Silvio Machado (2021) Medicina – Curitiba – Paraná

Nasci em Curitiba em 1954.  Minha família,  descendentes de italianos, portugueses e alemães,  oriunda da cidade de São Paulo,  veio à Curitiba para um  período     de 2 a 3 anos e nunca mais deixou a cidade

Meus avós, imigrantes pobres que para este país vieram em busca  de uma vida melhor, aqui chegaram no início do século passado e se estabeleceram no interior de São Paulo e Santa Catarina . Pessoas  humildes que,  como a maioria dos imigrantes , vieram fugidos da guerra e da fome que assolava a Europa.  Minha  avó materna , Maria D’Amico  costumava dizer que fugia também do vulcão Etna, cujas lavas e os tremores de terra chegavam até sua cidade natal, Randazzo na Sicília.  Dos meus avós paternos pouco sei, exceto que meu avô português Luís Machado,  vindo de Lisboa morreu cedo , aos vinte e três anos.  Minha avô Emma Laura Fischer, governanta de famílias alemãs abastadas de São Paulo criou meu pai com muitas dificuldades . O curioso é que a língua alemã e italiana foi completamente esquecida, não pelas imposições do governo  durante a guerra , mas por iniciativa deles. Diziam que seus filhos eram brasileiros e a língua que deveriam falar era o português,  e falavam quase sem  sotaque algum pouco tempo após a chegada ao Brasil.

Diamantino e Angelina Machado, meus pais, tal como a maioria dos descendentes de imigrantes pobres , desde muito cedo começaram a trabalhar e pouco a pouco , com muitas dificuldades prosperaram . Meu pai trabalhando no comércio e minha mãe como costureira.  Cresci aqui ,  em uma Curitiba pequena, tranquila com seus trezentos  e poucos mil habitantes que gradualmente a vi se transformar na metrópole que é hoje. Minha mãe se orgulhava de ter sido a primeira dona de casa a possuir um fogão a gás , verdadeiro luxo na Curitiba do início dos anos 50 .  Morei  próximo ao Hospital Evangélico ,  na rua Augusto Stellfeld  então uma rua de paralelepípedos e a partir da rua Angelo Sampaio,  totalmente em  macadame.

No Recanto Infantil, uma pequena escola  na rua Paula Gomes, comecei meus primeiros estudos.  A Tia Zoé , minha professora no maternal  nos fazia puxar uma soneca no meio da tarde, ressalte-se que havia mais algazarra do que sono.  A seguir , em 1961, entrei no Colégio Santa Maria onde  permaneci até 1972 , cursando o primário, ginásio e científico.  Esses anos ,  hoje permeiam a minha mente com um misto de saudades e também de alguma tristeza,   um tempo muito feliz que vivi  ao lado de pessoas com quem,  até os dias de hoje, mantenho uma  grande amizade .  Triste , porque  nos anos 60 perdi o meu pai, Diamantino Machado. Minha mãe, Angelina Ruggeri Machado,  até então uma pacata dona de casa passou a ser o esteio da família , lutando com dificuldades financeiras, mas sempre altiva e otimista , como uma boa descendente de italianos.  Nesse período me tornei um escoteiro do grupo de Escoteiros Jorge Frassati na Igreja do Senhor Bom Jesus na praça Rui Barbosa . Esses foram anos maravilhosos para um menino de 12 anos , onde uma Curitiba pequena e pacata  permitia acampamentos, viagens e   jornadas que nos davam uma sensação indescritível de liberdade e principalmente longe  da vigilância familiar. Esses acampamentos eram esperados com muita ansiedade e expectativa . Não havia naquela época,  as facilidades que existem hoje para essas atividades,  eram barracas de lona pesada e  cheias de buracos que,  quando chovia nos molhávamos mais dentro das barracas do que fora.

O meu  Curso de Medicina da Universidade Federal do Paraná (UFPR) iniciou em 1973, aqueles foram anos de muito estudo como aluno da  UFPR  e interno  do Serviço de Neurocirurgia da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba .  Nesse período três pessoas se tornaram meus mentores e a quem devo minha formação como médico e ser humano.  Prof. Dr. Renato de Muggiati , chefe do Serviço de Neurocirurgia da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba  e professor da Disciplina de Neurologia e Neurocirurgia da Universidade Católica do Paraná.  Prof. Dr. Sérgio Machado, professor assistente da mesma disciplina  , meu irmão  mais velho , que se tornou  mais um pai do que um irmão , além de me orientar nos meus primeiros passos como médico.  Prof. Dr. Francisco Miguel Roberto Moraes Silva , diretor da Faculdade de Medicina da UFPR, meu padrinho  médico, professor titular de Medicina Legal , que se tornou além de mentor,   um  grande amigo.  Como diretor do Curso de Medicina da UFPR  escreveu inúmeras cartas de recomendação para minha ida para a Inglaterra,  eram tantas as exigências que algum tempo depois passaram a ser   escritas por mim e assinadas pelo Dr. Francisco, que rapidamente as lias, mas naturalmente não prestava atenção.   Tanto  eram os autoelogios que fizeram  o Dr. Francisco dar boas risadas anos depois quando lhe confessei os delitos.

Em 1979 iniciei a minha residência médica em Neurocirurgia na cidade de  Birmingham na Inglaterra, no The Midland Centre for Neurosurgery and Neurology,  sob a orientação do Prof. Edward Hitchcok, onde além de aprender os fundamentos da minha especialidade médica , convivi com um povo de cultura e tradições milenares que muito influenciaram  em muito a minha vida.

Foi no ano de 1986, retornando da Inglaterra , que  me estabeleci definitivamente  em Curitiba , trabalhando nos Hospitais  da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba, Cajuru e Infantil Pequeno Príncipe. Atualmente trabalho nos Hospital do Rocio, em Campo Largo, e na Santa Casa de Curitiba .  Minha esposa , Maristela Bueno Lopes, deu-me duas filhas, Angela e Letícia. Além delas,  meus filhos Marcello, Vitor e Luciana, frutos de casamentos anteriores,  já adultos me dão alegria e orgulho pelo que hoje são.

Comentarios 1

  1. Carlos Mercer

    Fui vizinho dos pais do Dr. Sérgio no Juvevê , mais precisamente na Rua Rocha Pombo. P aí dele era gerente da Porelli. Moravam defronte à fábrica de móveis Prevedello. Numa noite do Ano Novo dos anos com penta pegou fogo nessa fábrica. Incêndio de inormes proporções. As persianas da casa deles ficou muito danificado. Minha mãe que era amiga tinha ficado com chave para zelar. Foi um tremendo susto. Estava na segunda infância. O Sérgio Machado tornou-se neurocirurgião, mas não acompanhei a carreira dele por trabalhar em outro hospital.

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