pela valentia e determinação.
Essas pilastras de professores e pais me deram as bases que formaram minha personalidade, sempre estribado em honestidade e a verdade, fundamentaram meus princípios.
Desde cedo tinha amor pela Medicina. Queria estudar medicina!
Aconteceram alguns fatos que, sem querer, presenciei e marcaram minha futura decisão, isto é a morte por hemorragias graves dedois casos de ferimentos por arma branca que foram a óbito sangrando abundantemente. Hoje eu sei, em choque hipovolêmico. O primeiro, o médico foramchamado e nós, moleques correndo, chegamos primeiro. A hemorragia era grave, de tal maneira que o médico apenas constatou o óbito, o segundo que de igual maneira,com lesão na artéria femoral, era um policial, me aproximei curioso o sangue jorrava.
Morreu no hospital, eu olhando por uma janela de vidro o interior da sala cirúrgica. Fiquei profundamente abalado; tinha, no primeiro caso, 8 anos e no segundo, 10 anos. Estes acontecimentos levaram meus pais a pensar que eu não poderia fazer medicina pois, meu comportamento seria de “medo de sangue”, hoje eu sei – demorei a perceber – que não era medo e sim respeito pelo sangue, respeito pela vida, ou respeito pela morte.
Minutos antes da primeira aula de medicina, na sala de anatomia, tinha esse receio de não terpreparo para enfrentar sangramentos, hemorragias e… cadáveres, à noite anterior, mal dormida, ansioso pelo que poderia acontecer, desfeito já no primeiro dia do anfiteatro de anatomia, confesso que estava tremendo até que entrei sala dos cadáveres e imediatamente percebo que estava no meu ambiente natural e a tremedeira cessou e a partir daquele momento me senti completamente natural.
Não conhecia cidade grande, muito menos o mar,viajei da minha cidade a La Paz, que já, para mim, foi impressionante pela altura, pelas montanhas, pelos edifícios que achava “gigantes”.
Somos 5 irmãos, 2 somente de pai: Miguel (Mino); Herman e mais dois de pai e mãe Gislene e Miguelito, eu, o caçula. Meu irmão Miguelito já estava estudando em Curitiba. A situação do país naquele ano (1966), apenas dois anos depois da mudança de governo , saindo Jango e entrando o Marechal Castelo Branco, meu irmão Miguelito aconselhara a meus pais que a situação do Brasil não estava totalmente estabilizada e “não aconselhava minha vinda ao Brasil” que era meu sonho, poisa situação aqui tinha encarecido muito e contraindicava, nesse momento, os estudos no Brasil. Minha família não era de posses abundantes, tínhamos uma panificadora que exigia muito trabalho e dinheiro não sobrava. Antes, meu pai tinha tentado a política com o pensamento de melhorar o país (Bolívia) que sempre estava em pior situação que o Brasil.
De tal maneira, que vivia sendo perseguido pelos prefeitos e governadores, com multas, impostos e verdadeira caça às bruxas. Assim, de 1959 a 1960 tivemos que vir ao Brasil na condição de refugiados políticos.
Todos não queriam que eu abandonasse os estudos, assim tive que continuar indo ao colégio atravessando um igarapé que sempre estava alagado, com águas turbulentas e muito violentas com chuvas torrenciais, próprias dessa região. Meu irmão Miguelito teve de deixar de estudar a fim de me acompanhar nessas situações de extremo perigo. Estávamos no coração da Amazônia.
Essas dificuldades moldaram meu caráter e meu jeito. Hoje, esse trajeto se faz em asfalto, em veículos motorizados, naquela época era mato e em péssimas condições.
Fiz a minha formação e adquiri o título de Bacharel em Ciências Humanas, pela Universidad Mayor de San Simon, em Cochabamba, equivalente a uma Universidade Federal.
Estudava muito, joguei bola, me aventurei até no boxe, tive apenas uma luta, treinei muitos meses. Adotei o nome de Joe Armando Bazzoka e minha luta foi contra Leopoldo Fernandez (depois foi grande político boliviano) que tinha escolhido o nome de Sony Liston, sim o campeão de boxe.
Minha formação foi no colégio secundário Antônio Vaca Diez, onde fiz muitos amigos que ainda os conservo no coração e na memória
A partida teve motes de intensa tristeza. Mal sabia (ou sabia?) que minha travessia estava apenas começando. Semanas antes da minha partida, na minha região ainda não tinha nível superior e muito menos Medicina. Em casa éramos só minha mãe, meus tios e minha irmã Gislene que já tinha casado com Carlos Cesar da Silva que ao fazê-lo me deixou um vácuo enorme no meu coração. Pensei ter perdido minha irmã, ledo engano, ganhei um outro irmão (ou seria pai) sempre foi meu conselheiro das horas mais difíceis, sua morte na década de 2000 até hoje é muito sentida no meio familiar. Perdi um irmão.
Pois, como relatava, era minha família preparando meu enxoval para minha partida, Brasil não saía do meu pensamento. No aeroporto, aconteceu um fato inusitado, minha mãe que sempre foi guerreira e de espírito decidido, quase duro. Pois bem, chegando a hora do embarque cheguei ao ouvido da minha mãe (papai sentimental, não quis ir ao aeroporto, se fosse, por ele eu faria agronomia ou veterinária, que tinha mais perto de casa) e num sussurro lhe disse “sabe mãe, não quero mais ir” com o coração dilacerado de saudades. Minha mãe, percebendo a presença dos meus amigos, retrucou “oh, meu filho não quer mais ir…” e abraçado como estávamos senti o doloroso beliscão que pegou todas as camadas da minha pele, dor tanto física como na alma.
Entrei rapidamente no avião, procurei meu assento, minha mãe de costas olhando para o infinito, a partir daquele momento só tive olhos a ela, o avião taxiou e passou pelo local onde minha mãe continuava olhando para um ponto vazio do horizonte.
No dia seguinte, num hotel “meia estrela”, em La Paz, olhei no espelho do pequeno quarto do hotel e lá estava a prova do crime, uma severa equimose na região torácica posterior, fruto de um beliscão de uma mãe que queria que seu filho vencesse na vida.
Comecei a estudar Medicina em Cochabamba, Universidade Mayor de San Simon.
Certo dia, alguns alunos, colegas me dizem que abriram inscrições para postular a universidades brasileiras, e que haveria 10 vagas para Medicina, não pensei duas vezes e no dia 25 de janeiro, apresentei a papelada no Consulado brasileiro em Cochabamba. Fomos convocados para uma prova de português, história do Brasil e entrevista; fui um tanto nervoso, mas decidido, sabendo que era minha única oportunidade, pois a concorrência era muito grande, soube que se apresentam mais de 1000 candidatos em toda a Bolívia.
Terminei confiante pois achei que tinha ido bem. O resultado sairia dia 16 de fevereiro.
Dormi muito pouco na noite de dia 15 para 16, data do edital para divulgação do resultado. Naquela época, os jornais eram anunciados a partir das 6 horas da manhã, de longe escutei: “Los Tiempos! Los Tiempos!Opinión”. Saiu o resultado dos escolhidos auniversidades brasileiras.
Fiquei de pé num pulo, e com 1 moeda interceptei o garoto que gritava, quase tomando das suas mãos fui direto ao local do anúncio, mais de 500 estudantes foram escolhidos para diferentes carreiras, fui direto aos 10 de Medicina, meu nome estava lá, terceiro. Classificado.
Para conseguir os papeis e o consentimento final dos meus pais, foi uma aventura com o prazo quase vencendo. Tínhamos que estar no Rio, Itamarati (Ministério do Exterior), o cero é que viajamos em uma verdadeira odisseia a São Paulo, num velho DC6 Douglas do Lloyd Aéreo Boliviano – LAB. daria um livro o “padecimento” desses dias no Rio, sem quase dinheiro e com os dias do prazo quase vencendo, chegamos dia 22 de fevereiro de 1967. Tive o prazer dois amigos bolivianos que permanecem até hoje, Carlos PeredoCalderon e Fernando Lopez Arce (que estava acompanhado pelo seu pai – um senhor que até hoje o guardo na memória)
Depois de muitas dificuldades, destinados a faculdade Medicina da Universidade Federal do Paraná.
No dia 27 à tarde, partimos de ônibus para Curitiba, chegando bem no dia da apresentação da Direção da Faculdade de Medicina da UFPR, na Praça Santos Andrade. Ao final da tarde, do dia 28 de fevereiro de 1967, já estava matriculado no primeiro ano de Medicina!
O professor Alfredo de Moraes e Silva Filho (Prof. Moraes), CRM 617, por exemplo da Embriologia, difícil de entender, de cada 20 palavras eu entendia uma, imagina meus colegas que nunca tinham estudado português, a não ser para vir ao Brasil.
No segundo ano, já tínhamos muitos amigos e a Medicina já estava no nosso sangue.
Passagem digna de nota, foi no terceiro ano que tive uma “crise existencial”, achava que medicina não era bem o que esperava, morriam todos. O HC era um hospital terciário e de ensino, onde eram internadas as crianças(e outros pacientes) em condições severas de saúde, graves, portanto, muitos morriam. Isso me decepcionou, minha mãe teve que vir e me levar a médicos dela em São Paulo, muitos exames e testes, não tinha nada, tudo era de origem emocional, psíquico.
Depois de quase 45 dias sem ir às aulas, ela com ar sério me diz “amanhã, tenho que voltar, teu pai precisa de mim, está aqui um dinheiro, você escolhe para onde quer ir, a Curitiba ou volta comigo àBolívia”, e apontando uma TV preto e branco da época conclui: olha esses homens descendo na lua, quantos homens colocaram os dois lá?“Você, já no terceiro ano, com tudo de mão beijada e quer abandonar? Faça como quiser!” – disse ela.
Adivinhem para onde comprei meu retorno. Conheci esse dia como “O dia da Cura”, pois fiquei bom. Magia? Psicologia de mãe? A data 20 de julho de 1969, o dia que o homem desceu na Lua, pela a primeira vez.
Tenho relatos dos seis anos de faculdade recheados de dificuldades, a maioria de ordem financeira. A recordação dos restaurantes do DANC, UPE, DCE, Casa do Estudante Paranaense (todas representavam os estudantes) que passariam a ser nossas casas, a amizade com colegas e amigos que permanecem até hoje, O Grêmio de esportes do DANC, dirigido pelo Tonhão e Carlão (Antonio Carlos Durante e Carlos Renato D’Avila). Esse período é outro que merece um livro, sonho que ainda irei realizar.
Recebemos nosso almejado canudo no dia 14 de dezembro de 1972. Noite de Deus. Os olhos da minha mãe brilhavam.
Assim,voltei à minha terra tentando “pagar” a vaga de medicina que a Bolívia tinha conseguido junto ao governo brasileiro. Meu pai, herói de guerra, colocou seu uniforme de militar, seu gorro, as medalhas conquistadas em combate e me acompanhou com a certeza de que iria conseguir o meu primeiro emprego na Regional de Saúde da minha cidade. Qual nada, vi a decepção do meu velho pai, guardo essa imagem até hoje, quando o médico responsável disse que não tinha como, pois não haveria vaga. Demos a volta, eu mais triste com a reação de tristeza do meu pai do que decepcionado com a acolhida. Sabíamos que pediatras não haviana região. Nos últimos dois anos da faculdade já me dedicava muito mais à pediatria.
Já estava voltando para Curitiba, quando o Dr. Fernando Azevedo Correa, diretor do Hospitalde Clínicas,disse “não, você não vai embora, precisamos de pediatra, fique conosco, farei tudo por seu contrato, depois você conclui sua residência, eu lhe prometo”.
Em 1976, falei com Coronel Paulo Weiss de Carvalho, Presidente Nacional do Funrural, enquanto conseguia outro colega para meu lugar com a promessa de que em 1976, terminasse de fazer minha especialidade. Ele cumpriu e fui a Belém, no Pará e fiquei de 1976 a1977.
O Dr. Fernando, que em 1974 se tornou meu compadre, com quem dividi grandes momentos no hospital, faleceu num trágico acidente, junto com sua querida família. Um baque.
Eu passei a fazer tudo no hospital, até a operar devido a momentos de emergência e extrema necessidade, treinando antes, por um mês, anestesia no HC da UFPR.
Estive de 1973 a 1998 no Acre, por último em Rio Branco onde passei por todos os cargos tanto do Inamps como na Secretaria Estadual de Saúde; fui Superintendente do Inamps Acre Rondônia; Secretário de Saúde em 3 ocasiões. Trabalhei como Pediatra em todos os hospitais de Rio Branco; muitos anos no Pronto Socorro, internava no Hospital Infantil Iolanda Costa e Silva, no Hospital Santa Juliana e na Santa Casa de Misericórdia.
Amei aquela terra, me dediquei de corpo e alma e acabei sendo eleito deputado estadual em duas legislaturas. Mas a hora de voltar estava chegando, perdi meus pais, tomei a decisão de voltar a Curitiba
Casei-me com a mesma namorada da festa de formatura, Claudete que passou a assinar Claudete BarchikSalvatierra Barroso, ela de Curitiba. Passei a admirar e amá-la mais do que tudo, pois abandonou o conforto de uma cidade como Curitiba, para me acompanhar ao longínquo Acre, onde ficamos por25 anos. Deixamos muitos amigos. Consolidou nosso amor, a cumplicidade de alegrias e tristezas que dividimos juntos, no dia 20 de fevereiro fizemos 47 anos de feliz união. Obrigado, amor da minha vida!
Lá, nasceram meus filhos, meus tesouros: Faye BarchikSalvatierra Barroso, Médica Oftalmologista, fez o seu curso de especialização com Prof. Carlos Moreira. Faye casou com Danilo Milicosky e me deram uma neta, a Amanda; Michel Salvatierra Barroso, formado na PUC-PR também médico Clinico Geral e Endocrinologista, ele casou com KerlyProdócimo e me dão um segundo neto Davi; Johan BarchikSalvatierra, Ortodontista formado em Ponta Grossa,trabalha em São Paulo e Carlos Alberto Barchik, que fez curso em eventos no Centro Europeu. São o sustentáculo da minha vida. Costumo dizer que hoje ao me convidar já pagam meu jantar.
Em 1998, o retorno, achei que lá já tinha cumprido minha missão. Cheguei em Curitiba para ficar e trabalhar por esta terra que amei desde o primeiro dia. Fui acolhido por meus colegas, que me enturmaram novamente. Me apresentaram em alguns hospitais. Trabalhei nas Unidades de Saúde Santa Ephigenia e Campina do Siqueira, excelente experiencia. Fui agraciado pela Câmara de Vereadores de Curitiba; fui fazendo várias especialidades a fim de aprimorar meus conhecimentos de Pediatria, Fiz Adolescência na PUCcoma professora Darcy Viera Bonetto; depois Genética Clínicana PUC com a equipe do Professor Salmo Raskin; Gastroenterologia pediátrica; Nutrição Infantil e Hepatologia Infantil na Universidade Positivo de Curitiba, nos dois últimos anos terminei, também, Nutrição Infantil na Universidade de Boston.
A correria de colegas de turma Celso Reis, Alberto Szniter, junto ao outro colega Giovanni Loddo me levaram ao Hospital de Clínicas, da UFPR, meu sonho. Trabalhei no Ambulatório de Pediatria, no Ambulatório da Síndrome de Down. Fui indicado ao colegiado de administração onde permaneci 3 anos, responsáveis pela compra de insumos einstrumentos médicos,representando os médicos do Hospital de Clínicas.
Para mim, foi um presente dos meus colegas. Por ser um Hospital Escola, acho que mais aprendi do que ensinei. Gostaria de ter uma maneira de citar o nome de cada um, foram muitos, não o farei para que esta já desgastada memória não cometa injustiças, sei que os considero irmãos. Há pessoas que nem parentes são, mas já são família. Um cuida do outro e de seus descendentes, somos grandes amigos, fazemos encontros amiúde e nossos encontros da turma são injeção de energia para todos nós. O tempo nos une cada vez mais. Nosso lema é “Como nos queremos muito, devemos nos encontrar cada vez mais”
Ainda, no Acre fui junto com outros pediatras,fundador da Sociedade Acreana de Pediatria (SAP); Aqui, no Paraná desde o ano 2000 faço parte da Sociedade Paranaense de Pediatria (SPP), ocupando diversos cargos e tentando sempreo fazer com responsabilidade e dedicação
Atualmente sou Presidente do Departamento de Amamentação e Puericultura da Sociedade Paranaense de Pediatria e Membro ativotitular do Departamento Nacional de Puericultura e Amamentação, da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).
No meu retorno a Curitiba, os colegas que me receberam de forma entusiasta, me deram a calma necessária para enfrentar este novo desafio. Me senti em casa. Pois bem, disse ao Prof. Gilberto Sprote Mira, que foi meu orientador na faculdade, que era possível que fosse ao interior tal maneira que ele me ensinava o métier da pediatria. Saudades do meu padrinho.
Pois bem, ele me levou a Unimed, me apresentando como um médico experiente e que estava voltando a terra. Assim, voltei à Unimed onde permaneço há 20 anos ainda trabalhando no meu consultório privado.
Assim 48 anos de formados, somos mais unidos do que nunca, a impressão que temos é que agora cada um cuida do outro porque o ama. Estou no meio de irmãos e me sinto com o dever cumprido.

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