Gedeval Cruz Oliveira (2021) Educação Física -Curitiba -Paraná

Nasci no dia 10 de abril de 1995, em uma cidade do sertão baiano chamada Ipirá. Mesma cidade dos meus pais e de toda minha família. Cidade pacata, com diversos povoados espalhados, sem luz elétrica ou água encanada. E em um desses chamado Malhador, onde vivi meus primeiros seis meses de vida.

Meu pai, Julio Nogueira Oliveira, homem corajoso e muito dedicado a família, saiu de casa aos 12 anos para buscar alternativas de vida para sua família que vivia assombrados pela pobreza e a falta de oportunidades. Tinha 14 irmãos, hoje apenas 10, pois parte deles morreu de sarampo ainda pequenos, evidenciando as dificuldades da época. Trabalhou anos em canaviais no Mato Grosso, em indústrias em São Paulo e no Rio de Janeiro, dormiu durante um mês ao redor do Palácio do Planalto, em Brasília, buscando oportunidade de emprego, e depois dessa jornada voltou para casa com um bom dinheiro guardado para ajudar sua família. Perdeu seu pai cedo para o Acidente Vascular Encefálico e tomou as rédeas da casa.

Nessa volta para casa conheceu minha mãe, Edneide Souza Cruz Oliveira, que residia em um povoado muito mais distante ainda que o dele, e se apaixonou. Ele sempre faz questão de lembrar que levou um ano para conseguir sair com ela. E,  após um ano de namoro, ela descobriu a gravidez.

Cercado de dificuldades, estava determinado há não me criar lá  e, sabendo de um tio que tinha vindo para Curitiba atrás de seu pai, decidiu tentar a sorte aqui em Curitiba. Saiu de lá, deixando-me recém-nascido e a única informação que tinha, era que meu tio tinha se tornado Guarda Municipal. Chegou na rodoviária de Curitiba com apenas 20 reais, conseguindo conseguiu encontrar seu tio.

Depois de um período morando com ele no Itatiaia (Bairro Fazendinha), conseguiu mandar dinheiro para minha mãe vir. Em dois anos comprou um terreno na Vila Barigui, Cidade Industrial de Curitiba, onde  construiu uma casa simples de madeira, que não tinha nem água encanada. Entre várias reformas e evoluções, moramos 14 anos nela.

Minha infância foi um pouco conturbada em questões médicas, tive vários problemas de saúde quando viemos morar para cá como pneumonia, hepatite e anemia. Vivia mais em hospitais que em casa. Aos 3 anos uma chaleira de água quente caiu sobre mim, tive queimaduras seríssimas de terceiro grau, mas graças a Deus me recuperei. Aos 5 quebrei o braço ao estar em pé em cima de um banco ao escorregar.

Passamos por problemas financeiros sérios e mesmo com o salário de Gari do meu pai, fez isso por 12 anos pelo CAVO, não dava conta de arcarmos com todas as despesas. Uma das coisas que me marcaram, era ir ao Ceasa durante a semana e, às vezes, finais de semana, recolher o que era considerado impróprio para consumo humano, mas que na nossa mesa virava uma refeição. Até mesmo íamos em açougues pedir ossos alegando que era para nossos cães, mas que na verdade virava sopa em casa. Não tínhamos mesa, comíamos no chão e muitas vezes minha mãe repartia o pouco que tínhamos com vizinhos e pessoas que precisavam também.

Eu ia com meu pai, aos finais de semana, acompanha-lo no trabalho, varrendo do Clube Curitibano até a Arena da Baixada. Foram os anos que mais tive convívio com meu pai que me ensinou muita coisa. Minha alegria era esperar uma bola de tênis do clube cair na Av. Saint Hilaire. Quando ia devolver para o segurança, geralmente ele deixava ficar com as bolinhas, eu marcava as datas com canetinha para saber que dia tinha ocorrido.

Era um Bairro muito violento, escuro e usavam muitas vezes minha rua como queima de arquivo. Minha mãe sempre me manteve dentro de casa e com os seus ensinamentos de caráter, educação, do jeito de se portar e falar.

Comecei a estudar aos 4 anos em uma Igreja Católica e, aos 6, comecei a primeira série do ensino fundamental no Colégio Municipal Pró – Morar Barigui, onde fiquei até a quarta série. Aprendi a ler aos 5 anos de idade, sendo eleito, todos os anos no colégio, como o melhor aluno. Sempre gostei muito de ler, estudar e era super curioso. Eu trocava de livro toda semana no Farol do Saber, pois a leitura fazia parte da minha rotina diária.

Quando fiz 6 anos minha irmã nasceu, Bianca Ketlly Cruz Oliveira, dessa vez não deixaram meu pai escolher seu nome, e sim minha mãe. Ele já tinha pisado na bola na escolha do meu, sempre brinco com ele em relação a isso. Sempre ajudei muito em casa, e aos 6 anos quando minha mãe ganhou minha irmã aprendi de tudo um pouco, e ajudava ela em tudo que precisava. Sempre fui uma criança muito quieta e dava pouco trabalho para minha mãe. Passava mais tempo lendo e com os brinquedos que meu pai ganhava de doações na época de gari.

O restante do meu ensino fundamental e o ensino médio, fiz no Colégio Estadual Professor Brasílio Vicente de Castro, localizado no Oswaldo Cruz na CIC mesmo. Foram anos muito bons, o colégio mesmo sendo público tinha ótimos professores e uma excelente estrutura. Minha mãe dormiu na fila para conseguir uma vaga, pois o colégio próximo a minha casa era conhecido pela violência.

Quando estava com 14 anos descobrimos que minha mãe estava com câncer no útero e precisaria retirá-lo para que não houvesse metástase. Naquela época, após a cirurgia, eu me desdobrava em casa. Dava remédios à minha mãe que estava de cama, ela ia me orientando e eu fazendo todas as atividades domésticas de casa, com a qual já tinha familiaridade, mas agora teria que fazer sozinho. Dava banho em minha irmã e arrumava ela para deixar na escola, provavelmente ela ia feia todos os dias, tinha dificuldade de ajeitar aquela quantidade imensa de cabelos que tinha.

Um ano após isso, eu tive crises convulsivas em casa ao chegar do colégio por hipoglicemia a princípio. Oito meses depois eu tive novamente duas na escola indo parar no hospital onde fiquei internado por duas semanas. Não descobriram o que era e fiquei realizando um tratamento de dois anos com Carbamazepina que me atrapalhava nos estudos devido a sonolência e a baixa disposição que o remédio nos deixa.

Quando estava no primeiro ano do ensino médio, minha mãe tendo em vista que já tinha perdido o pai decidiu voltar para sua cidade natal, pois tinha medo de que sua mãe morresse e ela não estivesse por perto. Meu pai pediu demissão do emprego e retornamos para lá. Ficamos apenas 6 meses morando no povoado de origem do meu pai, vivíamos do artesanato em couro e ganhávamos metade de um salário-mínimo. Seis  meses, após nossa ida, meus pais tinham guardado o que tinha sobrado de dinheiro e voltamos para Curitiba.

Ao voltar, nos mudamos para a última rua da mesma vila. Uma casa pequena, mas aconchegante que residimos até o dia de hoje. Ao chegar comecei um curso em um lugar chamado clube das mães, gratuito, que prometia uma vaga de menor aprendiz mediante a uma entrevista de um fiador aposentado do Banco do Brasil. Terminei o curso e fui à entrevista, o homem era extremamente ríspido e grosso, dando uma “patada” atrás da outra. Quando chegou minha vez na entrevista, entre patadas e conversas, pediu para contar minha história, ele se sensibilizou e consegui a vaga para o curso técnico em administração.

Depois de três meses de curso inicial, consegui passar em uma entrevista na URBS, começando como o menor aprendiz. Foram dois anos onde fiz muitas amizades e aprendi muita coisa. Trabalhei em dois setores, na Secretária Geral da Presidência e no Recursos Humanos, fiz um pouco de cada coisa e sai com ótima bagagem. Meu salário era curto, apenas 390 reais, mais vale alimentação que repassava para minha mãe. Levei três meses para conseguir comprar meu primeiro tênis, mas a sensação de satisfação era inigualável.

No meu último ano do ensino médio, ganhei uma bolsa para o cursinho pré-vestibular do Decisivo Integral, devido as minhas notas no colégio. Aliás nesse mesmo ano, ganhei um certificado de honraria da escola devido as minhas notas altas no semestre. Minha rotina era baseada em acordar as seis, ir para a escola, atravessar a cidade até a URBS e trabalhar até as 18:00 horas, ir andando até a rua Comendador Araújo para o cursinho, ficava até as 23:00 horas e voltava para casa. Às vezes perdia o último ônibus e tinha de ir do Terminal Fazendinha até em casa a pé.

Com o tempo comecei a treinar em uma Escola do Coritiba aos sábados, na qual era isento e ir aos sábados à tarde e domingos ao cursinho. Minha rotina só enchia mais e eu ainda novo, sem muita orientação ia me equilibrando como dava para entender para onde ir naquela fase da vida. Meus pais não tinham chegado até ali, ambos só tinha estudado até a quarta série e naquele momento eram auxiliares de produção, não tendo muito como me orientar e eu andava com as próprias pernas.

Como e quando chegar os vestibulares da UFPR, PUC e ENEM, só foi possivel por ter tido isenção da mensalidade pois não teria condições de pagar. Na PUC passei em Turismo em primeiro lugar e tinha direito à Bolsa integral. Porém alegaram, na época, que eu precisava ter feito os últimos três ENEM e eu não tinha. Perdi a Bolsa. Na UFPR, passei com uma nota alta, mas no dia da matrícula não fui, devido a grade conflitando com os horários do meu trabalho. Tirei uma boa nota no ENEM, e pelo fato da minha paixão por esportes optei por Educação Física na Universidade Positivo. Só tinha uma Bolsa integral e era minha. Foi o auge!

Para se formar não foi fácil, não mesmo! Mesmo não pagando tinha que arcar com os custos, pois já tinha terminado meu contrato com a URBS. Trabalhei um mês numa loja de doces e consegui sobreviver quase um ano só com dinheiro que tinha juntado no menor aprendiz. Isso que tinha pagado minha carteira de motorista que minha mãe tinha me prometido, mas estava sem condições na época e eu decidi eu mesmo pagar. Meu pai enfartou, nesse período  e eu mesmo o  levei  apoiado no meu braço até a UPA. Foram meses difíceis, mas ele se recuperou graças a Deus e sem sequelas.

Começo do ano seguinte, comecei na Bosch como estagiário e fiquei lá por um bom tempo. Nesse período, cheguei a fazer bicos de garçom a noite para complementar a renda e dormia no ambulatório do clube para não perder o horário do estágio no outro dia. Depois trabalhei em um projeto para idosos no Positivo, dando aula de dança, alongamento, fortalecimento e até hidroginástica. Entre idas e vindas, me formei!

Tive depressão dos 14 aos 22 anos. Passei todo período da faculdade sofrendo com isso, na verdade boa parte da minha adolescência. Nunca me abri para ninguém da minha família, passando por tudo isso sozinho foi algo aterrorizante, no último ano, com a depressão, estava em um estado de calamidade. Às vezes me pergunto como sai daquelas, mas lembro sempre que foi Deus que me curou, essa a resposta.

Logo que me formei eu e um amigo tínhamos em mente de ir embora para Boston tentar a vida e tivemos por duas vezes nosso visto negado. Decidi então começar a atuar na área, já que estava trabalhando novamente na loja de doces. Contratei um mentor de carreira, Aurélio Alfieri, o qual foi me orientando para como entrar na área, da vestimenta a fala. Pedi demissão da loja e comecei através do Gian, proprietário do Studio onde atendo hoje, a fazer estágio voluntário. Não recebia nada e, às vezes, cheguei a voltar a pé algumas vezes por falta de dinheiro mesmo. Mas aprendi muito e, no final de 2017, comecei com meu primeiro cliente.

Hoje sou especialista em Medicina do Esporte e Atividade Física, nos últimos quatro anos fiz quase 70 cursos e congressos, li mais de 30 livros e muitos artigos do gênero. Amo estudar, ler, pois conhecimento é libertador. Ao longo desses quatro anos descobri que amo o que faço, sabendo que você, através do seu trabalho da sua vida, pode melhorar outra, coloca sentido à sua existência. Mesmo com os meus 26 anos e todas as dúvidas que viajam pela minha cabeça, anseios e sonhos, sou feliz pelo que me tornei. Sou feliz de ter uma família que me ama e sempre me apoiou, pela simplicidade dos meus pais em me passar o melhor ensinamento que existe, que é ter honra e caráter. Isso não se compra, se cultiva. Sou grato por saber do cuidado e o amor de Deus comigo, que eu possa continuar essa caminhada e deixar um legado para o futuro.

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