João Pedro Correa (2017) Jornalismo – Gaspar – Santa Catarina

Ou simplesmente Jota Pedro. Nasci em 15 de novembro de 1943, em Gaspar, ao lado de Blumenau, SC, e passei a ser J. Pedro Corrêa em Curitiba, em agosto de 1964, quando fui contratado pela Rádio Independência, recém-inaugurada. Sou o 15º filho de uma família classe-média-baixa, com pouco acesso a estudos e muito menos recursos para formação superior. Os primeiros estudos básicos foram lá mesmo, em Gaspar, no Grupo Escolar Professor Honório Miranda

Meu primeiro emprego, em 1958, aos 15 anos, como operador de som da Rádio Clube de Gaspar, acabou sendo decisivo para a carreira profissional pois serviu para mostrar uma certa queda para atuar nos meios de comunicação, como mostrariam os anos em seguida. Em poucos meses, além de operador de som, eu já ajudava na produção do programa matinal de variedades e contribuía na produção do noticiário esportivo e do “jornal falado” da Rádio. É claro que tudo isto ocorria sem qualquer formação jornalística anterior. Tudo era novo e desafiador.

Em 1961, um “pulo profissional” me colocou na Rádio Nereu Ramos, de Blumenau, comandada pelo visionário Evelásio Vieira, Lazinho, que iria se tornar um fenômeno político de Santa Catarina ao se eleger deputado estadual, prefeito de Blumenau e senador da República. Meu irmão, Álvaro Correia, grande amigo do Lazinho, que já atuava na Rádio como redator-chefe de jornalismo e comentarista de futebol, nesta época, teve papel fundamental na minha formação e apoio profissional.

Blumenau, para mim, já significava desafio bem maior. Na época, com mais de 50 mil habitantes, setor industrial em pleno crescimento, comércio forte, era efetivamente o centro nervoso da região que crescia a olhos vistos. Colonizada por alemães, Blumenau conserva até hoje suas origens com suas construções em estilo enxamel e suas incríveis festas germânicas que atraem turistas de todo o país.

Em 1963, surge a oportunidade de atuar na Rádio Clube de Itajaí que tinha como expoentes de sua equipe esportiva o narrador Sady Ivo Pezzi e o comentarista Manoel Vieira Filho, o famoso Vieirinha com sua pequena estatura, mas grande conhecimento. Na época, Itajaí já era cidade importante com seu porto, aeroporto (Navegantes), entroncamento rodoviário, mas não tinha a pujança de hoje. Famosa pela indústria da pesca e pelas belas praias próximas (Camboriú, Cabeçudas e Navegantes), Itajaí tinha dois clubes de futebol bem conhecidos no Estado: o Marcílio Dias e o Almirante Barroso, presenças constantes no campeonato estadual catarinense. Com eles, conheci todo o Estado transmitindo seus jogos pela Rádio Clube.

Em 1964, daria um passo maior na carreira ao vir trabalhar na Rádio Independência, em Curitiba, emissora que revolucionou com sua proposta inovadora o rádio paranaense. Era dirigida pelo excelente Jair Brito, com quem eu havia trabalhado em Blumenau, que implantou um novo jeito de fazer rádio e por isso se tornou líder em audiência. Elon Garcia era o Diretor Comercial e nomes importantes formavam no cast da emissora. Rafael Iatauro era o comentarista de futebol.

Três anos depois, os ventos já não sopravam tão favoráveis para os lados da Independência. Àquela altura, já bem mais dono do meu nariz, intuía que era hora de buscar “algo mais”. Em 1967, o Governo Militar convida o ex-prefeito de Curitiba Ivo Arzua para Ministro da Agricultura, cuja sede ainda está no Rio de Janeiro. Ivo leva uma pequena equipe de colaboradores, entre os quais o jornalista Enok Lima Pereira que chefiaria a comunicação social. Como parte da equipe, lá estou eu para enfrentar um novo desafio profissional.

A passagem pelo Rio me proporcionou experiências interessantes, como por exemplo, ser correspondente de 3 emissoras de rádio de Santa Catarina e da Revista TV Programas, que já era um sucesso em Curitiba. No Rio, eu cobria bastidores dos principais programas de TV, entrevistava grandes nomes nacionais principalmente artistas famosos, cantores, apresentadores e enviava resumos das novelas que, depois de mostradas no Rio, viriam enlatadas para Curitiba onde seriam mostradas pelo menos uma semana depois. Cobri os famosos festivais de música popular brasileira mandando material para Curitiba e Santa Catarina. Período rico e intenso.

Apesar de viver bons momentos, eu percebia que aquilo não era, de verdade, o que me havia levado ao Rio. Intuitivamente, assim que cheguei lá, me inscrevi num curso de inglês porque achava essencial dominar outro idioma. Bingo!

Depois de alguns meses descobri, pelo Jornal do Brasil, que se encontrava no Rio um diretor da Rádio Suíça Internacional para contratar um jornalista brasileiro para trabalhar em Berna. “Foi por isso que vim pro Rio”, disse para mim mesmo e fui me encontrar com ele. Era um brasileiro de São Paulo que me atendeu muito bem, interessou-se pelo meu trabalho e pediu para gravar algumas entrevistas que ele pudesse levar para a Suíça para avaliar. Lembro que na semana seguinte gravei para ele entrevistas com Chico Buarque, Elis Regina, Vinicius de Moraes e Antonio Carlos Jobim. Ele ficou encantado com o material e eu não menos com a possibilidade de trabalhar na Suíça!

Entre este momento e minha ida para a Suíça, aparece um convite para voltar para o Paraná, desta vez para a Rádio Cube Paranaense que montava, em 1968, uma super equipe de esportes e me queria dentro dela. Topei voltar e não me arrependi. Foi, talvez, o período mais intenso que vivi no Rádio. Grandes coberturas, renhidas polêmicas, enorme exposição popular marcou esta época de ouro do rádio curitibano.

No final de 1970, a Rádio Suíça confirma o convite para ocupar a vaga aberta no serviço de língua portuguesa e em janeiro de 1971 lá estava eu seguindo para Berna para cumprir um contrato de cinco anos, renovável automaticamente por mais cinco. De longe, era a maior empreitada da minha vida: viver no exterior, praticando um jornalismo distinto de tudo o que já tinha conhecido por aqui, num ambiente realmente cosmopolita – a Rádio transmitia programas em mais de uma dúzia de idiomas diferentes, numa cidade que falava principalmente o dialeto suíço-alemão, mas onde o francês (que eu ainda não dominava tão bem), o inglês (língua oficial da rádio) e o espanhol ajudavam bastante.

Depois de ralar por bons meses e após me habituar ao jeito de ser e de viver da capital suíça, cheguei a uma conclusão que até hoje transmito para amigos e principalmente estudantes quando palestrava nas faculdades: “este é o tipo de experiência que sugiro para qualquer pessoa”. No caso específico do jornalismo, achava incrível a experiência. Imagine você, jornalista, interessado no que acontece pelo mundo, procurando entender o que se passava no planeta e ter a chance de acompanhar tudo, no centro da Europa, na mesma hora pelo olhar da imprensa mundial.

Você vai dizer hoje que isto não é novidade, mas é preciso lembrar que estou falando de quase 50 anos atrás. Quando eu chegava no trabalho às 8 horas, lia os jornais suíços; a partir das 9 chegavam os franceses, às 10 os italianos e logo depois os ingleses. Para mim, que me interessava pelo jornalismo comparado, aquilo era uma dádiva pela oportunidade de comparar os argumentos e os interesse dos “senhores da guerra”, países cujas opiniões pesavam forte na balança. Aprendi muito acompanhando com todo interesse os grandes conflitos internacionais e pude, enfim, entender claramente o contorcionismo político da Suíça para manter sua “neutralidade” no meio de interesses antagônicos de rivais de peso que, em comum, depositavam enormes reservas financeiras nos bancos suíços.

A experiência na Suíça me oportunizou cobrir grandes eventos internacionais que ocorriam nas suas principais cidades: Genebra, Lausane, Zurique, Basileia e mesmo Berna, a capital. Na Suíça estão as sedes de grandes instituições internacionais. Como jornalista esportivo, que sempre tinha sido, realizei dois importantes sonhos pessoais: cobrir os Jogos Olímpicos, em Munique, na Alemanha em 1972 e o Campeonato Mundial de Futebol, também na Alemanha, em 1974. Foram momentos inesquecíveis que registrei em reportagens para A Voz da Alemanha, Rádio Suíça e Rádio Holanda.

Em 1974, achei que era hora de voltar para o Brasil apesar do meu contrato de trabalho só expirar no final de 1975. A experiência suíça tinha valido a pena e marcou minha vida profissional. Entre outras coisas, algo que se aprende fácil por lá é planejar e, neste campo, fiz alguns progressos.

Enquanto discutia com a Rádio Suíça o fim do meu contrato, comecei a planejar outro desafio, agora pessoal que, na verdade, era um sonho que eu mesmo jamais tinha sonhado por inteiro: minha volta ao Brasil, depois de 4 anos de Suíça numa pequena volta ao mundo. Em janeiro de 1975, iniciei a viagem de retorno que duraria seis meses. Como tinha (quase) certeza de que, chegando no Paraná, encontraria emprego, resolvi gastar minhas economias suíças numa viagem que começaria em Zurique e terminaria em Curitiba, passando pela Espanha, Canadá, Estados Unidos, México, América Central e todos os países da América do Sul até chegar na Argentina. Aí, subiria pelo Uruguai, entrando no Brasil pelo Rio Grande do Sul, a caminho de Curitiba. E assim foi feito em pouco mais de seis meses.

Esta viagem foi o que de mais extraordinário já fiz em minha vida. Cruzei o Canadá, de Quebec, na costa leste a Vancouver, na costa oeste, em um mês e meio, de trem, parando alguns dias nas cidades que me pareciam mais interessantes. De Vancouver a Buenos Aires, usando os meios possíveis de locomoção (avião, trem, ônibus, carros, barcos e até taxis), foram pouco mais de 5 meses. Como havia planejado, fiz todo o percurso sozinho, buscando contatos em quase todas as cidades com pessoas que, se eu não conhecia, eram conhecidas de amigos. Isto confirmou na prática o quanto é importante um caderninho de endereços. Em cada país, comprava livros de contistas famosos para me identificar um pouco mais com a cultura local.

Ao longo destes mais de seis meses, gravei inúmeras reportagens sobre temas locais/nacionais que julgava seriam interessantes mais tarde quando já estivesse no Brasil. Achava que poderia vender este material como uma série de reportagens a um veículo de comunicação, mas não consegui vender nada. Contudo, a viagem foi marcante e, se pudesse e a idade permitisse, faria de novo.

De volta a Curitiba, em julho de 1975, trabalhei uns dois anos na Secretaria da Indústria e Comércio do Paraná no Governo Jayme Canet Junior, atuando ao mesmo tempo no jornalismo da Rádio Clube Paranaense. Aí surgiu uma oportunidade de ouro, a de assumir a área de comunicação social da fábrica da Volvo do Brasil em Curitiba. Algo novo para mim pois jamais havia atuado numa indústria e num setor totalmente novo, a de transportes de cargas e de passageiros. Mas era o desafio que me faltava e que não tive dúvidas em aceitá-lo.

Uma experiência incrível: ajudar uma empresa multinacional sueca, localizada fora do eixo Rio-São Paulo, a ser conhecida por todo o País através de propostas inovadoras e que tinham muito a ver com conceitos desenvolvimentistas que eu havia formado ao longo dos tempos. O objetivo da missão – difundir e repercutir nacionalmente a mensagem Volvo – foi atingido, basta verificar o volume, a qualidade de reportagens e as reações da sociedade às propostas da Volvo. Aos poucos, a Volvo foi se afirmando no mercado, apesar dos solavancos da economia e hoje é líder nacional em alguns segmentos de veículos pesados. Trabalhar com os suecos e brasileiros da Volvo foi empolgante.

Em 1987, apesar das dificuldades econômicas do País, a direção da Volvo aprova uma proposta minha de iniciar um programa de sensibilização da sociedade para com os problemas de trânsito no País. Oficialmente, eram perto de 30 mil mortos e outras dezenas de milhares de feridos em acidentes de trânsito por ano, praticamente ignorados pela sociedade e pelo próprio governo. Mais que isso: são perdas quase todas evitáveis, se o País tomasse medidas adequadas. O programa Volvo se propunha a acordar o País para esta realidade.

Este programa continua até os dias de hoje levando informações e incentivos para baixar os números do trânsito que tanto nos envergonham. É, contudo, uma batalha muito difícil de ser vencida, em grande parte pelo baixo nível educacional da nossa população. De verdade, muita gente vê o Programa Volvo de Segurança no Trânsito como uma utopia. Pode ser, mas se não tivermos a utopia de sonhar com um trânsito melhor, aí teremos a realidade dura, sangrenta.

Tenho o maior orgulho de haver iniciado este programa e de vê-lo como tem ajudado brasileiros de todos os cantos do País a salvar vidas. Além das centenas de palestras, debates em eventos de todos os portes no Brasil e no exterior, duas grandes contribuições que deixo na área foram os livros que escrevi: em 2009, “20 anos de lições de trânsito no Brasil – Desafios e conquistas do trânsito brasileiro de 1987 a 2007” e, em 2013, “Cultura de Segurança no Trânsito – casos brasileiros”. Depois de esgotados, estão disponíveis no site do Programa Volvo, na Internet.

Tenho disposição de continuar contribuindo com esta causa, escrevendo livros, para melhorar a compreensão da comunidade ligada ao trânsito sobre este complexo setor. Oxalá encontre patrocinadores que se disponham também a oferecer sua contribuição.

Na abertura do capítulo sobre sociedade do meu segundo livro, Cultura de Segurança, destaco a frase de um pastor norte-americano que muito me marcou: “Um País diferente não se faz com gente indiferente”! Gosto muito dela porque posso adaptá-la, provocativamente, para cidades, estados, regiões ou até mesmo setores de atividades da sociedade. É isto que move meu inconformismo em relação a um Brasil melhor, mais justo, menos desigual e onde, oxalá, o nível de conhecimento da base da pirâmide da sociedade diminua a distância do topo proporcionando enormes benefícios para todos.

 

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