Jordão da Silva (2021) Comércio – Campos Novos – Santa Catarina

Trajetória da vida do fazendeiro pioneiro de Ponta Grossa do século XIX nas lembranças de seu filho José Maria Garcia da Silva, aos 95 anos, em março de 2021 e no livro “Minhas Memórias dos 7 a 70 anos” de 1974, do seu filho Cezar Ribas da Silva.
Em 1991, foram reunidas na Chácara Alvorada, do neto Luiz Renato Ribas Silva, cinco gerações dos Silva, numa festa inesquecível vivida por mais de 400 descendentes da linhagem do velho Jordão e registrada em vídeo ao final desse depoimento.

 

Nasceu em Campos Novos Santa Catarina no dia 12 de setembro de 1870, filho de Athanásio da Silva e Francisca Carolina da Silva, ambos de origem portuguesa, constituíram uma numerosa família com 22 filhos, 18 homens e 4 mulheres.

Aprendeu desde cedo a trabalhar nas terras de seus pais com gado, cavalos e demais atividades de uma fazenda. O pai, Athanásio, deu para cada um dos filhos uma fazenda.

Era uma família com gênio forte, briguenta e Jordão, por ser de boa paz, decidiu ir embora de Campos Novos, com tenra idade. Antes mesmo da maioridade, atendeu a um convite do padrinho Domingos Mariano Ribas para vir para a cidade de Ponta Grossa, onde era proprietário de grande extensão de terra.

Jordão – conta seu filho Cezar (1974) – observou uma tropa acampada na região e pediu ao capataz para integrá-la, sem necessidade de retribuição financeira. Os tropeiros estavam levando gado e mulas para Itapetininga/SP e iriam passar pelos Campos Gerais. De pronto foi aceito e rapidamente demonstrou sua grande habilidade. Esta viagem ao Paraná durou quase três meses.

Assim que chegaram foi levado à casa do padrinho Domingos. Um abraço muito apertado selou a amizade e admiração de um pelo outro. Logo foi apresentado para Maria Josepha Ribas (Nhá Jefa), uma garota com 16 anos, dizia que era a mais linda e inteligente daquela cidade.
O padrinho de origem portuguesa ficou muito feliz e disse para Jordãozinho que ele era tudo que pediu a Deus para se casar com sua filha, não permitiu que o afilhado acompanhasse a tropa que seguiria viagem à São Paulo, pois o lugar dele era ali.

Jordão passou a realizar com a filha do padrinho, que aliás conhecia completamente todas as atividades pertinentes a administração das fazendas de nome Vila Velha; Campo Grande; Nasce o Dia; Cambijú esta era completa com quase três mil alqueires de terra; Estância Nova.

Foi fazendeiro, criador de gado, de cavalos e ovelhas com rebanhos de mais de 1000 cabeças. Negociava, trazia e levava as reses das planícies do Rio Grande do Sul; Pantanal Matogrossense até os planaltos do Paraná e São Paulo.

Possuía nove cães fox médio que reuniam a boiada como ninguém. Na verdade, confiava nos animais para realizar tão importante tarefa de pastoreio.

Seu laço de 28 metros era famoso. Laçava até pássaros, além do gado que às vezes caía de grandes alturas. Era também conhecido pelo dom da cura de animais que já estavam desenganados, – ele conseguia reverter a situação e em pouco tempo ficavam bem.

Certa vez um touro de raça estava morrendo e seu proprietário Leopoldo Cunha, grande fazendeiro da região já havia tentado de tudo de veterinários a clínicas especializadas e o animal só definhava. Um amigo sugeriu que recorresse a Jordãozinho, como era chamado. Ficou, como de costume, com o animal doente noite e dia até que conseguiu reverter a situação. O touro procriou e viveu muitos anos. Leopoldo ficou tão feliz que, em retribuição lhe ofereceu uma de suas Fazendas, mas Jordão não aceitou, pois acreditava que perderia o seu dom, cuja origem – provavelmente divina – respeitava.

Nhá Jefa foi amor à primeira vista, casaram-se e com o passar dos anos o amor se tornou cada vez mais forte e inabalável. Dessa feliz união de quase trinta anos tiveram oito filhos: Maria da Conceição, a Sinhazinha (casou-se primeiro com João Ribas Sobrinho e em segundas núpcias com Rivadavia Alves de Oliveira); Domingos (casou-se com Antonina Xavier); Nestor (casou-se com Maria Clara Bond); Cesar (casou-se com Ângela Caetano); Claudio (casou-se com Silvia); Pureza (casou-se com Benjamin Andrade Mourão); José Bonifácio/Juca (casou-se com Maria da Luz); e Vital (casou-se com Mery Schneider). Maria Josepha/Nhá Jefa faleceu em julho de 1917, na Fazenda Mutuca em Piraí do Sul pouco tempo após dar à luz ao filho Vital.

Jordãozinho ficou desorientado com a perda da esposa. Tinha fama de ser um fazendeiro muito rico e pelo seu grande e bondoso coração. Ponta Grossa era uma cidade próspera, um entroncamento onde muitos negócios eram ali realizados.

Quando ficou viúvo ficou sem alicerce, desnorteado nunca jogou, nem bebeu, seu único defeito ou vício é que passou a se relacionar com mulheres de todo tipo. Fez maus negócios, vendeu as fazendas, uma a uma, por preços muito inferior ao que valiam. Comprava imóveis para as mulheres com quem se relacionava, distribuiu sua fortuna ao longo de pouco tempo.

Conheceu Florentina (Flora) Garcia, pessoa íntegra, natural de Ponta Grossa. Sua família tinha origem francesa e espanhola, com quem se casou em 1919 e viveu 34 anos. Tiveram cinco filhos: Jordão/Edi (casou-se com Hulda Martins); José Maria (casou-se primeiro com Elcy Klimeck e em segundas núpcias com Marília Cordeiro de Simas); Ana Ruth (Aninha faleceu aos 3 anos); Ana Ruth (casou-se com Ozir Rachid Fatuch); e Regina Helena (casou-se com Laertes Marchesini). Flora administrava a casa e a família, além de realizar serviços de acabamento de costura para a Sinhazinha. Quase sempre Jordão estava viajando.

Os irmãos Euzebio e Teodoro Rosas, ex-prefeito em Ponta Grossa, propuseram sociedade ao Jordão para comprar 300 cabeças de gado em Guarapuava, relutou porque achou muito pouco a quantidade de gado, mas o convenceram porque era o que eles podiam comprar.

Montou em seu cavalo e viajou em direção ao segundo planalto, à cidade de Guarapuava, lá chegando encontrou com um grande fazendeiro que lhe propôs negócio. Jordão, no entanto, agindo estrategicamente lhe falou que não estava ali para comprar gado.

Permaneceu naquela cidade por três semanas, escutando conversas sobre a seca, que o gado estava emagrecendo, sobre o preço que a região estava comercializando o gado, na faixa entre 40 a 42 mil réis a cabeça, mas ele continuava se mostrando desinteressado.

Por fim acabou comprando duas mil e quinhentas cabeças de gado a 32 mil réis a cabeça.

Para transportar foi necessário passar com o gado à noite na Serra, onde havia um mato com sabor gostosinho, chamado mio mio, e na descida havia um riacho que o gado matava a sede, no entanto, estufava o estomago e levava à morte grande parte da boiada.

Como o gado não viu o mato, passou e chegou vivo ao seu destino que era Ponta Grossa.

Ao chegar levou as 300 cabeças de gado aos sócios. Foi procurado pelo Garmatter (proprietário de grande Frigorífico), que ofereceu comprar aos poucos. Como ele, outros se interessaram em pagar 95 mil réis, acabou vendendo toda a manada por 102 mil réis cada, fazendo um grande negócio.
Ao concluir voltou e dividiu por três o lucro recebido. Os dois sócios não queriam receber, mas por insistência acabaram por aceitar. O senso de justiça sempre foi inato em Jordão da Silva.

Na década de 30 quando a Klabin com interesse de se fixar no Estado do Paraná propôs ao Presidente Getúlio Vargas abrir uma grande fábrica de papel e celulose. O Presidente aceitou com a condição de que para cada árvore derrubada se plantasse duas mudas de pinheiro.

Jordão foi convidado a trabalhar numa das mais ricas fazendas do país a Monte Alegre. Administrava o plantio de pinheiros e cuidava para que o gado não atravessasse ou arrebentasse a cerca. Para tanto, rotineiramente percorria toda a extensão da fazenda com mais de quatro mil e quinhentos alqueires de terra.

Em 1932 o Presidente Getúlio Vargas e o Interventor Manoel Ribas foram à Ponta Grossa para inaugurar a Fábrica da Klabin na Fazenda Monte Alegre, este último disse que iria apresentar um homem que laçava até corvo se ele quisesse.

O presidente sorriu e disse você está exagerando hein Maneco?! Peça onde quer que ele coloque o laço… – nas guampas (chifres) e o Jordão preparava seu laço duplo e conseguia. E agora… – nos piales (nas patas dianteiras ou trazeiras) numa distância de mais de 30m… e, conseguia o feito. Ficou famoso com estas conquistas.

Por vezes quando chegava com a boiada ao seu destino e percebia falta de alguma res, voltada para buscá-la, conseguia desatolar com sua laçada certeira o gado que, não raro escorregava e caía de grandes alturas como no Canyon Guartelá.

Era grande conselheiro dos seus doze filhos. Cotidianamente pela manhã passava no açougue, comprava carne e levava na casa de cada um dos filhos. Levava os netos para assistir faroeste, do matiné a sessão noturna, sentados na primeira fila na primeira fila do famoso “Cine Império” em Ponta Grossa.
Jordão tinha também, como hábito, de ser o primeiro a correr para o cartório registrar seus netos recém-nascidos. Era apressadinho. Mas troca do sobrenome de um deles, o Luiz Renato, filho do Domingos, que 18 anos depois, descobriu que era o único da família, Ribas Silva e não Xavier da Silva, como seus irmãos. Mas esse equívoco, antes debitado a ele, na verdade foi do próprio pai, o Seo Domingos, conforme se verificou na certidão de nascimento do Luiz Renato no Cartório de Sant’Ana.

Deixou muitas saudades e sempre é e será lembrado pelos descendentes que mesmo não o conhecendo pessoalmente é como se o tivessem conhecido pois seus feitos são transmitidos de pais para filhos. É provável que o real sentido de família tenha sido o principal legado que o velho Jordão brindou com sua trajetória pela vida terrestre.

Em 19 de março de 1952, aos 81 anos, lúcido e pleno de energia como sempre viveu. Apressado a vida toda, a morte o surpreendeu de pé, sem prévio aviso, em sua última andança para o bate papo amigo com seus muitos companheiros.

 

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