Sergio Brenner (2020) Medicina – Ponta Grossa – Paraná.

Nasci em casa, na rua do Rosário, em Ponta Grossa, no dia 20 de dezembro de 1935, filho de Agostinho Moritz Brenner e de Letícia Camargo Brenner. Meu avô paterno, Anton Alois Brenner imigrou de Innsbruck, na Áustria e minha avó Maria Karpstein veio da Silésia, região que pertencia à Alemanha e hoje à Polônia. A família do Antônio Fortunato de Camargo, meu avô materno era procedente de Itu, São Paulo, e como ele dizia, eram bugres e minha avó Julieta Bianco era descendente de italianos, da Calábria.
Meu pai era farmacêutico e médico. Homem austero, empreendedor, honesto, com uma visão de vida e negócios excepcional. Minha mãe dócil, cordata e, assim, ambos proporcionaram um ambiente domiciliar feliz, de paz e muito amor.
Tenho um irmão mais velho, Claudio, engenheiro, casado com Rosina Rocha Loures e duas irmãs mais novas, Maria Ivonne, viúva de Ronalt Milton Caxambu Rose e Regina Maria, casada com Joaquim de Mattos Barreto Filho.
Aos 2 anos de idade fui para o Colégio Sant’ Ana de Ponta Grossa e com 6 anos passei a estudar no Liceu dos Campos, a famosa escola da Dona Judite.
Como a pretensão de meu pai era de ir morar em São Paulo, o meu irmão foi matriculado no Colégio Marista Arquidiocesano e, assim, ao finalizar o curso primário, eu teria o mesmo destino. Para admissão neste colégio era necessário submeter-se a um exame de seleção. Havia dúvidas quanto a minha aprovação, o que me fez ter aulas particulares com a vice-diretora da escola, Profa. Leontina Bonatto Contin.
Ir para São Paulo, com meu pai, ficar hospedado em Hotel e apreciar os maravilhosos letreiros luminosos da avenida São João me causaram grande impacto. Fiz o exame de admissão e escutei uma conversa que o diretor do Colégio teve com meu pai: “vamos matriculá-lo no ginásio e caso ele tenha dificuldades repetirá o ano ou voltará para o primário”. Felizmente fui bem, tirei o 5º lugar no primeiro boletim e posteriormente sempre fiquei nos primeiros lugares da turma.
O colégio era muito bom, ficava na Vila Mariana, rua Domingos de Morais 2565. Era um sistema de internato com permissão para sair apenas aos domingos de manhã e voltar à tarde. Neste dia, tio Lourival, irmão de minha mãe, nos recebia em sua casa.
No último ano do científico (hoje ensino médio) como era de costume frequentar concomitantemente o cursinho para o vestibular, era facultado ser aluno externo, com meio período de aulas. Passei a morar então, na pensão da D. Aurea, rua Abílio Soares 405, no bairro Paraíso. No cursinho, por ocasião de uma prova geral no meio do ano fui classificado em primeiro lugar e recebi como prêmio o livro: As bases fisiológicas da prática médica de Best e Taylor.
O vestibular consistia em uma prova escrita e outra oral. Para ser classificado para a prova oral era necessária a nota mínima de 3 na prova escrita. Foi a nota que tirei na prova de português ao discorrer sobre o tema: “A humanidade e o espírito de colaboração”. Felizmente minhas notas nas provas orais foram boas e fui aprovado em 11º lugar.
O curso de Medicina na USP foi fantástico. Mais fácil que o ginásio ou o científico, provavelmente por ser mais interessante. Professores notáveis ministravam magníficas aulas, como Luiz Venere Decourt, Carlos da Silva Lacaz, Luiz Carlos Junqueira, Edmundo Vasconcelos, Palmiro Rocha, Anísio Toledo, Fabio S. Goffi, Renato Locchi, José Fernandes Pontes, Agostinho Betarello, Edgar Puech Leão, entre outros. Tive oportunidade de ter aulas com Professores Decanos, próximo de suas aposentadorias, que transmitiam suas amplas experiências, como Alípio Corrêa Netto, cirurgião chefe das forças armadas na 2ª Guerra Mundial, Benedito Montenegro, uma das maiores experiências mundial em gastrectomia, Ulhôa Cintra, Aguiar Pupo, Samuel Pessoa, Ludgero Cunha Mota, Daher Elias Cutait, Oscar Simonsen, etc.
Continuei morando na mesma pensão, almoçava no CAOC (Centro Acadêmico Osvaldo Cruz) da Faculdade. No 3º ano, participei de trabalhos experimentais em cirurgia das vias biliares no Hospital do Jaçanã a 32 km da Faculdade. Auxiliei na tese de Livre Docência do Dr. Rubens Monteiro de Arruda. No 5º ano, como acadêmico, de março a dezembro de 1958, fazia plantões de obstetrícia no Hospital N.S. da Conceição, com oportunidade de auxiliar cirurgias e acompanhar os partos.
Minha turma foi a primeira no Brasil a ter o internato no 6º ano obrigatório. Foi ótimo. Permanecia no hospital o dia inteiro e auxiliava quem precisasse. Recebi o Prêmio “Plinio Caiado de Castro” a mais alta classificação do 6 ano, pelo qual recebi um diploma e cheque de Cr$500,00 assinado pelo Secretário da Faculdade, Dr. Dante Nese, que ainda conservo.
No concurso para residência fui classificado para o Departamento de Cirurgia, como era meu desejo. Havia estágios em ortopedia, anestesia, urologia, cirurgia cardíaca, aparelho digestivo, plástica, pronto socorro. Convivi com os mais tradicionais e experientes cirurgiões brasileiros em suas várias especialidades.
Tive a oportunidade de conhecer o Dr. Walfrido Meirelles Leal da UFPR por estar fazendo estágio no HC da USP. Falei da minha vontade em voltar para Curitiba e ele, sempre muito entusiasmado, me aconselhou a falar com o Prof. João Vieira de Alencar da 2ª Clínica Cirúrgica. Comecei a trabalhar no HC da UFPR e logo na sua inauguração, com o Hospital ainda sem doentes, fui responsável pelo primeiro plantão de cirurgia. Logo a seguir o Prof. Milton de Macedo Munhoz me nomeou como médico do Hospital. O serviço do Prof. Alencar foi transferido da Santa Casa para o HC. Já pertenciam ao serviço o Dr. Iseu Affonso da Costa na cirurgia cardíaca, Drs. Abdon P. Nascimento, Michel Buffara, Walfrido M. Leal, José Maria Zugueib na cirurgia geral, e foram admitidos os Drs. José Carlos Ross na vascular, Renato De Mugiatti na neurocirurgia e Almyr E.C.Cortes na torácica. Posteriormente foram agregados outros médicos, entre eles, os Drs. João Batista Marchesini, Fernando Jorge de Souza e Henrique Stalhke.
Passei a dar plantões presenciais nas segundas feiras e o fiz por 5 anos, de 1962 a 1967 sob a chefia do Dr. Almyr Cortes.
Com a descontinuidade dos trabalhos do Dr. Zugueib no HC, que foi para São Paulo, abriu mais espaço na Proctologia, o que para mim foi muito bom devido a minha formação e minha carreira médica.
O HC foi fundamental na minha formação, pois atendíamos doentes sem convênios rotulados como indigentes e doentes provenientes do interior, trabalhadores rurais, através do Funrural. Com a precariedade da investigação clínica da época e dificuldade de tratamento médico a patologia era mais pesada, com doentes mais graves, diagnósticos mais tardios, e as complicações e operações eram mais frequentes e graves.
Em 1966, fui aprovado no exame ECFMG: Educacional Council for Foreign Medical Graduates com nota 8,2.
Em 1967 e 1968, tive oportunidade de ser admitido no programa de “Research Fellow in Surgery” no 7º Serviço cirúrgico da Harvard Medical School no Boston City Hospital sob a chefia do Dr. William McDermott Jr.Meus trabalhos de pesquisa foram sobre Secreção Gástrica orientados pelo Dr. Melvin P. Osborne. O estágio foi muito proveitoso porque já tinha uma boa experiência cirúrgica e o serviço dispunha de profissionais do mais alto gabarito, como Drs. George Clowes pesquisador em pulmão, Jacob Fine em choque, Antony Mônaco em imunologia, linfócitos T, Jack Norman em cirurgia cardíaca, Judah Folkman em angiogênese tumoral, recebedor de premiação nacional. Frequentava as reuniões do serviço às segundas e sábados. Procurei observar cirurgiões renomados de Boston, como Dr. Cornelius Sidgwitt, Neil Swinton, Kenneth Waren, assim como reuniões do Dr. Francis Moore no Peter Bent Brigham Hospital.
A vida nos Estados Unidos foi muito proveitosa. Muitas situações se tornaram novidades. As diferenças de conhecimento entre Brasil e USA eram muito maiores das que ocorrem hoje. Dificuldades foram superadas, algumas mais traumáticas que não serão esquecidas, como a neve e o frio, que numa noite chegou a menos 25 graus.Do ponto de vista familiar, coitada de minha esposa Marina, que teve sob seus cuidados o encargo de 3 crianças, de 3 anos e meio, 2 anos e outra de 6 meses, mas cujo desempenho foi excepcional e nos proporcionou uma experiência de vida sem precedentes. Devo agradecer o apoio e a amizade da família do Pe. Raymond McCarthy (Pe. Tomé), missionário por 25 anos no Brasil, que nos acolheram e auxiliaram nos Estados Unidos.
No retorno ao Brasil, continuei minhas atividades no HC.
Em 1974, fui aprovado no Concurso para Livre Docência no Departamento de Cirurgia com a tese:“Retocolectomia abdominoperineal com anastomose retardada no tratamento do mega colón do adulto”.
Em 1979, fui aprovado no Concurso de Provas e Títulos para o cargo de Professor Assistente na Disciplina de Cirurgia do Aparelho Digestivo do Setor de Ciências da Saúde da UFPR.
Em 1990, fui aprovado no Concurso para Professor Titular no Departamento de Cirurgia do Setor de Ciências da Saúde da UFPR, com a tese:“Adenocarcinomas colorretais. Análise dos resultados do tratamento cirúrgico em 608 doentes”.
Exerci as funções de Chefe do Departamento de Cirurgia do Setor de Ciências da Saúde da UFPR por dois períodos, de 1995 a 1999. Fui chefe da Disciplina de Cirurgia do Aparelho Digestivo de 1983 a 1989 e da Disciplina de Cirurgia Geral de 1990 a 1999 e de 1999 a 2005.Chefe do Serviço de Cirurgia Geral do Hospital Evangélico desde 1994.
Desde 1973, ministro aulas de Cirurgia do Aparelho Digestivo na Faculdade Evangélica de Medicina do Paraná, hoje Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná.
Fui responsável pela criação do Pronto Socorro do Hospital Evangélico de Curitiba, com o auxílio do Prof. Dr. Osvaldo Malafaia, e do qual fui seu Diretor até 1989.
Em 1979, fui acadêmico fundador da Academia Paranaense de Medicina ocupando a Cadeira cujo Patrono é o Dr. Francesco Burzio. Exerci as funções de tesoureiro da Academia em vários períodos, de 1995 a 1997, de 2016 a 2019.
Participamos ativamente das lides acadêmicas, orientando 6 teses de mestrado e 4 de doutorado, participando de 2 bancas para concurso de Livre Docência, 12 para doutorado, 9 para mestrado e 2 para Professor Titular. Participei em 170 Congressos, sendo 15 no exterior. Proferi 82 conferências em reuniões científicas, sendo 5 no exterior. Participei em 95 mesas, 170 temas livres e 7 filmes científicos. Publiquei 98 trabalhos científicos, sendo 5 em periódicos estrangeiros e 10 capítulos de livros. Visitei alguns serviços no estrangeiro, em Montpellier (Claude Solassol e Henry Joyeux), em Paris (Roland Parc), na Filadélfia (Frank Brooks) em Pádua (Oreste Terranova) e no Serviço de Emergência do Miami Valley Hospital em Dayton, Ohio.
Fui agraciado com o título honorífico de Professor Emérito da UFPR apresentado pelo Chefe do Departamento de Cirurgia, Prof. Henrique Stalhke e referendado pela plenária do Departamento de Cirurgia e pelo Conselho Universitário.
Com o auxílio financeiro do Banco Bandeirantes e em especial graças aos esforços da sua gerente, Maria Lucia Kesin, planejamos e realizamos a reforma do Centro Cirúrgico do Hospital de Clínicas da UFPR com o aumento de mais 4 salas para cirurgias.
Concretizamos também, com o auxílio do Dr.João Batista Marchesini e do Deputado Hermas Brandão, a reforma do 8º andar do Hospital de Clínicas da UFPR, fazendo com que cada enfermaria dispusesse de um banheiro para os doentes.
Como atividade profissional extra universitária, atendi pacientes do Instituto de Previdência e Assistência de Curitiba (IPMC), do Instituto de Previdência do Estado (IPE) e de vários convênios e planos de saúde.
Agradeço a todos os colaboradores das Disciplinas de Cirurgia do Aparelho Digestivo, Cirurgia Geral do Hospital de Clínicas da UFPR, do Serviço de Cirurgia Geral e do Pronto Socorro do Hospital Evangélico Mackenzie e especialmente aos Profs. Dr. Iseu Affonso da Costa, Dr. Adyr S. Mulinari, Carlos Jacob pelo prestígio que sempre me proporcionaram, e a todos os que me auxiliaram nas cirurgias, Dr. Roberto da Silveira Moraes, Clovis Beraldi, Antônio Carlos Campos, Almyr Cortes, Fernando Jorge de Souza, Patricia Rauen aos quais certamente nunca terei capacidade e oportunidade de retribuir.
Em fins de 1962, com a preocupação de minha mãe que eu já estava ficando solteirão, apareceu uma linda moça de olhos azuis, a Marina, e após 8 meses estava noivo e mais 8 meses casado. Tivemos 3 filhos, Marise, que nasceu em 1964, bióloga, responsável pela implantação do banco de ossos do HC e banco de tecidos e válvulas cardíacas na PUC, casada com Dr. Francisco D. Affonso da Costa, cirurgião cardíaco. Tem 2 filhas, minhas netas, ambas formadas em Medicina. A Ana Claudia atualmente está fazendo o 5º ano de Residência em cirurgia cardíaca no Hospital Mont Sinai de Nova Iorque, e a Ana Beatriz, casada com Ricardo Réa, fazendo o 3º ano de Residência em cardiologia no HC da UFPR. Beatriz, nascida em 1965, advogada e arquiteta, casada com o engenheiro Lincoln D. Gasparin. Tem 2 filhas, minhas netas, ambas engenheiras civis:aGiovanna casada com o Rodrigo Campos, tem 1 filho, meu bisneto, o Antonio de 3 anos, e a Isabela, casada com Luigi Taborda Ribas. Antônio Sérgio de 1967, médico, cirurgião do Aparelho Digestivo, Professor do HC e da Faculdade Evangélica Mackenzie, casado com Fabiane Mulinari Brenner, dermatologista e Professora da UFPR. Tem dois filhos gêmeos, meus netos pequenos, com 7 anos de idade, o Lucas e a Luiza.

Em 1956, fiz o curso de piloto aeronáutico no campo de Marte em São Paulo. Fiz mais este curso, a pedido do meu pai que era representante da fábrica do Cesna para o sul do Brasil. Mas nunca pilotei avião nenhum.
Com o falecimento de meus pais, após 1990, passei a ser responsável por atividade pecuária a qual ainda continuo. Não posso deixar aqui de registrar e agradecer os esforços no desenvolvimento desta atividade, meus cunhados Ronalt e Joaquim, meu irmão Claudio, tio Nory, primos José Luiz, Osvino e funcionários que foram os responsáveis pelo incremento desta atividade.
Ao Luiz Renato Ribas Silva cumprimento e agradeço por me incluir neste seu livro, que me eterniza e me fez rememorar as várias etapas de minha vida, com todas as dificuldades e conquistas.

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