Julio Raphael Gomel (2016) Medicina – Curitiba – Paraná

Nasci em Curitiba em 1931, no Alto da Glória  na Avenida João Gualberto, ali na fronteira. Em cima da fronteira que passa na Fontana. Atualmente é um posto de gasolina, onde ficavam as duas casas que eram da propriedade de meu pai e meu tio, Davi Gomel e Benjamin Gomel.

Eu nasci em casa porque, naquela ocasião, não existia trabalho de parto em hospital, apenas por parteira e lá ocorreu a minha vida.

Realizei o meu curso primário na escola Americana. Naquela época, os cursos mais eficientes e respeitados eram os do ensino público. Terminado horário de estudos, nós éramos apanhados pelos nossos pais. A minha mãe chamava-se Linda Solve Ventura Gomel e era ela quem me buscava aos fins das aulas. O meu pai não tinha oportunidade de fazer isso, porque trabalhava. Era proprietário de uma loja de armarinhos.

Eu estudava na escola Americana, que não era do ensino público, mas era  um ensino de boa qualidade técnica. Depois passei para o Colégio Estadual do Paraná e dali passei direto ao curso de medicina na Faculdade de Medicina do Paraná. Assim que terminei o meu segundo grau, ingressei na faculdade de medicina.  E aqui eu estudei em todas as faculdades em só local, só na unidade da Praça Santos Andrade onde todos os cursos profissionais estavam lá, como: Farmácia, Odontologia, Medicina e Direito. Durante o curso se deram algumas coisas muito interessantes, pois nós tínhamos muito envolvimento com os outros colegas de outras faculdades.

No curso, aprendermos coisas genéricas que ajudavam no exercício da nossa atividade de médico. Aconteceram muitas coisas importantes nessa hora, pois fizemos um curso muito bom com professores maravilhosos.

No terceiro ano do curso em 1954, me candidatei à residência no Hospital dos Servidores no Estado do Rio de Janeiro que era o hospital de maior qualidade no Brasil. Havia uma biblioteca completa. Todos os que desejavam almejar algum cargo de potência no ensino, passavam a estudar dentro do Hospital. Fui admitido no Hospital e passei durante três anos convivendo com pessoal que vivia lá, estudando e trabalhando, para, de certa forma, se tornarem os melhores médicos.

Os estudos eram utilizados em todas as especialidades, um estilo de muita qualidade e muito importante. Eu vi cenas interessantes. Eu era residente do terceiro ano e era o único urologista no hospital. O vice-presidente da República, também diretor do Ministério do Trabalho, apareceu no Hospital dos Servidores passando mal. Estava doente, com ele veio uma caravana de seguidores e auxiliares. Esse cidadão era João Goulart. Ele apareceu com uma cólica renal e fiz o diagnóstico. Telefonei para o meu chefe de serviço, que era o Professor Guerreiro de Faria.

“Professor, estou aqui com o vice-presidente João Goulart e ele está com uma cólica renal estável, precisa passar um cateter e precisamos liberar isso.”

“Deixa morrer esse filho da puta!” Ele disse.

Eu não acreditei.

Eu disse “Professor!”

O professor era da UDN e o João do PTB. O Guerreiro, falou.

“Pelo amor de Deus, passe você!”.

Eu passava vinte cateteres desse mesmo tipo por dia, mas eu não me senti em condições de assumir essa responsabilidade com um vice-presidente da República. Então eu insisti e ele veio. Passou o cateter nele e foi embora.

Eu fiquei cuidando do João Goulart que era uma pessoa sensacional e eu acabei ficando famoso. Eu me surpreendi com senhor João Goulart, quando ele me perguntou como estava a minha situação.

“Bom, veja bem, eu estou no terceiro ano, termino a faculdade em abril de 1957, no fim do ano. Eu vou para Curitiba e pretendo abrir o meu consultório e com a minha especialidade consagrada, vou passar a exercer a minha função.”

“Mas não seria bom um emprego? ”. Questionou ele novamente.

“Sim, um emprego sim, mas eu aguardo uma oportunidade de me submeter a um exame para isso”.

Terminei. Surpreendi-me com seus questionamentos e ele saiu agradecendo.

Depois de alguns dias, recebi um telegrama que eu tenho até hoje daqueles que vêm com tiras em cima que dizia:

“Prezado Doutor Júlio Gomel, tenho a honra de comunica-lo que, atendendo o meu pedido, o Presidente Juscelino Kubitschek nomeou você médico do Serviço de Assistência Médica Domiciliar e de Urgência (S.A.M.D.U)”.

Era presidido por um médico gaúcho. Eu fui até ele e informei que fiquei muito feliz com a nomeação, mas “eu não tenho a menor possibilidade de trabalhar porque eu passo o dia inteiro no hospital, não tenho momento de folga”. Ele indicou que eu escolhesse um posto. Então me surgiu uma possibilidade de eu consagrar os domingos para o atendimento do S.A.M.D.U. Escolhi o curso de Caxias, na baixada fluminense.

Primeiro eu me reciclei, porque eu tinha feito um preparo para me especializar em Urologia e com o estágio obrigatório de clínica médica e de clínica cirúrgica, fui obrigado a fazer o atendimento emergencial. Isso foi muito útil para a minha carreira, pois não foi fácil, sofrível e difícil trabalhar, mas eu consegui superar essa dificuldade e aproveitei muito bem isso na minha vida profissional.

Eu gostaria de falar um pouquinho sobre a nossa Curitiba, em relação a minha participação. Nós temos amigos que dispensam cuidados especiais, principalmente com o Lar Bom Caminho. Já faz mais ou menos 30 anos que eu participo desse grupo, que existe há mais ou menos 40 anos. Esse grupo de médicos atende pessoas carentes que não tem possibilidade de pagar qualquer recurso e essa ação me entusiasmou e eu passei aí boa parte do meu tempo nessa missão.

O grupo Lar Bom Caminho atendia jovens, cujas famílias não tinham condições de manter. Não eram marginais. Os pais desses jovens trabalhavam e as mães trabalhavam. Eram crianças criadas sem nenhuma orientação. Nós queríamos dar algumas orientações. E nós passamos a atender essas crianças, mas só do sexo masculino. E quando eu cheguei, tínhamos um tenente na direção disso, que embora bem-intencionado, não era competente. Eles cuidavam dos meninos até os 18 anos, alimentando e ajudando, mas o estudo, a escolaridade era insignificante. O que esses meninos seriam na vida depois? E quando eu entrei fiquei até desiludido. Esses meninos seriam marginalizados lá fora. Eles vão sair e eles não terão como competir. Não terão como conseguir coisa nenhuma.

Eu estava lá observando e o tenente achava que seria uma beleza, com os jovens servindo depois o exército como cabos das Forças Armadas. Era essa a finalidade, o objetivo dele – sem maldade – pois era isso que ele conhecia.  Eu não trabalhava para resolver despesas, pois tínhamos amigos e muitos para resolver isso. Nós tínhamos recursos, facilidade para conseguir recursos, com os amigos que dificilmente negavam coisas para nós, porque tinham confiança no que a gente estava fazendo. Mas eu achei que nós precisaríamos de uma mulher para nos orientar como dirigir uma casa.

Trabalhava comigo Luiz Carlos Pisani, o Lucas, e quando eu disse isso, ele respondeu: “Eu vou pedir para minha mulher! ”.

A mulher dele era uma artista plástica excepcional a Elizabeth Van Der Host Pisani e ela veio e em uma semana disse: “Está tudo errado. Vocês não têm condições de fazer isso. Vocês podem aproveitar essa sua boa vontade, mas não têm condições para atender crianças!”.

E eu digo sempre: o Lar Bom Caminho é o de antes de Elizabeth e o depois dela. Foi quem realmente nos orientou. Ela ficou lá conosco e foi – não preciso mentir –  quem nos orientou de verdade.

Da lição, nas primeiras orientações, fizemos uma alteração. Tivemos que dispensar o tenente. Todos. Fizemos primeiro uma atividade funcional começando  a pedir auxílio para pessoas que pudessem atender crianças. Conseguimos oferecer cursos também, para fazer as reformas estruturais e assim começou realmente o Lar Bom Caminho.

Trinta e poucos anos depois de atender tantas crianças que precisam de cuidados especiais, são crianças de parto que nasceram com sífilis, de usuário de drogas que nascem com limitações e exigem cuidados diferentes e também cuidados alimentares, precisávamos agir. Nós temos 23 funcionárias e uma estrutura excepcional para criação dessas crianças. Mas realizamos tudo para deixar todos felizes, pois estamos realizando tudo com carinho e em nada em troca.

Em busca de recursos, tivemos a ideia de lançar há 18 anos o “Jantar das Estrelas”, com o apoio total do Clube Curitibano, do pessoal da “Toca” e de celebridades, entre prefeito, deputado, jornalista, como cozinheiros voluntários. O início foi discreto, com 9 cozinheiros, depois um sucesso, com dezessete jantares consecutivos, que renderam bons lucros, isto é, recursos ao Lar Bom Caminho. Hoje, com a economia em baixa, o jantar foi cancelado, pois estava dando prejuízo, pois não é fácil com um convite a R$ 90,00 e uma família, de 5 pessoas, desembolsava uma fortuna e acabava desistindo de ir.

Confesso que não tenho inimigos, entre as pessoas que conheço. Sou atleticano doente, nem por isso deixei de assistir jogos ao lado de coxas, como o Evangelino da Costa Neves, o China, do Candinho Gomes Chagas, um jornalista arrojado – “Paraná em Páginas” – que contribuiu muito com o Lar Bom Caminho, através de aplicações bancárias cujo resultado dos investimentos iam para a nossa entidade. Depois da morte do Candinho, recebemos mais de um milhão de reais dele, que nos deixou tranquilos financeiramente para a continua existência do “Lar”.

Falando de minha profissão, eu acho que a medicina é inseparável do social. O médico não pode de forma alguma, se separar da atividade social. Ele tem obrigação de atender pessoas que não tem recursos, que necessitam de atendimento. Ele não pode se negar nessa missão. Eu sempre tive isso com uma coisa natural porque quando eu atendia no Rio de Janeiro tive contato com isso, com o que é necessário. O povo precisa de atendimento é a nossa função ajudar.

Eu casei tarde, aos 34 anos, em 1965, com uma gaúcha muito bonita, a Edi, que era socióloga. Tivemos dois filhos o Flávio, também urologista como eu, ora meu substituto no consultório e a Denise, arquiteta. Tenho cinco netos, dois do Flávio, o Bruno e o Bernardo – estudantes de Medicina – e três da Denise, o David, Vitor e Helena.

Nasci em Curitiba em 1931, no Alto da Glória  na Avenida João Gualberto, ali na fronteira. Em cima da fronteira que passa na Fontana. Atualmente é um posto de gasolina, onde ficavam as duas casas que eram da propriedade de meu pai e meu tio, Davi Gomel e Benjamin Gomel.

Eu nasci em casa porque, naquela ocasião, não existia trabalho de parto em hospital, apenas por parteira e lá ocorreu a minha vida.

Realizei o meu curso primário na escola Americana. Naquela época, os cursos mais eficientes e respeitados eram os do ensino público. Terminado horário de estudos, nós éramos apanhados pelos nossos pais. A minha mãe chamava-se Linda Solve Ventura Gomel e era ela quem me buscava aos fins das aulas. O meu pai não tinha oportunidade de fazer isso, porque trabalhava. Era proprietário de uma loja de armarinhos.

Eu estudava na escola Americana, que não era do ensino público, mas era  um ensino de boa qualidade técnica. Depois passei para o Colégio Estadual do Paraná e dali passei direto ao curso de medicina na Faculdade de Medicina do Paraná. Assim que terminei o meu segundo grau, ingressei na faculdade de medicina.  E aqui eu estudei em todas as faculdades em só local, só na unidade da Praça Santos Andrade onde todos os cursos profissionais estavam lá, como: Farmácia, Odontologia, Medicina e Direito. Durante o curso se deram algumas coisas muito interessantes, pois nós tínhamos muito envolvimento com os outros colegas de outras faculdades.

No curso, aprendermos coisas genéricas que ajudavam no exercício da nossa atividade de médico. Aconteceram muitas coisas importantes nessa hora, pois fizemos um curso muito bom com professores maravilhosos.

No terceiro ano do curso em 1954, me candidatei à residência no Hospital dos Servidores no Estado do Rio de Janeiro que era o hospital de maior qualidade no Brasil. Havia uma biblioteca completa. Todos os que desejavam almejar algum cargo de potência no ensino, passavam a estudar dentro do Hospital. Fui admitido no Hospital e passei durante três anos convivendo com pessoal que vivia lá, estudando e trabalhando, para, de certa forma, se tornarem os melhores médicos.

Os estudos eram utilizados em todas as especialidades, um estilo de muita qualidade e muito importante. Eu vi cenas interessantes. Eu era residente do terceiro ano e era o único urologista no hospital. O vice-presidente da República, também diretor do Ministério do Trabalho, apareceu no Hospital dos Servidores passando mal. Estava doente, com ele veio uma caravana de seguidores e auxiliares. Esse cidadão era João Goulart. Ele apareceu com uma cólica renal e fiz o diagnóstico. Telefonei para o meu chefe de serviço, que era o Professor Guerreiro de Faria.

“Professor, estou aqui com o vice-presidente João Goulart e ele está com uma cólica renal estável, precisa passar um cateter e precisamos liberar isso.”

“Deixa morrer esse filho da puta!” Ele disse.

Eu não acreditei.

Eu disse “Professor!”

O professor era da UDN e o João do PTB. O Guerreiro, falou.

“Pelo amor de Deus, passe você!”.

Eu passava vinte cateteres desse mesmo tipo por dia, mas eu não me senti em condições de assumir essa responsabilidade com um vice-presidente da República. Então eu insisti e ele veio. Passou o cateter nele e foi embora.

Eu fiquei cuidando do João Goulart que era uma pessoa sensacional e eu acabei ficando famoso. Eu me surpreendi com senhor João Goulart, quando ele me perguntou como estava a minha situação.

“Bom, veja bem, eu estou no terceiro ano, termino a faculdade em abril de 1957, no fim do ano. Eu vou para Curitiba e pretendo abrir o meu consultório e com a minha especialidade consagrada, vou passar a exercer a minha função.”

“Mas não seria bom um emprego? ”. Questionou ele novamente.

“Sim, um emprego sim, mas eu aguardo uma oportunidade de me submeter a um exame para isso”.

Terminei. Surpreendi-me com seus questionamentos e ele saiu agradecendo.

Depois de alguns dias, recebi um telegrama que eu tenho até hoje daqueles que vêm com tiras em cima que dizia:

“Prezado Doutor Júlio Gomel, tenho a honra de comunica-lo que, atendendo o meu pedido, o Presidente Juscelino Kubitschek nomeou você médico do Serviço de Assistência Médica Domiciliar e de Urgência (S.A.M.D.U)”.

Era presidido por um médico gaúcho. Eu fui até ele e informei que fiquei muito feliz com a nomeação, mas “eu não tenho a menor possibilidade de trabalhar porque eu passo o dia inteiro no hospital, não tenho momento de folga”. Ele indicou que eu escolhesse um posto. Então me surgiu uma possibilidade de eu consagrar os domingos para o atendimento do S.A.M.D.U. Escolhi o curso de Caxias, na baixada fluminense.

Primeiro eu me reciclei, porque eu tinha feito um preparo para me especializar em Urologia e com o estágio obrigatório de clínica médica e de clínica cirúrgica, fui obrigado a fazer o atendimento emergencial. Isso foi muito útil para a minha carreira, pois não foi fácil, sofrível e difícil trabalhar, mas eu consegui superar essa dificuldade e aproveitei muito bem isso na minha vida profissional.

Eu gostaria de falar um pouquinho sobre a nossa Curitiba, em relação a minha participação. Nós temos amigos que dispensam cuidados especiais, principalmente com o Lar Bom Caminho. Já faz mais ou menos 30 anos que eu participo desse grupo, que existe há mais ou menos 40 anos. Esse grupo de médicos atende pessoas carentes que não tem possibilidade de pagar qualquer recurso e essa ação me entusiasmou e eu passei aí boa parte do meu tempo nessa missão.

O grupo Lar Bom Caminho atendia jovens, cujas famílias não tinham condições de manter. Não eram marginais. Os pais desses jovens trabalhavam e as mães trabalhavam. Eram crianças criadas sem nenhuma orientação. Nós queríamos dar algumas orientações. E nós passamos a atender essas crianças, mas só do sexo masculino. E quando eu cheguei, tínhamos um tenente na direção disso, que embora bem-intencionado, não era competente. Eles cuidavam dos meninos até os 18 anos, alimentando e ajudando, mas o estudo, a escolaridade era insignificante. O que esses meninos seriam na vida depois? E quando eu entrei fiquei até desiludido. Esses meninos seriam marginalizados lá fora. Eles vão sair e eles não terão como competir. Não terão como conseguir coisa nenhuma.

Eu estava lá observando e o tenente achava que seria uma beleza, com os jovens servindo depois o exército como cabos das Forças Armadas. Era essa a finalidade, o objetivo dele – sem maldade – pois era isso que ele conhecia.  Eu não trabalhava para resolver despesas, pois tínhamos amigos e muitos para resolver isso. Nós tínhamos recursos, facilidade para conseguir recursos, com os amigos que dificilmente negavam coisas para nós, porque tinham confiança no que a gente estava fazendo. Mas eu achei que nós precisaríamos de uma mulher para nos orientar como dirigir uma casa.

Trabalhava comigo Luiz Carlos Pisani, o Lucas, e quando eu disse isso, ele respondeu: “Eu vou pedir para minha mulher! ”.

A mulher dele era uma artista plástica excepcional a Elizabeth Van Der Host Pisani e ela veio e em uma semana disse: “Está tudo errado. Vocês não têm condições de fazer isso. Vocês podem aproveitar essa sua boa vontade, mas não têm condições para atender crianças!”.

E eu digo sempre: o Lar Bom Caminho é o de antes de Elizabeth e o depois dela. Foi quem realmente nos orientou. Ela ficou lá conosco e foi – não preciso mentir –  quem nos orientou de verdade.

Da lição, nas primeiras orientações, fizemos uma alteração. Tivemos que dispensar o tenente. Todos. Fizemos primeiro uma atividade funcional começando  a pedir auxílio para pessoas que pudessem atender crianças. Conseguimos oferecer cursos também, para fazer as reformas estruturais e assim começou realmente o Lar Bom Caminho.

Trinta e poucos anos depois de atender tantas crianças que precisam de cuidados especiais, são crianças de parto que nasceram com sífilis, de usuário de drogas que nascem com limitações e exigem cuidados diferentes e também cuidados alimentares, precisávamos agir. Nós temos 23 funcionárias e uma estrutura excepcional para criação dessas crianças. Mas realizamos tudo para deixar todos felizes, pois estamos realizando tudo com carinho e em nada em troca.

Em busca de recursos, tivemos a ideia de lançar há 18 anos o “Jantar das Estrelas”, com o apoio total do Clube Curitibano, do pessoal da “Toca” e de celebridades, entre prefeito, deputado, jornalista, como cozinheiros voluntários. O início foi discreto, com 9 cozinheiros, depois um sucesso, com dezessete jantares consecutivos, que renderam bons lucros, isto é, recursos ao Lar Bom Caminho. Hoje, com a economia em baixa, o jantar foi cancelado, pois estava dando prejuízo, pois não é fácil com um convite a R$ 90,00 e uma família, de 5 pessoas, desembolsava uma fortuna e acabava desistindo de ir.

Confesso que não tenho inimigos, entre as pessoas que conheço. Sou atleticano doente, nem por isso deixei de assistir jogos ao lado de coxas, como o Evangelino da Costa Neves, o China, do Candinho Gomes Chagas, um jornalista arrojado – “Paraná em Páginas” – que contribuiu muito com o Lar Bom Caminho, através de aplicações bancárias cujo resultado dos investimentos iam para a nossa entidade. Depois da morte do Candinho, recebemos mais de um milhão de reais dele, que nos deixou tranquilos financeiramente para a continua existência do “Lar”.

Falando de minha profissão, eu acho que a medicina é inseparável do social. O médico não pode de forma alguma, se separar da atividade social. Ele tem obrigação de atender pessoas que não tem recursos, que necessitam de atendimento. Ele não pode se negar nessa missão. Eu sempre tive isso com uma coisa natural porque quando eu atendia no Rio de Janeiro tive contato com isso, com o que é necessário. O povo precisa de atendimento é a nossa função ajudar.

Eu casei tarde, aos 34 anos, em 1965, com uma gaúcha muito bonita, a Edi, que era socióloga. Tivemos dois filhos o Flávio, também urologista como eu, ora meu substituto no consultório e a Denise, arquiteta. Tenho cinco netos, dois do Flávio, o Bruno e o Bernardo – estudantes de Medicina – e três da Denise, o David, Vitor e Helena.

Nasci em Curitiba em 1931, no Alto da Glória  na Avenida João Gualberto, ali na fronteira. Em cima da fronteira que passa na Fontana. Atualmente é um posto de gasolina, onde ficavam as duas casas que eram da propriedade de meu pai e meu tio, Davi Gomel e Benjamin Gomel.

Eu nasci em casa porque, naquela ocasião, não existia trabalho de parto em hospital, apenas por parteira e lá ocorreu a minha vida.

Realizei o meu curso primário na escola Americana. Naquela época, os cursos mais eficientes e respeitados eram os do ensino público. Terminado horário de estudos, nós éramos apanhados pelos nossos pais. A minha mãe chamava-se Linda Solve Ventura Gomel e era ela quem me buscava aos fins das aulas. O meu pai não tinha oportunidade de fazer isso, porque trabalhava. Era proprietário de uma loja de armarinhos.

Eu estudava na escola Americana, que não era do ensino público, mas era  um ensino de boa qualidade técnica. Depois passei para o Colégio Estadual do Paraná e dali passei direto ao curso de medicina na Faculdade de Medicina do Paraná. Assim que terminei o meu segundo grau, ingressei na faculdade de medicina.  E aqui eu estudei em todas as faculdades em só local, só na unidade da Praça Santos Andrade onde todos os cursos profissionais estavam lá, como: Farmácia, Odontologia, Medicina e Direito. Durante o curso se deram algumas coisas muito interessantes, pois nós tínhamos muito envolvimento com os outros colegas de outras faculdades.

No curso, aprendermos coisas genéricas que ajudavam no exercício da nossa atividade de médico. Aconteceram muitas coisas importantes nessa hora, pois fizemos um curso muito bom com professores maravilhosos.

No terceiro ano do curso em 1954, me candidatei à residência no Hospital dos Servidores no Estado do Rio de Janeiro que era o hospital de maior qualidade no Brasil. Havia uma biblioteca completa. Todos os que desejavam almejar algum cargo de potência no ensino, passavam a estudar dentro do Hospital. Fui admitido no Hospital e passei durante três anos convivendo com pessoal que vivia lá, estudando e trabalhando, para, de certa forma, se tornarem os melhores médicos.

Os estudos eram utilizados em todas as especialidades, um estilo de muita qualidade e muito importante. Eu vi cenas interessantes. Eu era residente do terceiro ano e era o único urologista no hospital. O vice-presidente da República, também diretor do Ministério do Trabalho, apareceu no Hospital dos Servidores passando mal. Estava doente, com ele veio uma caravana de seguidores e auxiliares. Esse cidadão era João Goulart. Ele apareceu com uma cólica renal e fiz o diagnóstico. Telefonei para o meu chefe de serviço, que era o Professor Guerreiro de Faria.

“Professor, estou aqui com o vice-presidente João Goulart e ele está com uma cólica renal estável, precisa passar um cateter e precisamos liberar isso.”

“Deixa morrer esse filho da puta!” Ele disse.

Eu não acreditei.

Eu disse “Professor!”

O professor era da UDN e o João do PTB. O Guerreiro, falou.

“Pelo amor de Deus, passe você!”.

Eu passava vinte cateteres desse mesmo tipo por dia, mas eu não me senti em condições de assumir essa responsabilidade com um vice-presidente da República. Então eu insisti e ele veio. Passou o cateter nele e foi embora.

Eu fiquei cuidando do João Goulart que era uma pessoa sensacional e eu acabei ficando famoso. Eu me surpreendi com senhor João Goulart, quando ele me perguntou como estava a minha situação.

“Bom, veja bem, eu estou no terceiro ano, termino a faculdade em abril de 1957, no fim do ano. Eu vou para Curitiba e pretendo abrir o meu consultório e com a minha especialidade consagrada, vou passar a exercer a minha função.”

“Mas não seria bom um emprego? ”. Questionou ele novamente.

“Sim, um emprego sim, mas eu aguardo uma oportunidade de me submeter a um exame para isso”.

Terminei. Surpreendi-me com seus questionamentos e ele saiu agradecendo.

Depois de alguns dias, recebi um telegrama que eu tenho até hoje daqueles que vêm com tiras em cima que dizia:

“Prezado Doutor Júlio Gomel, tenho a honra de comunica-lo que, atendendo o meu pedido, o Presidente Juscelino Kubitschek nomeou você médico do Serviço de Assistência Médica Domiciliar e de Urgência (S.A.M.D.U)”.

Era presidido por um médico gaúcho. Eu fui até ele e informei que fiquei muito feliz com a nomeação, mas “eu não tenho a menor possibilidade de trabalhar porque eu passo o dia inteiro no hospital, não tenho momento de folga”. Ele indicou que eu escolhesse um posto. Então me surgiu uma possibilidade de eu consagrar os domingos para o atendimento do S.A.M.D.U. Escolhi o curso de Caxias, na baixada fluminense.

Primeiro eu me reciclei, porque eu tinha feito um preparo para me especializar em Urologia e com o estágio obrigatório de clínica médica e de clínica cirúrgica, fui obrigado a fazer o atendimento emergencial. Isso foi muito útil para a minha carreira, pois não foi fácil, sofrível e difícil trabalhar, mas eu consegui superar essa dificuldade e aproveitei muito bem isso na minha vida profissional.

Eu gostaria de falar um pouquinho sobre a nossa Curitiba, em relação a minha participação. Nós temos amigos que dispensam cuidados especiais, principalmente com o Lar Bom Caminho. Já faz mais ou menos 30 anos que eu participo desse grupo, que existe há mais ou menos 40 anos. Esse grupo de médicos atende pessoas carentes que não tem possibilidade de pagar qualquer recurso e essa ação me entusiasmou e eu passei aí boa parte do meu tempo nessa missão.

O grupo Lar Bom Caminho atendia jovens, cujas famílias não tinham condições de manter. Não eram marginais. Os pais desses jovens trabalhavam e as mães trabalhavam. Eram crianças criadas sem nenhuma orientação. Nós queríamos dar algumas orientações. E nós passamos a atender essas crianças, mas só do sexo masculino. E quando eu cheguei, tínhamos um tenente na direção disso, que embora bem-intencionado, não era competente. Eles cuidavam dos meninos até os 18 anos, alimentando e ajudando, mas o estudo, a escolaridade era insignificante. O que esses meninos seriam na vida depois? E quando eu entrei fiquei até desiludido. Esses meninos seriam marginalizados lá fora. Eles vão sair e eles não terão como competir. Não terão como conseguir coisa nenhuma.

Eu estava lá observando e o tenente achava que seria uma beleza, com os jovens servindo depois o exército como cabos das Forças Armadas. Era essa a finalidade, o objetivo dele – sem maldade – pois era isso que ele conhecia.  Eu não trabalhava para resolver despesas, pois tínhamos amigos e muitos para resolver isso. Nós tínhamos recursos, facilidade para conseguir recursos, com os amigos que dificilmente negavam coisas para nós, porque tinham confiança no que a gente estava fazendo. Mas eu achei que nós precisaríamos de uma mulher para nos orientar como dirigir uma casa.

Trabalhava comigo Luiz Carlos Pisani, o Lucas, e quando eu disse isso, ele respondeu: “Eu vou pedir para minha mulher! ”.

A mulher dele era uma artista plástica excepcional a Elizabeth Van Der Host Pisani e ela veio e em uma semana disse: “Está tudo errado. Vocês não têm condições de fazer isso. Vocês podem aproveitar essa sua boa vontade, mas não têm condições para atender crianças!”.

E eu digo sempre: o Lar Bom Caminho é o de antes de Elizabeth e o depois dela. Foi quem realmente nos orientou. Ela ficou lá conosco e foi – não preciso mentir –  quem nos orientou de verdade.

Da lição, nas primeiras orientações, fizemos uma alteração. Tivemos que dispensar o tenente. Todos. Fizemos primeiro uma atividade funcional começando  a pedir auxílio para pessoas que pudessem atender crianças. Conseguimos oferecer cursos também, para fazer as reformas estruturais e assim começou realmente o Lar Bom Caminho.

Trinta e poucos anos depois de atender tantas crianças que precisam de cuidados especiais, são crianças de parto que nasceram com sífilis, de usuário de drogas que nascem com limitações e exigem cuidados diferentes e também cuidados alimentares, precisávamos agir. Nós temos 23 funcionárias e uma estrutura excepcional para criação dessas crianças. Mas realizamos tudo para deixar todos felizes, pois estamos realizando tudo com carinho e em nada em troca.

Em busca de recursos, tivemos a ideia de lançar há 18 anos o “Jantar das Estrelas”, com o apoio total do Clube Curitibano, do pessoal da “Toca” e de celebridades, entre prefeito, deputado, jornalista, como cozinheiros voluntários. O início foi discreto, com 9 cozinheiros, depois um sucesso, com dezessete jantares consecutivos, que renderam bons lucros, isto é, recursos ao Lar Bom Caminho. Hoje, com a economia em baixa, o jantar foi cancelado, pois estava dando prejuízo, pois não é fácil com um convite a R$ 90,00 e uma família, de 5 pessoas, desembolsava uma fortuna e acabava desistindo de ir.

Confesso que não tenho inimigos, entre as pessoas que conheço. Sou atleticano doente, nem por isso deixei de assistir jogos ao lado de coxas, como o Evangelino da Costa Neves, o China, do Candinho Gomes Chagas, um jornalista arrojado – “Paraná em Páginas” – que contribuiu muito com o Lar Bom Caminho, através de aplicações bancárias cujo resultado dos investimentos iam para a nossa entidade. Depois da morte do Candinho, recebemos mais de um milhão de reais dele, que nos deixou tranquilos financeiramente para a continua existência do “Lar”.

Falando de minha profissão, eu acho que a medicina é inseparável do social. O médico não pode de forma alguma, se separar da atividade social. Ele tem obrigação de atender pessoas que não tem recursos, que necessitam de atendimento. Ele não pode se negar nessa missão. Eu sempre tive isso com uma coisa natural porque quando eu atendia no Rio de Janeiro tive contato com isso, com o que é necessário. O povo precisa de atendimento é a nossa função ajudar.

Eu casei tarde, aos 34 anos, em 1965, com uma gaúcha muito bonita, a Edi, que era socióloga. Tivemos dois filhos o Flávio, também urologista como eu, ora meu substituto no consultório e a Denise, arquiteta. Tenho cinco netos, dois do Flávio, o Bruno e o Bernardo – estudantes de Medicina – e três da Denise, o David, Vitor e Helena.

Comentarios 4

  1. Bernardo Bueno e Silva

    Tive a grande honra de conviver inúmeras vezes com o “tio Julio”, como o tratava,
    homem gentil, sereno, educado e sempre com um sorriso nos lábios.
    Amigo-irmão de meu pai, Amaury de Oliveira e Silva, sempre se destacou por sua simpatia e bondade, com espírito humanitário elevadíssimo. Sempre guardarei sua lembrança com muito respeito e carinho, um exemplo de ser humano.

  2. deborah fuks

    o tio julio era também amigo-irmão do meu pai, abrão fuks. vai ser difícil encontrar na Terra outra alma tão linda quanto a dele! como era querido!

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