Mariester Malvezzi(2020) Medicina – Potirendaba – São Paulo.

-Mãe, eu vou ser médica! Como uma criança entre 3 e 4 anos poderia dizer isso com tanta ênfase? É o que ainda lembra e conta minha mãe, aos seus quase 99 anos de vida. Mulher dócil, mas guerreira. Tenho pra mim, que se não fosse ela a dobrar meu pai para que eu fosse estudar na cidade grande, eu não teria concretizado meu sonho. E só fui porque meu irmão Nestor já estava estudando Direito por lá. Eu queria ter ido estudar no Rio de Janeiro junto com a minha prima-irmã Gel, mas nada disso. Se quisesse sair de Potirendaba para o mundo, o mundo teria que ser Curitiba. E assim foi. E aqui estou e aqui fiz minha vida desde os meus 18 anos. E aqui agradeço tudo o que esta cidade me proporcionou e ainda proporciona.
Mas vamos começar do começo. Diz que meu pai, Euclides Malvezzi era um verdadeiro conquistador, um homem bonito e galante, mas quem o conquistou mesmo foi a sua prima em primeiro grau, Yolanda Malvezzi, de uma beleza diáfana e clássica. Sinceramente nenhuma das filhas puxou a ela, nem na beleza e nem nas qualidades culinárias e manuais. Quitutes deliciosos e trabalhos manuais maravilhosos de suas mãos de fada foram nossos companheiros até pouco tempo atrás.
– Mãe, a gente podia ter nascido tudo torto, com vários problemas físicos e mentais porque vocês são primos. Quem deixou? Resposta: o padre! O que você queria naquela época?……Espanto!
Se escutássemos um assobio de alguma modinha, podia ver que era meu pai cantarolando. O lado arte que tenho, e que ainda não esgotei, certeza devo a ele. Era cantor, declamador de poesias e leitor assíduo de livros e revistas. Abriu para mim o mundo maravilhoso da leitura do qual não consigo me desgrudar até hoje, graças a Deus. Minha casa é uma biblioteca aberta, tem livro por todo canto, muitos esperando para serem lidos.
Nem a docilidade da minha mãe e nem o lado arte do meu pai, impediram que eles nos dessem correções físicas e morais, e estas últimas levássemos, filhos e netos e bisnetos vida afora, como prova contundente do valor da conduta familiar na nossa formação. Minha mãe estudou o primeiro grau e meu pai fez o curso de contador por correspondência. Por isso sempre tiveram como meta de vida dar estudo aos filhos, o que fizeram com sacrifício e tenacidade. Trabalharam duro para que os quatro filhos chegassem na Universidade.
Nossa família é do interior de São Paulo. Meus pais de Matão foram morar em Potirendaba, norte de São Paulo, (já vou dizendo que é perto de São José do Rio Preto porque pouca gente ouviu falar dela). E lá nascemos: Nestor, o mais velho, advogado trabalhista, casado com Eurides Silva e pais de Marcelo, Marianne, Melina e Marília; cujos netos são Eduardo Henrique, Gabriella, Tiago, Enzo, e as gêmeas Julia e Luiza.

Em 11 de novembro de 1946 nasci eu, Mariester e desta lavra meus pais não tiveram netos. E me perguntam porque não tive filhos e digo que foi por opção de vida, por não me sentir preparada, o que até hoje não me sinto. Em seguida veio Aidée, geógrafa, casada com o médico José Eloy Mendes Tramontin e pais de Alexandre e Ricardo; cujos netos são Fernando, Lorenzo, Sophie e mais uma bebê a caminho. Em seguida veio meio temporona a Beatriz, assistente social, casada com Ademir Pedrazzoli e pais de Anna Caroline e Fernando, ainda sem netos.
Aidée era a mais coquete. Nos deixou cedo demais, assim como Zéloy e Ademir. Sempre fomos e somos família muito unida e deles sentimos imensa falta. Quando contente, Aidée assoviava como meu pai. Temos a tradição das festas familiares e nestes encontros alicerçamos o que minha mãe sempre nos pede: União. União e União.
Não tive filhos, mas como disse uma amiga psicanalista: Mari você nasceu pra ser tia. Você é a tia mais tia que eu conheço! E sou! Amiga e conselheira e pau pra toda obra. E não só tia, mas também tia-avó! Tenho imenso orgulho deles porque são seres super especiais, sem exceção. Amo minha família, e dedico um amor especial à Lila, minha cunhadinha preferida, que é um norte na vida de muita gente, assim como meu irmão também o é.
Não me casei, mas como não sabemos os desígnios desta vida, depois de 32 anos sem nos vermos, em 2002, fui encontrar numa festa na casa do meu irmão um antigo namorado da época de faculdade (ele da Odontologia), Reinaldo BarsottiDonatz, numa trama da minha sobrinha Melina e Lilinha. E assim estamos até hoje, ligados pela música, pelo companheirismo, pelo amor, pela satisfação de compartilharmos as lembranças de uma mesma época. Ele tem sido minha tranquilidade nos tempos de cólera, como diria Gabriel Garcia Marques.Tem ele três filhos e cinco netos, sendo a mais nova, Beatriz, a menina dos olhos.
A curiosidade e a sede do conhecimento sempre foramduas das minhas principais características. Meus tios longevos dizem que ainda muito criança insistia em querer saber o que significavam as letras. Não era comum naquela época, mas tiveram que me colocar na escola em idade bem tenra, antes da idade normal.A vida inteira estudei em escolas públicas, em Potirendaba, no primeiro e segundo graus e o terceiro grau em São José do Rio Preto.Meu pai me acordava às 5 horas da manhã, com o café e lanche prontos. Eu pegava a jardineira eera estrada de terra, quando chovia era atraso na certa, mas não tinha problema, estava felicíssima em fazer o científico. Felicíssima porque ele queria que eu fizesse o normal pra ser professora e ter uma profissão. Mas eu não queria ser professora! Ironia da vida! Tive a maior dificuldade em convencê-lo a me deixar fazer o científico dizendo que as matérias me serviriam para o vestibular de Medicina.

Vim pra Curitiba em janeiro de 1965, ou seja, há 55 anos. Para minha tristeza, não passei no primeiro vestibular, mesmo fazendo o Bardhal, que diziam ser o melhor cursinho na época. Minha amiga de estudos Maria Helena Figueiredo Saad passou e fiquei realmente triste. Tive que voltar a Potirendaba, ficar em Curitiba seria muito gasto. Lembro muito bem que este ano que vivi nesta cidade sedimentou meu apreço por ela, com suas praças, vida cultural e a livraria do sr.José Ghignone perto da Universidade. Por muito tempo, até se mudar para a Comendador Araújo eu a frequentei e conversar com seu José era sempre uma viagem. Dizia que não dava mais para ficar naquele ponto, que a rua XV tinha modificado muito para pior.
No segundo semestre de 1966, pude repetir o cursinho e desde esta época tenho o privilégio da amizade do dr. Lauro Lobo Alcântara. Nossa base era na casa dos pais da amiga Lena, tio José e tia Lurdes, dos quais preservo até hoje a amizade. Nós dois passamos em 1967 na Universidade Federal do Paraná. Aquela emoção foi indescritível e eu estava feliz por duas razões: eu ia fazer Medicina e numa escola federal, e consequentemente ficando em Curitiba, iria ganhar meu mundo. Usar o boné verde da Medicina Federal e aquela gravatinha como calouro era o máximo, sinal de sacrifício compensado, tanto pessoal quanto familiar.
Nós éramos uma turma enorme, a maioria masculina e pouco mais de 20 mulheres. Hoje, o sexo feminino predomina. Apesar de muitos alunos, tivemos uma educação médica primorosa, além de fazermos muitas amizades que perduram até hoje. No Hospital de Clínicas da UFPR tudo era ensino e muitas vezes não sabíamos distinguir quem era professor e quem era médico contratado. Todos ensinavam por amor à profissão e eram orgulhosos por estarem em um hospital escola, assim como nós. Hoje, já não é assim. Infelizmente de uns anos para cá, criou-se no HClínicas uma dicotomia que apenas tem feito com que as pessoas mais antigas e que vivenciaram esta época, queiram se afastar. A referência agora é produção e o ensino e a pesquisa estão em segundo plano. Espero que mude um dia e que trabalhar no HC volte a ser motivo de júbilo.
Durante o curso fiz prova com o professor dr. MiroslauConstante Baranski para entrar no Pronto Socorro do Cajuru, mas não aguentei o regime de plantões e me afastei. Também fiquei como interna no Hospital Nossa Senhora das Graças e lá conheci uma pessoa que me influenciou por toda a vida como professor, como médico e como ser humano, oprofessor dr. Lyzandrode Paula Santos Lima, a quem eu devo muito a minha formação como clínica.
Em 1972, terminava o curso de Medicina e não sabia que rumo tomar quanto a especialidade, apenas que queria ficar trabalhando na Universidade. Foi quando o professor dr. Acyr Rachid, um médico e professor excepcional, convidou alguns de nós para fazer residência em Clínica Médica, porque viria um professor que tinha ficado vários anos nos Estados Unidos e que iria revolucionar o ensino.Esse professor era o dr. Ricardo Pasquini, hematologista,e realmente nossa residência de 2 anos foi super produtiva. Porém, quem me direcionou para a residência de Hematologia no terceiro ano foi a atuação e personalidade do professor dr. Paulo Barbosa da Costa. Eu sempre me espelhei como médica e professora nos mestres dr. Lysandro e dr. Paulo, homens de uma cultura invejável, de um sólido conhecimento médico, que exerciam uma relação médico-paciente que hoje quase não existe e que por isso tinham uma forma de ensinar que ultrapassava todos os livros.

Gostaria que um dia meus alunos me vissem como eu os vejo hoje, mas minha crítica e sinceridade me diz que fiquei bem aquém. Foi nesta época que estreitei a amizade com meu amigo-irmão professor dr. Rodney Frare e Silva, que posteriormente foi chefe da Clínica Médica.
Em 1979, já estava como médica do HC-UFPR quando dr. Ricardo me cobrou a realização do concurso para professora de Propedêutica Médica, porque de novo, (sempre o novo) iriam modificar toda a estrutura da Disciplina. E eu que nunca quis ser professora passei em primeiro lugar. Sinceridade, foi um espanto para mim. A verdade é que peguei gosto! Dizem e eu não tenho certeza, que passei na vaga da professora dra. Helen Anne Butler Muralha e eu tinha o maior orgulho disso. Depois de um bom tempo na Propedêutica, passei para a Disciplina de Hematologia e Oncologia, chefiada pelo dr. Ricardo, que foi um dos médicos que mais auxiliaram a colocar o HC-UFPR e o Paraná na mídia científica mundial. Ele e o professor dr. Eurípedes Ferreira encabeçaram o primeiro transplante de medula óssea da América Latina no HC-UFPR em outubro de 1979, desbravando um caminho que mudou a história da Hematologia do Brasil. São agora em torno de 2800 transplantes com a mais alta tecnologia e inúmeras publicações. Na época, eu não quis me dedicar a esta área permanecendo na hematologia básica e laboratório com dr. Paulo na leitura de lâminas de sangue e medula óssea para os diagnósticos citológicos.

Na minha opinião e de outros, dr. Paulo Barbosa da Costa, foi um dos maiores citologistas do País. Com aquele jeito mineiro de ser ia ensinando a ver células e conversando sobre filmes de faroeste, dos quais era aficionado. Quando se aposentou em 1989, fiquei em seu lugar como chefe do Laboratório de Hematologia. Não me lembro a data, mas logo depois, fui também chefe do Laboratório Central, quando o professor dr. Paulo Franco foi diretor do Hospital. Foram anos de vacas magras e a dificuldade em manter o laboratório em funcionamento adequado era uma batalha diária. Os Hospitais Universitários nunca tiveram uma política de governo decente e contínua para o seu funcionamento e no caso do HC não foi diferente, mesmo sendo o maior hospital do Paraná no atendimento da população mais pobre.

Quero neste depoimento parabenizar o professor dr. Giovanni Loddo, colega de turma, pois foi o melhor diretor geral do HC enquanto lá trabalhei; fez um trabalho impecável que reverbera até hoje.
Em 1991, fui convidada pelos meus amigos dr. Nizan Pereira Almeida e sua esposa dra. Rita Esmanhoto a integrar a equipe de governo do governador Roberto Requião na qualidade de chefe do HEMEPAR-Centro de Hematologia e Hemoterapia do Paraná e tínhamos por missão expandir as unidades de doação de sangue para asgrandes cidades do Paraná, com a implantação dos Hemonúcleos. Foi uma época de grande aprendizado administrativo que eu nunca tinha experimentado na Universidade. Foi também uma época de muito trabalho, porque depois das lides no Hemepar eu voltava para o Laboratório de Hematologia no HC para ficar com os residentes de Hematologia vendo os casos de pacientes. Valeu muito a pena para depois aplicar estes conhecimentos na vida prática.

Em 1993, quando voltei para o Hospital o Laboratório de Imunofenotipagem estava comprando um novo aparelho (citômetro de fluxo), que iria implementar uma nova forma de ver células. E células eram meu chão.A partir daí, me desliguei do atendimento a pacientes e me dediquei inteiramente ao laboratório, começandoaí minha nova formação, na especialidade de Citometria de fluxo, onde estou até hoje.
Como não haviano Brasil onde me aprofundar nesse novo método de diagnóstico hematológico, em 1995,me especializei no Sunnybrook Hospital, ligado à Universidade de Toronto, Canadá, onde permaneci por 7 meses, aos cuidados do dr. Marciano Reis e no StJude´sResearch Center, com dr. Raul Ribeiro. Ainda não contente com meus conhecimentos e sendo uma nova carreira, em 1998,fui estagiar por dois meses no Serviço de Citometria, na Universidade de Salamanca, Espanha, comandado pelo professor dr. Alberto Orfao. Mal sabia eu que ele se tornaria um dos maiores expoentes de citomeria de fluxo, com centenas de artigos a respeito e várias patentes.Dr. Orfao é português casado com Lola, salmantina, e talvez pela facilidade da língua ele tem sido o grande propulsor da Citometria de fluxo no Brasil. Ficar em Salamanca é tudo de bom, é uma cidade maravilhosa e muitas vezes nestes anos lá voltei para reciclar, com minha amiga dra. Silvia Pires Ferreira do Hemosc de Santa Catarina.
Por longos anos fui responsável pelos laboratórios de Hematologia e Citometria de fluxo do HC, além das aulas semanais. Muito trabalho, muito aprendizado e muita satisfação pessoal. Atendíamos todo o Paraná no diagnóstico citométrico das leucemias, linfomas e outras doenças onco-hematológicas. Com muitas dificuldades financeiras no HC e muita demanda, em 2005, dra. Noemi Farah e eu montamos o laboratório Mantis para diagnósticos de alta complexidade, onde fiquei por 3 anos. Foi meu único emprego fora da área pública. Tenho predileção por pacientes do Sistema Único de Saúde-SUS, pois sei desde os bancos da faculdade as dificuldades que os mais desprovidos passam para ter um atendimento digno. E neste sentido, tenho a alma tranquila de quem se dedicou a eles.
Em 2012, após a aposentadoria do dr. Ricardo, fui responsável pelo Serviço de Transplante de Medula Óssea por 3 anos, até dar conta de definir a linha sucessória. Volto então, para o laboratório de Citometria de fluxo, onde fiquei até a minha aposentadoria em novembro passado, não sem antes ver coroado de êxito um grande projeto de mais de um milhão de reais para a pesquisa de doença residual em leucemias, aprovado pelo Pronon-Programa Nacional de Apoio à Atenção Oncológica – do Ministério da Saúde. Com isso, creio,fechei com chave de ouro minha atuação no Hospital de Clínicas, deixando um caminho para a continuidade da área que ajudei a implantar.
Fora do âmbito hospitalar, em 2010, junto com outros citometristas brasileiros, fundamos o Grupo Brasileiro de Citometria de Fluxo, que em abril deste ano de 2020 comemorará 10 anos de atividades, em um Simpósio que fará homenagem ao professor dr. Alberto Orfao, nosso grande incentivador e grande ser humano.
Tenho para mim, que o verdadeiro médico é aquele que consegue enxergar o paciente como um Ser físico, mental e espiritual. A espiritualidade, e aqui não estou falando de religião, deve permear nossa atuação para que possamos realmente auxiliar o paciente. No entanto essa visão ainda é tabu dentro da medicina alopática, apesar de haver alguns respingos de mudança no ensino médico.
Tenho vários hobbies além da leitura. Fotografo há anos, sou amadora e ganhei uma menção honrosa num concurso de “Árvores Floridas” do banco Itaú, com a foto de uma mangueira maravilhosamente florida. Mais recente, no “Talentos da Maturidade” do banco Santander, que infelizmente encerrou este programa, fiquei entre as 25 fotos finalistas. Canto desde que me conheço por gente, música popular brasileira, agora acompanhada pelo violão de sete cordas do meu companheiro. Amo desenhar. E sou pretensiosamente uma sofrível escritora de pequenos textos.
Não sei quantos alunos e residentes formei, não sei quantos pacientes atendi, foram 43 anos de atividades ininterruptas, eu mesma me espanto ao escrever estas linhas. Não tinha pensado nisso. Não sei que legado deixei. Só sei que me sinto tranquila, melhor dizendo, em paz com a minha alma.
Em realidade, ainda não me desliguei intrinsicamente da Medicina. Sempre disse aos meus alunos que o médico do futuro vai ser aquele que vai saber integrar todas as medicinas clássicas: a ocidental alopatia, a medicina tradicional chinesa, a medicina ayurvédica indiana, e a homeopatia. Agora vou estudar uma das últimas três por diletantismo. E vou participar de um programa de extensão para gerenciamento de estresse com alunos de medicina da Federal através da yoga e meditação, às quais me dedico há 20 anos. E vou me dedicar às artes: fotografia, canto e desenho.
Além disso, eu vou aprender a nada fazer, e este será um belíssimo aprendizado!

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